30 de jun de 2008

Capítulo 14: Perdidos no mundo (Paulo)

Quando entrei na casa, ela reconheceu meu passo e sentiu minha presença. Virou para trás seu rostinho da poltrona onde assistia televisão e correu para mim. Braços abertos no ar que se fecharam em volta do meu pescoço quando a suspendi no ar.

_Você veio. _ Clara encostou sua testa na minha e roçamos nossos narizes. _ Eu te amo, pai.

Sorri e beijei seu pescoço. Pisquei o olho para minha irmã, sentada no sofá conversando ao telefone. Trouxe Clara até seu quarto e a deitei na cama.

_Já não está na hora de dormir? _ perguntei.

_Agora? Não! _ ela ajoelhou em minha frente e sentou sobre as pernas. _Por que demorou tanto para vir me ver?

_Porque o trabalho do papai está longe agora... _ passei a mão em seu cabelo ondulado comprido e negro. Era macio e cheiroso. Sentia-me satisfeito por saber que minha irmã cuidava bem da parte mais pura e santa de mim.

_Eu sinto muito a sua falta. Eu queria que você estivesse aqui comigo para me dar um beijo de boa noite, para me levar na escola, para brincar comigo no parque...

_Eu estou aqui... _ puxei-a para perto e ela se aninhou em meus braços. _ Você é linda.

_Tão linda quanto a mamãe? _ olhou para cima a fim de fitar meus olhos e buscar a verdade.

_ Mais, muito mais porque você parece com o papai também. _ fiz carinho em suas mãos.

_Pai, a mamãe nunca mais vai sentir vontade de voltar?

_Não sei o dia, mas acho que sim. _ alimentei sua esperança para não entristecê-la. _ Eu sinto vontade sempre, só que trabalho muito.

_O que você faz no trabalho pai?

_Eu? Eu trabalho para um homem muito importante.

_É? _ perguntou. _ Posso conhecê-lo?

_Não!

_Por quê?

_Ãhn... Ele é ocupado.

_Entendi... E o que mais?


_Nada, ele manda fazer as coisas e eu faço.

Se ela soubesse o que isso significava... Sua escola cara, suas roupas, comida e moradia dependiam daquele homem que ela não podia conhecer. De cada ordem dele bem cumprida. Essa última anda me parecendo a mais difícil de todas.

Clara deitou-se e eu fiquei ao seu lado até que dormisse. Lembrei do beijo de Jéssi e de seu jeito perdido no mundo. Havia uma parte de mim também perdida, mas que eu não podia contar. Abracei minha filha e dormimos.

29 de jun de 2008

Capítulo 13: Sem respiração (Paulo)

anna nalick - breathe



Jéssi ainda repousava com as mãos nos meus ombros. Eu só tinha que lhe dizer em poucas palavras o que estava acontecendo. Mas, a sua proximidade de repente me fez perder a velocidade dos reflexos. Era hora de acabar com aquela mentira. O jogo de luz nos seus olhos, os cílios longos e claros, as pequenas pintas na bochecha, a boca rosada e úmida, mais uma vez os olhos e... o que mesmo eu ia dizer?

_Isso aqui não é valsa, não! _ bravejou um veterano ao nosso lado e eu despertei da inércia.

Inclinei um pouco a cabeça para falar-lhe próximo ao seu ouvido:

_Não precisa beijar...

_Qual é, cara? Não está na boate, não precisa passar papo no ouvido! _ gritou outro.

Eu estava acabando com a minha reputação de homem enquanto tentava ser honesto!

_Eu fico puto com esses caras do 5º período! Não fazem porra nenhuma e chegam aqui e pegam as gatas! _ irritou-se outro comigo.

Logo eu, que queria chamar pouca atenção, acabei centralizando todos os olhares para nós.

_Jéssi, não ligue para eles... _ o rosto dela já estava bem perto do meu. _... É tudo uma armação. _ falei com ajuda do último neurônio não infectado por testosterona.

_Ãnh? _ ela franziu a testa.

_Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhh! _ ouvimos o lamento geral pela sua desistência.

Como as outras garotas acabaram de beijar e eles já estavam prontos para a próxima brincadeira, eu pude tirar Jéssi dali. Trouxe-a para um canto próximo ao corredor do banheiro, onde não havia ninguém.

Aquilo estava beirando o insólito! Como eu podia estar ficando tão perto dessa garota?! Depois eu pensava sobre isso, agora era hora de terminar minha boa ação do dia.

_Do que estava falando? _ ela me perguntou.

_Eles armaram tudo. Aquela garota que chamou vocês para beijarem os veteranos já namora aquele cara.

_Nossa! _ Jéssi passou a mão na testa, acordando de alguma hipnose que a fez passar por um papel ridículo.

_Eu nunca iria fazer você me beijar só porque sou um veterano.

Mentira! Se ela tivesse dado mais um respiro próximo à minha boca, eu não agüentaria.

_Só não entendi por que veio aqui? Veio só por mim? _ perguntou, mas senti indignação em seu tom de voz.

_Eu te salvei dessa e não gostou?

_Você me achou uma garota do interior que não é capaz de distinguir o que é certo e o que é errado... _ ela encheu os olhos de lágrimas e aquilo me conteve para não romper de raiva. Agora eu era a vítima de uma injustiça. _... Teve pena de mim, não é? Por que eu não poderia simplesmente beijar um cara e fingir que nada aconteceu depois? Ãnh?

Eu não estava acreditando no que ouvia! Ela só podia estar louca!

_Eu não sou tão antiquada assim! _ Jéssi me pegou pelos braços agressivamente e me trouxe até a parede. Eu tinha forças para facilmente resistir. Mas, sua atitude inesperada me tirou a ação. Onde pretendia chegar? _ ... Quem disse que não posso levar tudo na brincadeira? _ desafiou.

Ela segurou meu rosto e, quando pisquei os olhos, já estava com a boca colada à minha. Segurei ainda seus dois pulsos juntos, na altura do seu pescoço. Jéssi forçou seus lábios entre os meus até que minha mandíbula abriu e senti sua língua. Desci seus pulsos ainda algemados pelos meus dedos e ela não parou de me beijar. Minha língua quis a dela com uma mistura de raiva por estar me usando. Ouvi minha respiração alterada saindo por minhas narinas e mudei a posição do rosto para desviar o nariz. A força do meu beijo a fez inclinar a cabeça para trás. Fui mais forte, mais profundo, mais intenso e explosivo, testando seus limites. Aquilo se tornara uma competição e não havia mais qualquer racionalidade naquele jogo de “sou eu que estou beijando”. Era uma questão de honra que nos unia à parede e tornava o ato mais e mais desejado. O desejo do próximo beijo nascia no fim de cada movimento de lábios e língua, contínuo, úmido, quente e macio. Todos os nervos distribuindo prazer do ponto de nossas bocas para o resto do corpo, anestesiando e trazendo mais energia.

Era Jéssi! Não era uma garota qualquer! Afastei-me bruscamente, saí da parede e passei a mão na boca para ver se havia muito batom. Recuperei a respiração e engoli em seco.

_Não devia ter feito isso! _ culpei-a e me virei para ver seu rosto. Ela estava olhando para os lados, como quem é teletransportada para outro século e não sabe onde se encontra.

Agora era sua vez de não ter voz, nem de me olhar.

_Você pode levar tudo na brincadeira, sim. Mas, não comigo! _coloquei as coisas no lugar para que soubesse que não era seu cachorrinho. _ E vou responder a sua pergunta de por que não podia beijar alguém e fingir que nada aconteceu. _ comecei a gesticular e a falar um pouco alterado. _ Eu não pensei que fosse uma garota desse tipo. Achei que seus sentimentos importavam e que ficaria magoada por ter sido usada por um veteranozinho qualquer. Mas, vejo que não há diferença nenhuma. Que o mito da garota comportada do interior é uma grande versão de novela. Você não tem uma coerência de atitude! Uma hora banca a mulher super decidida e independente e, em outros momentos, representa o papel da garotinha que faz uma ceninha dessas aqui...

Jéssi se aproximou com passos precisos e parou na minha frente com os olhos cintilando de raiva e os dentes apertados. Parei de falar e ficamos um segundo em silêncio, até que foi sua vez:

_Se eu te desilusionei, você não me surpreendeu em nada. Representou bem o papel do cara da cidade que se aproveita das garotas e não está nem aí.

_O quê?! _ fiz uma careta de horror. _ Você me beijou! _ ri sarcástico, apontando para o meu próprio peito.

_Por que correspondeu?!

_Por que... ãnh... não seja ridícula!

_E não seja grosso. _ referiu-se ao que eu dissera que achava dela agora há pouco. _ Eu não sou o que está pensando! _ advertiu e sentou-se no degrau da varanda que dava para o campo de futebol. _ Eu não sei onde estou me metendo, nem as regras do que é ou não certo. Que merda! _ começou a conversar sozinha, olhando para a frente.

Eu não acreditava que ela pudesse virar a mesa do jogo com tanta facilidade e já me fazer sentir culpado novamente! Que mulher manipuladora era aquela? Ou só uma garota perdida e ingênua? Odiei-me pela covardia de não ser malvado e sentei ao seu lado.

_Eu já passei por essa sensação de não saber como são as regras.

Jéssi virou o rosto para mim e suspirou. Seu cabelo ondulado emoldurava seu rosto e a franja brincava em sua testa, caindo sobre seus cílios.

_Que grande burrice eu fiz. _ ela riu alto e afastou com os dedos a franja. _ Desculpe? _ pediu como quem mexe em uma gaveta particular, só se esquecia que tinha mexido com a mais reservada de todas.

Sorri e fiquei reparando nos seus olhos pintados de cinza escuro e envoltos com um forte lápis preto. Nunca pensei que garotas do campo gostassem tanto de maquiagem. Talvez Jéssi fosse me ensinar mais sobre elas.

_Pode me desculpar? _ ofereceu a mão. _ Prometo que nunca mais vou beijá-lo nessa vida. Nunca, nunca mesmo! Never, palavra!

Uau! Tinha sido tão ruim assim? Como ela poderia se desfazer tão rápido do meu beijo?

_Só no rosto! _ ela sorriu e me deu um empurrãozinho com o ombro no meu para que eu reagisse. _Ãnh?


Balancei a cabeça para os lados e sorri. Voltei a olhá-la.

_Só no rosto. _ aceitei.

Jéssi inclinou o rosto para o lado e me beijou demoradamente na bochecha, até que seus lábios se desgrudaram e ela passou o polegar delicadamente onde tinha beijado e parecia feliz por tudo ter terminado bem.

_Você é legal. _ falou, convencida disso.

Não podia dizer isso...

28 de jun de 2008

Cap 12: Armações e acasos do destino (Jéssi e Paulo)

A matricula foi mais rápida do que pensei e, quando me dei conta, estava já entrando na faculdade abraçada ao meu fichário cor de rosa. Era um lugar bonito aquele prédio. Vinte andares, fachada de vidros escuros e ar condicionado central. Na realidade, as salas se localizavam na torre de um prédio comercial e ocupavam dois andares dele. No térreo, havia várias lojas de roupas, sapatos, livrarias e lanchonetes. Formavam uma espécie de galeria.

Eu estava com um friozinho na barriga. Não conhecia ninguém, exceto Paulo. Queria muito fazer novas amizades e começar a fincar raízes aqui. Tinha sede por me dar bem nesse projeto de vida longe da minha cidade. Meu próximo passo seria arrumar um trabalho logo. Mas, uma coisa de cada vez. Primeiro, tinha que me adaptar às aulas.

_A gente quer dar um recado rápido! _ um aluno bateu na porta e colocou a cabeça para dentro. O professor olhou para o relógio e fez um sinal para que não demorassem. _ É bem rápido. _ sorriu e ficou em cima do tablado. _ Oi, oi, pessoal. Eu sou o Vinícius e essa é a Luana. _ falou o rapaz de cavanhaque.

Até que Vinícius era bonitinho: cabelo preto, curto, braço definido e um belo sorriso. Seu estilo ainda era jeans, camiseta. Não devia estar fazendo estágio, pois não usava roupa social como Paulo. Ou, quem sabe, não estava em um período muito acima.

_ Nós estamos aqui para convidar vocês para uma recepção dos calouros no campo society que fica no final da rua. Lá, há uma área coberta para a gente fazer uma zoação e se conhecer. No intervalo, a Luana e eu vamos estar perto da cantina para explicar melhor e vender os convites.

Eu não queria ficar excluída do convívio social. Precisava me enturmar logo e deixar minha marca. Se fosse para ficar escondida, eu não teria vindo até aqui. Comprei um convite e estava lendo-o quando ouvi um “oi”. Era Paulo, saindo de uma aula.

_Oi! _ sorri. Era bom vê-lo, me transmitia uma sensação de inclusão. Detestava aquele incômodo sentimento de isolamento dos primeiros dias.

_Que isso? _ perguntou e virou o pescoço para olhar o convite.

_Vai ter uma confraternização com os calouros. _ expliquei, mas imaginando que já soubesse ou tivesse passado por isso também um dia.

_Cuidado. _ advertiu-me rapidamente.

_Ãnh? _ franzi a testa e fiquei assustada com a seriedade com que falou.

_Eu preciso ir. _ disse já longe.

_Tomar cuidado com o quê? _ perguntei e Paulo já havia sumido no corredor em meio ao formigueiro humano de alunos.

Olhei mais uma vez para o papel vermelho de letras brancas tentando encontrar qualquer periculosidade de que havia me advertido. Tudo bem que vermelho não era uma cor que me inspirasse confiança. Mas, isso não queria dizer nada, não achei o que suspeitar.

Cheguei ao local um pouco tímida, com as mãos nos bolsos da calça e a mochila nas costas. O tal campo ficava dentro do espaço de um pequeno clube. Identifiquei-me na portaria e me apontaram para um lugar cheio de jovens e de onde vinha o som de música e cheiro de churrasco. Percebi o quanto estava com fome.

Por que Paulo pedira para eu tomar cuidado? O que eles poderiam me fazer de mal? Até achei legal a iniciativa de receberem os calouros aqui, longe da faculdade. Será que me consideravam uma jeca do campo que se mete facilmente em confusões ou dá vexames? Se fosse só isso mesmo, ele acabara de perder pontos comigo.

_Entra aí, qual seu nome? _ perguntou um cara loiro-alto-me-convida-para-sair.

_Jéssica.

_Se divirta. _ me passou um copo de cerveja.

Lembrei daquela máxima “nunca tome nada que estranhos lhe ofereçam” e deixei o copo de lado. Peguei outro que acabava de ser servido. Não dava para ser tão careta, nem ingênua.

_Gente, vamos começar as brincadeiras, tá? _ o tal Vinícius que vendera os convites falou mais alto para chamar a atenção de todo mundo. _ Aqui tem umas bolas de festa cheias . Vamos formar dois grupos de cinco garotas e dois de cinco garotos.

Entrei em um deles e aguardei a próxima explicação.

_As garotas vão vir correndo e sentar de frente no colo do veterano.

_AAAAAAAH!!! _ fizemos um gritinho de surpresa.

_Vamos, vamos! Isso aqui é para se ambientarem! _ mandou.

Eu não quis bancar a única cheias de pudores e peguei uma bola amarela. Entrei na fila e a música começou a tocar. Assim foi feita a brincadeira. Cheia de frases engraçadinhas:

_ Vem, senta aqui no colinho!

_Agora vamos inverter! Vocês vão sentar de costas!

_Ahhhhhhh!


***

Cyndi Lauper - Time After Time


Sandro comentou comigo que os veteranos do segundo período iam fazer a confraternização no campinho. Lembrei do convite que vira agora há pouco nas mãos de Jéssi.

_O que está me dizendo? Eles vão fazer aquela armação?! _ alterei a voz.

_É, cara. Por quê? Qual o problema? É engraçado. _ Sandro riu.

Levantei-me. Não podia deixar Jéssi sozinha naquela chopada. Senti um impulso de impedir que a fizessem de idiota.

_Onde pensa que vai? _ ele perguntou, vendo-me pegar a mochila. _ Vai matar a aula?

_Depois copio. _ abri a porta, aproveitando que o professor não havia chegado.

Cheguei no portão do clube e tive que desembolsar uma grana. O segurança de Jéssi estava do outro lado da rua dentro do carro. Que bom que ele se mantinha à distância. Se soubesse o que estava prestes a acontecer, contaria logo para seu patrão e este arrancaria a filha daqui. O que colocaria meu trabalho pelo cano.

Quando cheguei, eles estavam explicando em que consistia a próxima tarefa da dinâmica. Que bom que eu não demorara demais.

_Eu desafio as calouras a escolher o veterano que quiser para beijar.

_Ahhh!!! Quê? _ ouvimos as reclamações das garotas.

_Beija! Beija! _ começaram a aplaudir os organizadores.

Vi Jéssi no meio do grupo, aproximei-me mais e seus olhos se encontraram com os meus. Queria poder lhe dizer que não caísse na armadilha. Mas, se eu fosse o estraga prazeres, queimaria meu filme com eles.

Uma caloura que já sabia da armação da brincadeira caminhou em direção a um dos veteranos. Fez sinal com a mão, incentivando as demais a segui-la na atitude de aceitar o desafio. Ela fingia muito bem em demonstrar que não queria fazer aquilo. Mas, na realidade, ela já era namorada do veterano. Para ela, não faria diferença.

Algumas se arriscaram a dar um passo adiante também e escolheram alguns veteranos. Jéssi ficou parada, olhando para os lados. Desnorteada. Tive pena, aquilo era ridículo! Eu não aceitava a idéia de fazerem aquela garota de boba para rirem depois.

Caminhei até ela e fiquei em sua frente. Jéssi respirou fundo e, antes que eu dissesse que não precisava participar daquela ceninha idiota, ela colocou as mãos nos meus ombros. O que ela iria fazer?


Bastidores= É fácil falar mal do sistema até ser beneficiado por ele. Como será que Paulo vai reagir? Seu discurso de salvar a amiga de apartamento continuará o mesmo? De uma coisa ele está certo, quando a verdade vier à tona não vai ser nada engraçado. O que vocês acham que ele deve fazer?

Enquete:

-Paulo deve beijar Jéssi, sim ou não? (vote, clique aqui e veja os resultados parciais)

25 de jun de 2008

Capítulo 11: Entre dedos (Jéssi e Paulo)

Sentei na cama e afastei com as mãos o cabelo que caía no rosto. 8:00 h am. Apertei os olhos pela luz que insistia em entrar no quarto, apesar da fina cortina branca. Levantei e espiei a sala. Não havia ninguém. Ótimo, estava sozinha.

Caminhei preguiçosamente até o banheiro e lavei meu rosto. Com a escova espumante na boca, fui até a sala e olhei o jornal em cima da mesa de Paulo. Abri-o e li as manchetes. De repente, o ferrolho da porta fez um estalido metálico de uma chave girando. Não deu tempo de esboçar qualquer movimento além de olhar para baixo e perceber que eu estava de calcinha vermelha estilo shortinho e uma camiseta preta baby look de estrelas prateadas.

Tossi, me engasgando com a espuma. Olhei para frente e vi Paulo entrar de terno e gravata sala à dentro. Como assim? Eu ali semi-nua e Paulo me encarando com ar de surpresa!

Desesperei-me, puxei o primeiro caderno do jornal que vi para tampar minha calcinha. Torci para ele não ter lido “Aípod”. A minha escova escapuliu e caiu no chão. Abaixei-me para pegar e ele deu uma olhada no que estava escrito na minha bunda “Aínãopod”. Eu estava espumando e de boca cheia de creme dental. Fui humilhada para o banheiro com um jornal na frente e outro atrás!

Eu bem que poderia viver ali até Paulo querer se mudar novamente! Eu estava vermelha de vergonha. Havia água e uma planta. Quanto tempo eu sobreviveria comendo uma folha por dia e depois as raízes igual ao filme “E o vento levou”?!

Lavei a boca. Certifiquei-me de que Paulo estivesse na cozinha e só aí fui até o quarto em passos corridos, aos pulinhos. Vesti uma calça comprida de tactel rosa com listas brancas nas laterais.

Respirei fundo e me dispus a atravessar a sala para tomar café da manhã na cozinha. Paulo já estava sentado em frente ao laptop.

_Hei! _chamou-me. _ Não precisa ficar envergonhada, eu achei engraçadinho.

_Engraçadinho?

_O que pode e o que não pode. _ balançou um lápis entre os dedos. Ele tinha um sorriso de superioridade por estar me constrangendo que fez subir a minha temperatura de raiva.

_Estava de trás para frente! _ pisquei e foi minha vez de ser superior e deixá-lo com cara de bobo.

Não acredito que tinha acabado de falar aquilo! Eu não era, claro, a menina mais tímida e recatada do mundo, mas onde morava certas regras do que fica bem à uma mulher fazer ou não me forçavam a me controlar mais. Esse era um dos motivos que me trouxera até aqui, uma vontade de dizer e agir como eu quiser. Peguei um copo de leite e sentei no sofá para ligar a televisão. Só passava desenho animado.

_Você não estaria na faculdade? _ perguntei.

_O professor precisou faltar.

_Hum. _ falei e lambi o bigodinho de leite. _ Você vai voltar para lá hoje ainda?

_Vou. Por quê? _ perguntou, digitando freneticamente no teclado.

_Posso ir com você? Quero me matricular.

_Em quê?

_Direito.

_Você? _ parou de escrever e me encarou com espanto.

_É. Eu mesma! _ sorri. _Acha que eu não sou capaz?

Ele deu uma grande risada de desafio e fez uma cara de vítima da minha acusação.

_Então, futura advogada do Brasil, se arrume. Eu só passei aqui para pegar uns arquivos. _ mostrou o pen drive que acabava de desconectar do pc.

_Quanto tempo eu tenho?

_Hum... Quinze minutos.

_Ãhn... tudo bem. _ corri para o quarto, pus uma das malas sobre a cama e puxei tudo para fora. _ Que cor está meu espírito hoje? Vermelho!

Peguei uma blusa vermelha sangue. Coloquei uma calça preta, bota cano baixo vermelha, bolsa vermelha, batom vermelho e um relógio de pulseira vermelha.

_Demorei muito? _ perguntei.

_Não, que isso, dava para eu ter lido pela segunda vez a constituição. _ falou, enquanto estava de costas, pegando um livro na estante. _ Você vai assim? _ perguntou ao me ver.

_Por quê?!

_Parece uma grande espinha na ponta de um nariz branco!

Eu poderia pegar aquele jarro de planta da mesa de centro e arremessar na cabeça dele ou chorar trancada no quarto. Mas, não deixaria que me abalasse. Caminhei em direção a porta.

_Vai ficar aí? _ perguntei e ele veio atrás.


***

Quando atravessei o portão da faculdade, senti os olhares sobre mim. Quem era aquela garota loira e linda ao meu lado? Eu li isso na linha da testa franzida das pessoas que me conheciam. Prendi a atenção deles por uns segundos ou seria a respiração que Jéssi tirava de cada um?

Ela pegou no meu braço primeiro ou fui eu que o segurei para ter seu apoio? Não soube até hoje se era ela que me levava ou se eu que a conduzia pela escada que dava para a faculdade.

Eu não era muito enturmado ali, entrava e saia com os livros sem dar muitas explicações sobre minha vida. Agora Jéssi passava para os que nos olhavam uma carta de apresentação sobre minhas capacidades masculinas.

_É legal aqui... _ ela riu e não parava de reparar nos detalhes.

_É sim, vale cada centavo.

_Você está em que semestre mesmo?

_Quinto.

_E eu, uma caloura. _ riu e senti que ficou mais perto. Entendi aquilo como um pedido de proteção.

Ela era decidida e, ao mesmo tempo, conseguia parecer frágil. Duvidava se eu tinha que protegê-la ou se pedir que me amparasse. Como alguém conseguia passar confiança e espanto em ritmos tão oscilantes? Eu não era muito bom ainda em sua interpretação.

_Eu tenho que assistir a minha aula. _ parei na frente de uma porta.

_Mas... e eu? _ ela perguntou, segurando meus dedos como o último toque das suas mãos que escorregaram do meu braço.

_A secretaria é por ali. _ indiquei.

_Mas... ãhn. _ ela olhou para trás e novamente para mim.

Eu também não quis deixá-la ali sozinha, no mar de alunos que formavam uma contra correnteza batendo em nossos ombros. Não me sentia confortável dizendo que a abandonaria na turbulência do desconhecido. Por que eu começava a cultivar aquelas considerações por essa moça se daqui a pouco tudo viria à tona? Não posso me apegar.

_ Eu preciso mesmo ir. Minha aula vai começar.

_Tudo bem. _ abaixou os olhos e se virou.

Não sei se por orgulho ou despeito se desfez da minha presença e apertou o passo convicta para a secretaria. Só retirei meus olhos de suas costas quando ela sumiu pela porta sem olhar para trás. O que eu queria? Que ela olhasse?!



Bastidores= Na mesma casa, na mesma faculdade...

Enquete do dia: O personagem de um livro para você tem que ser: o sedutor, o palhaço, o fora da lei, nerd-amigão, o gostosão-pode-tudo? Vote aqui! (veja os resultados)

23 de jun de 2008

Capítulo 10: Meu mundo (Paulo)

Passamos pelo segurança da porta com desenvoltura de atores, mas meu plano não se fez tão infalível.

Na cozinha, abri a geladeira para beber alguma coisa. Ouvi Jéssi, da sala, dizer:

_Acho que sujei sua jaqueta! _ falou.

Lembrei-me da câmera instalada no vaso de planta do armário e isso me fez apertar os olhos e xingar baixinho. Já era, nesse momento, eu acabava de me meter em encrenca. Peguei uma garrafa de uísque que eu tinha colocado no congelador e bebi uma dose em um copo pequeno de vidro. Voltei a colocá-la lá. Para que se descabelar se o desastre já tinha sido irrompido?

_Eu vi que tem uma lavanderia na esquina... _ ela aproximou-se com a jaqueta na mão. _ Posso levar até lá...

_Não esquenta. Joga isso aí... _ indiquei com a cabeça o cesto de roupas.

_Tudo bem. _ ela permaneceu em pé, segurando o casaco e me olhando.

_Que foi? _ larguei o copo na pia.

_Nada, eu tive uma sensação.

_Não está passando bem?

_Não, não é isso. Eu tive uma sensação de que você já tinha feito aquilo antes.

Que maravilha!

_Impressão!

Quem mandou eu dar uma de Super-Homem carioca? Agora agüenta!

_Você resolveu o curativo rapidamente, soube o que comprar. Parecia tudo no automático.

Ah! Então era isso? Ela estava falando do pós-assalto? Melhor! E eu achando que se referia ao modo como reagi com o bandido.

_Me dou bem sob pressão, deve ser isso. Meu cérebro funciona mais rápido.

_Deu para perceber. _Jéssi sorriu. _ Eu vou dormir, então.

_Acho que para um primeiro dia você já passou por emoções demais.

_Espero conseguir dormir.

_Ah! Vai sim...

Ela foi para o seu quarto e eu sentei no sofá. Não demorou muito para o meu celular começar a tocar. Tirei-o do bolso e atendi.

_O que aconteceu? _ a voz de Rafaela estava irritada.

_Não foi algo tão relevante. _diminui o caso.

_E o que eu vi no braço dela agora pouco na sala foi tinta guache vermelha porque vocês estava brincando de paintboll?

_... _ eu fiquei calado, não ia responder a sua ironia. _ Como ela se machucou, Paulo?

Levantei-me e fechei a porta da varanda pelo lado de fora. Não podia conversar sobre aquilo e correr o risco de Jéssi ouvir.

_Fomos assaltados. Um moleque passou o canivete para arrancar a bolsa dela e acabou cortando o braço.

_Quê? Não é à toa que o pai dela colocou um segurança na cola. E ele?

_Ela não quer viver grudada no segurança e confiou em estar comigo.

_É? Ela não fez uma escolha inteligente.

_Mas, está tudo bem. Só levaram o celular e eu dei uns cascudos no filho da mãe. O imbecil ainda morreu atropelado.

_Isso é uma irresponsabilidade. O que você pretende? Matá-la antes da hora?

_Hei! Não fui eu o assaltante, tá bom?

_Eu estou de olho em vocês!


DANNI CARLOS - *COISAS QUE EU SEI*


Desliguei com raiva e fechei o aparelho com força. Sentei-me na cadeira e olhei pelo vidro da sacada a cidade escura lá embaixo. Os carros formando riscos luminosos como estrelas cadentes do asfalto.

Senti saudade da minha irmã e de Clarinha. A voz de Vanessa na minha memória perguntava por que valia a pena eu arriscar minha vida. Se aquele pivete estivesse armado, eu teria morrido de maneira ridícula. São coisas que eu sei, mas não peço para entenderem os meus impulsos. Meu mundo é vizinho das minhas insanidades.

Eu não dou satisfação para ninguém sobre meus pecados. Eu mesmo pago minhas penas e não divido nem culpas ou remorsos com ninguém. Às vezes, dá orgulho. Noutras horas, temor, mas, em nenhuma, arrependimento. Só não sei onde tudo isso termina, sigo me levando para frente, nos meus pactos de vida e morte.

Olhei a luz do quarto acesa na janela ao lado. Levantei-me, coloquei as mãos no bolso da calça jeans e olhei através do vidro. Encostei-me à parede fria e, pelo canto da cortina, pude ver Jéssi deitada sobre a cama de solteiro. Perna grossa para fora do lençol e cabelo espalhado pelo rosto. Ela deve ter ficado com medo de apagar a luz. Sorri com a idéia. Se ela soubesse de tudo, teria medos muito maiores.



***
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22 de jun de 2008

Capítulo 9: Salva-vidas(Paulo)

India Arie - Get It Together

Enquanto Jéssi me mostrava as músicas em seu celular e caminhávamos pela rua Princesa Isabel, senti que estávamos sendo seguidos. Olhei para trás e vi um grupo de jovens a dez metros de distância. Eles vestiam bermudões e camisas grandes. Pelo típico jeito de andar do grupo, constatei que formavam uma gangue e me dei conta de que seriamos alvo de um assalto. Olhei novamente para frente e aproximei-me dela até que nossos braços se tocaram. Segurei-a na altura do cotovelo.

_Continua andando.

_Que está acontecendo? _ ela ameaçou olhar para trás.

_Não olha, anda, anda. _ falei baixinho.

Senti que eles estavam mais perto. Não tive tempo de pensar em mais nada. Só ouvimos a ordem:

_Perdeu, perdeu! _ um deles arrancou a bolsa do ombro de Jéssi com um canivete e o outro arrancou o celular de sua mão.

Foi tudo muito rápido, uma abordagem abrupta e covarde, no meio da noite. Eles só não contavam que eu podia ser mais perigoso que eles. Corri e peguei um deles pela camisa. Puxei-o até que caiu no chão. Contorci seu braço até que ficou de bruços na calçada e o seu rosto encostou no cimento. O resto do bando fugiu às pressas, abandonando-o.

_Você não tem vergonha na cara, não?! _ perguntei, satisfeito por poder me vingar.

_Foi mal, foi mal...

_"Foi mal" o tiro que eu vou dar bem no meio da sua fuça! _ falei perto do seu ouvido.

Como Jéssi se aproximou, eu contive minha mão e não puxei a arma das minhas costas. Controlei-me. Eu precisava aprender que naquela missão não poderia agir, devia interpretar o papel do estudante pacato. E que droga! Ela já me olhava com horror e estranhamento.

Soltei o garoto que correu para atravessar a rua. Aconteceu tudo muito rápido, em um relance de segundos. Eu ainda estava agachado. Olhei para Jéssi, que continha com a mão o sangue que escorria pelo braço direito. O canivete do pivete deve tê-la ferido. Ouvimos uma buzina de carro. Desviei minha atenção de Jéssi para a rua e presenciei o instante em que o corpo do garoto colidiu com um Astra Prata e vôo pelo ar, até cair na pista. Jéssi tampou a boca com a mão suja de sangue.

Corri até ela e a abracei.

_Não olha. Não olha. _ ordenei.

_Meu Deus! _ ela ainda conseguiu falar, mesmo quase sem voz pelo impacto da cena.

O motorista do carro abriu a porta e saiu contrariado. Abaixou-se e viu que o garoto estava sem batimentos cardíacos no pescoço. Li um “puta que pariu” dos seus lábios. Ele levou as mãos à cabeça.

_Vamos para casa. _ ordenei, puxando-a.

_Mas e ele? Temos que chamar a polícia.

Polícia? Ela estava definitivamente me colocando em apuros!

_Não tem mais jeito, ele morreu. _ falei com voz firme. Eu sei que Jéssi só estava acostumada a viver em um mundo rodeado de vaquinhas boas, mas eu não podia construir naquele momento uma historinha lúdica para que digerisse a situação.

_Tudo por causa da minha bolsa... _ Jéssi começou a racionalizar o fato e a se sentir culpada.

Peguei o meu celular e disquei para o corpo de bombeiros. Avisei o ocorrido.

_Por que ligou para eles?

_Para buscarem o corpo.

_Não era melhor uma ambulância?

_Jéssi, ele está MORTO, entendeu bem?

Ela caminhou mais à frente, desnorteada. Foi minha vez de repetir o gesto do motorista e passar a mão na nuca.

_Vem, vamos comprar um curativo. _ toquei no seu braço, mas não quis entrar na farmácia.

Respirei fundo e juntei toda a minha paciência restante. Irritado, peguei da prateleira algodão, gases e água boricada em movimentos bruscos, jogando os objetos dentro do cesto. Perguntei para o rapaz do balcão onde estava o esparadrapo e pedi iodo e soro.

Ele viu o sangue nas minhas mãos e deve ter se dado conta de que eu era o cara que tinha sido assaltado na esquina.

_Esses caras acabam assim, roubam, roubam e depois morrem. _ ele balançou a cabeça e apertou o aparelho que confere o código de barra junto as embalagens.

Não comentei nada. Reparei na câmera de segurança no canto direito da loja me gravando.

_Você não vai ser testemunha? A polícia já deve estar chegando.


_Obrigado. Vou cuidar dela enquanto eles não chegam._ peguei o pacote.

_Ah! Claro, está certo! _ acenou com a mão.

No elevador, me lembrei do segurança que estaria à nossa porta do apartamento. Fiz uma careta de raiva e apertei o botão para descer para a área do playground.

_O que está fazendo?! _ Jéssi perguntou.

_Você quer que o Wagner perceba o que aconteceu e tenha que dar explicações para o seu pai? _ pensei rápido naquela saída.

_Não, não, você está certo.

_O que tem em mente? _ perguntou-me.

_Vamos fazer o curativo no vestiário da piscina. Depois, você veste a minha jaqueta e entramos em casa normalmente.

_Boa idéia. Eu estou tão nervosa que não consigo pensar em nada.

O elevador abriu e nós fomos até o vestiário ao lado da piscina. Olhei para a câmera no corredor e torci para que o vigia da portaria não estivesse observando que eu ia entrar no banheiro feminino.

_O canivete era novo, não vai ter problema de tétano. _ comentei.

_Como prestou atenção nisso? _ ela perguntou.

Ótimo! Eu podia dar mais umas três mancadas dessa e no fim passar minha ficha completa!

_Eu tenho uma mente muito veloz... _ virei a sacola da farmácia sobre a pia de granito. _... Minha irmã disse que eu deveria ter feito ciências exatas.

_Você não podia ter reagido. Dizem que isso é errado...

_E é. Não faça isso em casa! _ brinquei, mas sem rir, falei sério.

Abri o soro caseiro com um canivete que levo no bolso.

_Você também tem um?

_Ãnh... Nunca se sabe quando vamos precisar cortar a caixa do leite. _ abri o bico de plástico do soro. _ Vem cá. Estica o braço. _ lavei o corte sobre a pia.

_Ai! Como isso arde.

_Nem parece uma garota da fazenda! _ provoquei.

_Obrigada! _ironizou.

Estanquei com a gase o filete de sangue que teimava em cair da parte não coagulada.

_Nós não devíamos tê-lo deixado lá sozinho... A gente podia ter chamado a polícia... _ pensou alto.

_E você ficar se esvaindo em sangue por causa de um moleque bandidinho filha da mãe?

_Aquele caixa da farmácia está certo. Os bandidos acabam morrendo da maneira mais besta... Aiiiii...

_Desculpe! _ cortei o esparadrapo.

_Aliás, eu devia ser menos boazinha como você e não ter pena de quem tenta fazer o mal... Aiiiiê?! Pega leve!

_Desculpe mais uma vez._Agora vista minha jaqueta. _ tirei-a e Jéssi vestiu.

_Obrigada. Você salvou minha vida. _ sorriu.

_Então, posso me apresentar oficialmente agora. _ estendi a mão. _ Paulo, seu salva-vidas.

Que ironia... Que ironia.



Bastidores= Será que Paulo vai conseguir silenciar o que houve? O próximo capítulo vai revelar! Um abraço para meus leitores novos! Já temos quase 300 visitas em 9 capítulos! Deixem o alô de vocês nos comentários abaixo! É importante conhecê-los e saber o que acham do novo livro! Ah! Quem quer ser comunicado a cada publicação, só deixar seu email. Beijos da Li Mendi.

20 de jun de 2008

Capítulo 8: Diferentes (Paulo)

Ela saiu do banho trazendo o perfume de um jardim que eu não lembro de ter visto dentro do banheiro. O cabelo molhado parecia menor, encolhido, colado a sua pele ferrugem. Segurei os olhos no segundo parágrafo da Lei não sei qual, mas logo eles se levantaram para acompanhá-la atravessar a sala de cabeça baixa, abraçada a sua toalha branca. Pude captar um olhar seu de canto de olho. Ela vira que eu vi que estava me vendo. Minha vez de baixar a cabeça e procurar o parágrafo, cadê.

_Sabe se tem algum lugar bom para comer aqui perto? _ perguntou aparecendo na minha frente pronta para sair.

Levantei meu corpo do sofá onde eu estava afundado e cocei a testa com o dedão.

_Bem... tem um. Mas, vai sozinha?

_Não, o meu segurança vem comigo. _ ela riu.

_Me refiro a comer sozinha. Ou vai jantar com ele?

_Não sei... _ ela deu de ombros.

_Pode comer aqui. A cozinha está ali, tem comida na geladeira...

_Ah! Sim.

_Você sabe cozinhar?

_O que acha? _ desafiou.

_Que com um bom livro de receitas ou um site você se vira.

_É...

_Então?

_Você está muito ocupado?

_Para cozinhar? Nem que eu não estivesse, você não vai gost...

_Para comer alguma coisa fora.

_Juntos?

_Ora, eu vou morar aqui por um tempo, podia me mostrar as ruas e a gente se apresentava. Você até agora nem perguntou meu nome.

_Você mesma disse no telefone. _ lembrei-a.

_Mas não oficialmente.

Eu sorri e deixei o livro de lado. Não faria mal nenhum sairmos para comer.

_Certo. Eu vou calçar um sapato. _ levantei-me.

_Ótimo. _ ela sentou-se no braço do sofá e tirou a bolsa dos ombros para descansar.

Voltei e a encontrei conversando com o segurança que não saíra o dia todo da porta.

_ Ele não vem com a gente? _ perguntei.

_Não precisa, já que eu vou estar com você. _ ela comentou e apertou o número do elevador. _ Eu preciso ver uma sombra só e não duas.

No elevador encontrei uma senhora de cabelos brancos e muletas.

_Vocês são novos aqui, não são?

_Eu sou, ele já mora a mais tempo. _ Jéssi respondeu.

_Mas eu quase não o vejo._ perguntou a senhora.

Maravilha! Agora tinha uma velhinha me bisbilhotando. Era o que me faltava!

_Eu estudo e trabalho.

_Ah! Você trabalha? _ Jéssi perguntou.

_Trabalha em quê? _ completou a senhora.

Hei! Eu estava pressionado por duas mulher e dentro de um elevador! Socorro! Mais uma pergunta eu iria falar a verdade. As duas sairiam pelo teto do elevador!

_Eu estudo direito. _ respondi vagamente.

O elevador se abriu no térreo e eu caminhei apressadamente. Jéssi tentou acompanhar o passo.

_Prefere comer que tipo de comida? _ perguntei para mudar o foco do assunto.

_Ãhn. Tipo? Caseira?

_Eu quero dizer japonesa, italiana, chinesa, portuguesa...

_O que me indica?

_Brasileira.

_Essa é muito boa. _ riu.

Sentamos em um restaurante à quilo e ela fez um prato grande de comida.

_Não pensei que mulher pudesse comer tanto. _ comentei.

_Ora, eu estou com fome! _ colocou a comida na balança. O homem que escrevia a nota fiscal olhou para o prato e depois para ela intrigado.

_Você viu a cara que ele fez? _ ela mostrou que havia reparado quando nos sentamos.

_É que aqui as mulheres se pudessem se esticavam feito plástico de filme para embalar congelados. Seria mais comum se você tivesse colocado duas folhas de alface, uma azeitona em cima e um ovo de codorna.

_Assim eu não vou ficar em pé para fazer tudo que preciso fazer! _ riu e girou o garfo na macarronada.

_Mas o que fazia onde morava que consumia tanta energia?

_Ah! Estudava, andava a cavalo, cuidava da fazenda com a minha mãe...

_Como é morar em um lugar diferente disso aqui?

_É muito bom. _bebeu um gole de refrigerante. _ Quero dizer... _ aproximou-se mais. _ Não dá para comparar coisas diferentes. Eu vou falar do que eu conheço. Lá na fazenda tem comitiva, violadas! E os shows da cidade?! _ revirou os olhos de emoção, como se falasse de alguma comida deliciosa.

_Uau! Você está falando do Brasil?

_É! Só algumas horas de avião daqui dessa mesa! _ falou apontando em minha direção com o garfo que depois espetou uma batata frita.

_Você usava aqueles chapéus?!

_Como assim “aqueles chapéus”?! _ repetiu indignada, como se eu tivesse cometido uma atrocidade.

_Chapéu vem do latim antigo, quer dizer “cappa”. Que é o óbvio: cobrir a cabeça. Foi no Egito e na Grécia que começaram a usá-los. Era um verdadeiro símbolo de status social. Tanto é, que os escravos não podia usar e, quando eram libertados, compravam logo um! No reinado de Luis XV, na França, começou aquela moda engraçada de usar aquelas perucas de cachos, já viu em filme? Por causa disso, começaram a dobrar as abas laterais e a traseira. Você deve estar se referindo ao chapéu estilo western. Ele surgiu lá por 1860, se não estou enganada. Eu sei de tudo isso porque tenho uma amiga que o pai é dono de uma fábrica de chapéus.

_Ãhn...sim.

_O chapéu é medido por X. Um basicão é 3X; um bom, 5X e um ótimo, 10X a 20X.

_O estilo de vocês é diferente. Até na maneira de vestir.

_Eu estou muito estranha? _ fez uma careta.

_Não... Eu disse diferente. Aqui as pessoas reparam, sim, na roupa uma das outras. Só que elas não transformam isso num assunto de fofocas como nas cidades pequenas porque elas tem tantas coisas para fazer que na próxima esquina que virarem já não vão lembrar mais.

_Não sei se fico feliz ou não ainda. _ terminou de beber seu refrigerante. _ É típico a gente usar calça justa com bota e camiseta. Se for blusa é por dentro da calça.

_Aqui é o contrário, geralmente as mulheres não usam roupa dentro da calça.

_Eu já reparei, preciso me adaptar.

_Você está disposta a se adaptar a tudo?

_Estou aberta a absorver as coisas boas, apenas.

_Você me parece muito simples. _ soltei o comentário.

_E você, o contrário. _ também deixou escapar.

Abaixei os olhos e sorri.

_É meu jeito...

O segurança de Jéssi entrou pelo restaurante e parou atrás dela, assustando-a.

_Que foi? Aconteceu alguma coisa?

_Eu é que pergunto. Não voltaram...

_Ah! A gente está conversando... Mas, como me encontrou? _ ela franziu a testa.

_Pelo GPS no seu celular.

_Uau, me senti uma prisioneira agora.
_ comentou em voz baixa. _ Já vamos, pode deixar que caminhamos sozinhos. Vai na frente. _ ordenou.

leandro e leonardo - cumadre e cumpadre


Caminhamos em silêncio. Jéssi pareceu aborrecida e envergonhada por ter sido tratada como criança fugitiva. Fiquei sem saber como agir. Continuei andando em silêncio.

_Ah! E as músicas? _ do nada ela falou com uma voz animada e sacou o celular do bolso.

Então, ela estava séria em seu estado normal? Ou aquilo foi uma mudança brusca?

_Não ria, tá?! _ pediu.

_Não vou, mostra.

Ela apertou o play e começou a tocar uma música do Leandro e Leonardo.

_Você disse que não ia rir! _ ela encostou em meu braço e deu um leve empurrão.

Segurei o riso e continuei com as mãos no bolso da calça jeans.



Bastidores= Será que tantas diferenças vão conviver em paz por muito tempo?

***

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19 de jun de 2008

Capítulo 7: Longe do lar (Jéssi)

Sentada no degrau de entrada da minha casa, esperei o motorista colocar as minhas malas no carro. O segurança destinado pelo meu pai também estava à postos. Minha mãe em pé, ao meu lado, assistia a tudo ereta e impassiva. Respirei profundamente, enchendo meus pulmões de ar. Sentiria falta daquele cheiro de mato e terra molhada. Levantei-me e nos olhamos. Ela com aquele ar de vítima e, eu, com o meu de compreensão.

_Você não quer vir comigo. _ ri e a abracei forte.

Na verdade, eu é que não queria que ela viesse comigo. Eu precisava fazer aquela viagem sozinha. Estava ainda tão segura de mim, aquele lugar me trazia espírito de proteção. Logo não teria mais este apoio.

_Ainda bem que seu pai colocou alguém para te proteger. _ ela olhou para o lado, em direção ao homem forte e de óculos escuros.

_Em breve, espero não precisar.

_No Rio de Janeiro?

_Vai agradecer! _ profetizou com voz de quem sabe de tudo.

_Vou te visitar, não se preocupe. _ beijei-a no rosto repetidamente.

_Acho que o Thomé vem se despedir.

_Ele não se enxerga mesmo.

_Isso são modos de falar? _ fez uma careta de repreensão.

_Desculpe. Já vou, mãe. _ mais um beijo e entrei no carro.

Sentada ao lado do meu segurança, olhei a fazenda ficando para trás, depois a cidade e caímos na estrada. Escorreguei pelo banco, já meio sonolenta:

_Qual o seu nome mesmo? _ perguntei.

_Wagner, senhora.

_Jéssi, por favor.

_Desculpe, Jéssi. _ respondeu feito um robô.

_Olha... _ recuperei a postura. _ Eu não quero que me trate com toda essa distância. Esquece tudo que falaram para você, ok? Eu vou viver uma vida normal e sem regalias. Você vai me acompanhar para alguns lugares e nada mais complicado que isso. Acima de tudo, eu quero ser independente. Por isso, não evite que eu quebre a cara ou aprenda caindo. Pode deixar que eu vou saber me levantar.

_Tudo bem. Como quiser, senh..., Jéssi.

_Ótimo. Está deixando sua família aqui?

_Não, ela mora no Rio de Janeiro.

_Ãnh. Então, você é de lá?

_Sim. Seu pai tem uma filial da empresa lá.

_É. Já trabalha para ele há muito tempo?

_Um pouco.

_Ãnh... Tá.

Ficamos em silêncio outra vez.

***

Eu sabia que a qualquer momento o telefone poderia tocar. Não devia estar ansioso daquele jeito, mas estava. Afinal, duas semanas naquele apartamento já estava me entediando. Agora é que as coisas começavam a acontecer.

Como era de se esperar, tocou.

_Alô? _ atendi.

_Paulo, é você? Sou eu, a Jéssi, lembra?

_Ãnh, sei. _ fiz uma voz de descaso.

_Eu estou aqui no aeroporto, mas não conheço muito bem a cidade...

Segurei o riso. A princesinha, então, estava em apuros? Ótimo, que ela se virasse um pouco sozinha.

_É assim mesmo, logo se acostuma. Eu estou muito ocupado agora.

_Ah! Sim, desculpe, mas como faço para chegar aí mesmo?

_É aquele endereço que te dei. Anotou?

_Anotei, mas é como eu disse, não conheço bem a cidade.

_Eu estou entrando no elevador agora e a ligação vai cair. Se informa por aí.

Desliguei e ri, me divertindo muito com aquilo tudo. Queria poder vê-la através do visor do celular desesperada.

***

_Caramba! Que cara menos prestativo! _ resmunguei e quis espatifar o aparelho no chão.

_Pode chamar um táxi, Jéssi. _ Wagner falou baixinho atrás de mim.

_O que eu disse sobre “eu saber me virar”?

_Desculpe.

_Vamos chamar um táxi. _ empurrei o carrinho com as malas e vi que estava muito pesado. _ Deixa que eu consigo! _ fiz um sinal para não se aproximar.

Eu fiquei um pouco zonza no meio de todas aquelas pessoas e, pela primeira vez, pensei que estivesse maluca! Como pude me meter a vir para a cidade grande e deixar meu ninho confortável? O que eu queria? Ser uma monja e me auto flagelar?! Ainda bem que meu pai mandou este homem, caso contrário, eu já teria desabado em choro!

***

Lifehouse - Broken


O interfone tocou e eu peguei o aparelho para atender.

_Senhor, Paulo?

_Sim.

_Chegou uma moça aqui. Jéssica o nome dela.

_Pode subir.

_Tá, obrigado.

Virei a maçaneta da porta. Eu tentei parecer o mais caseiro possível. Estava com um short preto acima do joelho e uma camiseta branca.

A primeira coisa que vi foram umas seis malas empilhadas. Uma moça curvada levantou o rosto e, do meio da cabeleira de ondas de um castanho dourado brilhante, surgiram suas bochechas coradas e o nariz arrebitado.

_Bem que você disse, a gente se vira por aqui. _ela apoiou o pé em cima de uma mala com um gesto de trabalho feito. Usava uma bota preta e calça acima da cintura. Um estilo completamente diferente das garotas daqui. Parecia uma garota de rodeio com aquele cinto de fivela.

_Pode colocar suas coisas lá no seu quarto. _ indiquei com o dedo e não fiz menção a ajudá-la. _ Eu estou ocupado estudando, se não se importa... Fique à vontade.

_Ah! Tá... _ fez um sorriso de desapontamento. _ Claro... Eu subi até aqui com elas mesmo.

_O elevador não está bom?

_Ah! Está, sim. Mas, você sabe, tirar do carro, carregá-las.

_Hum. _ sentei na mesa e peguei um livro. _ Deve ser... _ falei sem motivação.

_A secretária do meu pai veio aqui e já combinou tudo com você, né?

_Tudo certo. _ levantei os olhos. _ O quarto é seu.

_Obrigada. _ enfiou as mãos no bolso.

Na porta, o segurança dela ainda aguardava em pé alguma ordem.

_Esse é o Wagner, meu... segurança.

_Nossa, já vi gente com medo do Rio de Janeiro...

_Deixa para lá, isso é outra coisa.

_Eu vou ter que pagar por isso? _ perguntei, em tom de brincadeira.

_Não, não. Eu deixo de cortesia. _ ela riu e aquele era o sorriso da foto.

16 de jun de 2008

Cap 6: Sob certas condições (Jéssi e Paulo)

Eu era a filha sim, mas da porta para fora. Ali, no escritório do papai, eu precisava esperar também. Mas, aquela demora toda me deixou agitada e precisei levantar e caminhar pela sala. Perguntei para a secretária se demoraria muito o fim daquela reunião. Antes que pudesse responder, vi uma fila de homens se formando no corredor à minha frente, saindo de uma das salas. Finalmente! Não esperei mais um minuto e caminhei por entre eles, pedido licença, até que cheguei na sala onde meu pai conversava com sua conselheira, Rafaela.

Dei uma leve batidinha com o punho fechado e eles levantaram os olhos para mim.

_Oi. _ aproximei-me da mesa oval. _ Posso falar com o senhor?

_Ah! Claro. _ ele deu uma olhada no relógio e fez um sinal para que Rafaela fechasse a porta.

Estranhei o fato de ela não nos deixar a sós, voltando para seu lugar ao lado de meu pai. Disse que era em particular e ele explicou que ela já sabia da situação toda.

_Ótimo, então, concorda comigo?

_Sente. _ pediu.

Sentei e olhei para os dois. Ela escrevia de cabeça baixa e meu pai procurava palavras:

_Eu preferia que estudasse por aqui. Mas, vejo que não tenho como impedi-la. Já é grande o suficiente para tomar suas decisões.

_Que bom que entendeu isso. _ ri de felicidade.

_Só lamento que esteja fazendo essa escolha pelo fim do seu namoro.

_Não, está enganado. Eu já queria isso antes.

_Eu só estou muito preocupado com uma coisa.

_O quê? _ suspirei. Estava tudo fácil demais.

_Infelizmente, eu lido com pessoas de todo o tipo... Agrado aos interesses de uns, decepciono os de outros... E eu recebi ligações e ameaças.

_Eu vou estar longe, nada vai me atingir. Aqui, o senhor tem seguranças.

_Nesse ponto que eu quero chegar. Eu já contratei um exclusivo para acompanhá-la.

_O quê? _ fiz uma careta. _ Eu não vou com ninguém à tira colo!

_Essa é a condição!

_Como condição, papai? Onde estava o discurso de que eu tenho idade para escolher e posso me defender?

_Eu sei disso, só não sei com quem estou lidando. Qualquer um aqui dentro pode vender informações para o pior. Eu aprendi a não confiar em ninguém! Até a Rafaela pode ser suspeita!

Rafaela riu e balançou a cabeça.

_Estou brincando, Rafaela. Eu sei que seria incapaz de me trair. _ meu pai tocou em seu braço e eu senti ali alguma química mais que profissional.

O telefone tocou e ele se afastou para atender.

_Eu acho que está certa. Essa cidade não lhe dará a formação que você merece. _ Rafaela falou em um tom de voz baixo, sempre verificando se meu pai estava nos observando. _ Seja esperta, deixe-o dar as condições que quiser até você se mandar daqui! Conversei com ele e consegui convencê-lo de que o melhor é deixá-la estudar na cidade grande.

Então, ela era a responsável pela conquista daquela posição pró-ativa do meu pai?

_Eu tenho um amigão que quer dividir o apartamento onde mora. Peguei o telefone. _ passou-me o papel que tirou da bolsa. _ Seu pai me disse que quer ser independente e ganhar seu dinheiro. Por que não aproveita e economiza morando com alguém? Assim, você ficará mais segura também. Aí, quem sabe, consegue dispensar rapidinho o segurança?

_Vejo que vocês estão se entendendo sem mim. _ meu pai voltou. _ Eu vou precisar sair. Depois me digam o que estão combinando. _ falou, já abrindo a porta.

Em casa, eu não perdi tempo e liguei para o número. Precisava agir se quisesse me mudar. Ninguém faria isso por mim.

***

Assim que desliguei o telefone, decidi comunicar a Rafaela que o primeiro contato havia sido feito.

_Foi muito fácil, Paulo. Dei o número e falei que você era uma boa companhia. Agora, surgiu uma nova...


_O quê?

_O pai dela é psicótico e colocou um segurança.

_Quê?!

_Ele deve ficar do lado de fora do prédio e só segui-la de longe.

_Eu só espero que meu trabalho dê certo... _ falei nervoso.

_Eu vou desligar. Não é bom a gente falar sobre isso por telefone.

_É verdade.

Desligamos.


Li Mendi

14 de jun de 2008

Cap 5: A garota da foto (Paulo)

Abri meu e-mail e vi uma mensagem da minha irmã mais velha. Ela estava preocupada desde que eu lhe dissera que não poderia dormir mais em casa por causa de um trabalho. Contei-lhe só por alto o que faria dessa vez para não assustá-la, mas parece que não surtira efeito porque estava muito aflita.

"Paulo, não paro de pensar nos riscos que está correndo. Se a polícia te pega? Você está servindo a um homem envolvido com a máfia! Não percebe que isso ainda vai te levar para a cadeia? Ele é grande, ninguém irá pegá-lo. Mas você? Oh, meu irmão, você é carta pequena nesse baralho e está arriscando o que tem de mais importante, que é a sua própria vida!

Eu queria que você voltasse a dar aulas de artes marciais aqui na escola. Era tão bom tê-lo sempre por perto. Eu sei que o dinheiro que manda é muito importante para nós, mas eu temo estar comprando coisas hoje que valeram a vida de pessoas! Me sinto mal com isso e não vou negar."

Fico até feliz que possa custear os estudos da Clarinha, só que não quero vê-la na melhor universidade do país e perder o meu irmão! Minha cabeça não sai disso agora por nada!

Parei de ler o e-mail e peguei o telefone. Eu precisava tranqüilizá-la. Disquei o número do seu celular e torci para que não estivesse lecionando.

_Alô, Vanessa?

_Oi, Paulo!

_Dando aula de informática agora?

_Não. Estou no intervalo. _ ela respondeu e ouvi a voz de várias mulheres ao fundo. Ela provavelmente estava na sala de reuniões.

_Vai para um lugar mais reservado. _ pedi.

_Tudo bem, espere um pouco. _ ouvi o barulho de uma porta se fechando e logo ficou silêncio do outro lado da linha. _ Pronto, fala.

_Estou lendo aqui o e-mail que enviou de manhã. Está tudo bem comigo. Podemos nos encontrar na hora do almoço? Não quero falar pelo telefone...

_Tudo bem. Onde?

_Naquele bar em frente da escola.

_Estarei lá.

Desliguei. Encontrei Vanessa no horário combinado e, quando cheguei, ela já estava sentada lendo um livro e bebendo um guaraná.

_Viu como estou inteiro? _ falei e ela levantou os olhos. Em seguida, abriu um sorriso largo e estendeu os braços para um abraço apertado.

Minha irmã era uma linda morena de olhos pretos e porte de modelo. Sempre lhe dei força para desfrutar desses atributos, mas ela dizia que era tímida demais e preferia ficar só na escola dando aula para seus alunos de informática. Com ela, aprendi tudo o que sei sobre os sistemas de invasão em computadores. Éramos filhos de pais diferentes, mas nosso carinho um pelo outro era muito forte como se corresse o mesmo sangue em nossas veias.

Puxei uma cadeira para sentar bem perto dela. Falei baixo:

_Aqui é mais seguro que falar por telefone.

_O que anda fazendo?

_Eu? Só no apartamento esperando o contato. Por enquanto, eu vou virar amigo da garota.

_Está tudo muito fácil agora, né?! Mas, e quando esse cara doido agir e der ordem para matar a garota?

_Eu farei o meu trabalho, ora.

_Como pode ser tão frio assim? _ ela fez uma cara de horror.

_Não peço que entenda. Isso seria demais. Apenas que continue do meu lado e cuidando da mamãe.

_É por nós que está fazendo isso?

_... _ fiquei mudo, desenhando algo abstrato na mesa com a ponta do dedo. _ Vou ganhar muito bem.

_Dinheiro, dinheiro! Eu sinto sua falta aqui, seguro ao nosso lado.

_A mamãe precisa dos remédios. _ argumentei.

_Paulo, por que matar essa garota?

_Porque o pai dela fez uma merda e será punido dessa maneira.

_Fala com tanta naturalidade que me assusta.

_A vida é cruel e esse é o meu trabalho.

_As coisas não são tão fixas! Pode mudar isso. Cai fora.

_Já recebi a missão, não adianta voltar atrás, eu sei demais agora. Aliás, eu não quero que se arrisque também. Temos que ficar longe.

_Promete para mim que essa é sua última missão, que depois vai voltar bem?

_Vou voltar bem. _ apertei sua mão.


***


Virei a maçaneta e nem tive tempo de dizer oi. Fábio e Rômulo entraram no apartamento batendo palmas e olhando para todos os lados:

_Cara, o que o velho viu em você?_ Fábio abriu uma garrafa do bar e se serviu.

_Não sei, mas acho que isso vai me custar caro ainda. _ fechei a porta.

_Olha como ele está sofrendo! _ Fábio gritou e envolveu meu pescoço com o braço e bateu no meu peito. _ Vai ter sorte assim lá na China, porra! Me dá um pouco disso aí. _ pegou um copo com uísque e gelo.

_Falem baixo! Não quero ser expulso no primeiro dia de trabalho!

_Você só pode estar zoando com a minha cara, né? _ Rômulo sentou no sofá. _ E a belezinha, filé?

_Filé? Não! É uma garotinha! _ abri minha pasta e mostrei a foto.

_ÔOOOHHHH que essa eu pegava fácil! _ Rômulo levantou a foto para Fábio, que a arrancou de sua mão. _ Dá essa para mim, minhas revistas do banheiro estão coladas.

_ Não brinquem com isso! _ recuperei a foto.

_Se isso é uma garotinha, eu quero me corromper! _ Rômulo riu alto e, eu, também.

Os dois eram meus grandes amigos. Fizemos todos os trabalhos juntos sempre. Agora, sendo deslocado para essa tarefa exclusiva, não queria que pensassem que eu virara o preferido do chefe. Nosso ganha pão não era o mais brilhante, nem reconhecido. Mas, a gente sabia manter a amizade e o companherismo. Principalmente, nos divertíamos.

_Deixa eu entender: você vai continuar estudando e morando aqui para ficar na cola da garota...

_Isso. Só posso agir quando ele mandar. _interrompi.

_E a Rafaela? Ela está conseguindo fazer a parte dela discretamente? Se essa garota vasa, os planos vão por água abaixo. Não podem perceber o papel dela nessa história, hen? Ela é boa mesmo?

_Ela é muito bem paga, como ela mesma falou. É capaz de me convencer que coelhinho da Páscoa existe.

_Meu, com uma mulher daquela eu acredito em ET, Papai Noel e Saci! _ Fábio riu.

O rádio de Rômulo tocou e ficamos imediatamente em silêncio.

_Pode falar. _ atendeu, aproximando da boca o pequeno aparelho que cabia na palma da mão. _ Sim, ele está aqui, perfeito. _ olhou para mim. _ Se ele pode hoje à noite?

Fiz sinal de positivo. Pela voz séria dele era coisa do chefe.

_Três loiras e duas morenas? Das boas? _ perguntou.

Eu franzi a testa.

_Perfeito. Prontamente. Entendido. _ desligou e bateu a mão na de Fábio. _ Vamos agitar isso aqui!

_Estão loucos?! _ dei um pulo do sofá. _ Era o Bernardo, não era? _ desconfiei, só podia ser coisa daquele doido.

_Cara, você agora tem que ser um carinha normal. Um estudantezinho sem graça. Mas, não pode faltar uma festinha!

_E a câmera? _ Fábio lembrou do que eu havia lhe contado por telefone, antes de virem para cá.

_Ah! Você vai conseguir desligar até lá! Você sabe desarmar bombas e escalar edifícios, não é uma camerazinha que vai derrubar nossa comemoração! _ Fábio deu um tapinha no meu ombro. _ Até à noite!

O celular tocou e Fábio atendeu no viva voz com o fone no ouvido. Ele e Rômulo vestiam ternos pretos e usavam óculos escuros. Cada um de nós era especialista em alguma coisa. Em comum, nós gostávamos da vida arriscada que levávamos.

_Sim, estou indo. Entendi. _ desligou. _ Compra a cerveja! _ tirou o dinheiro da carteira e deixou na mesa. Rômulo fez o mesmo.

Eles saíram.

Dj zhago Brahma - Gimme More Remix the way i are and sexyback


Achei a situação até divertida. Peguei a foto de Jéssi em cima da mesa e a olhei por um tempo.

_Espero que você não me dê trabalho, garota. _ falei sozinho para a imagem da moça de cabelos ondulados.

A noite chegou e meus amigos voltaram vestidos de roupa informal.

_ Com a vida que pediu a Deus, hen? _ Bernardo apertou minha mão e me puxou para um abraço. _ Já está até com cara de playboy! _ deu uma tapinha no meu rosto e fez sinal para que Fábio e Rômulo olhassem para mim.

_E a câmera? Ouvi dizer que dá para a gente exibir tudo na Internet. _ falou baixinho no meu ouvido com ar de conspiração.

_Já desliguei. _ ri da hipótese de a festa vazar, eu seria escalpelado.

_Fala sério, né? Ele conseguiria desarmar até a bomba atômica se precisasse! _ Rômulo revirou os olhos e apresentou as garotas que estavam do seu lado.

Duas horas depois estávamos completamente bêbados e entregue àquelas garotas maravilhosas, quando o telefone da sala começou a tocar. Ninguém se manifestou para atender.

De repente, eu tive um reflexo de lucidez e corri para pegar o aparelho. O movimento brusco me deixou meio zonzo. Abaixei o som e fui para a varanda. Fechei a porta e apertei o botão do aparelho sem fio para atender a ligação.

_Alô? _ ouvi a voz feminina do outro lado.

_Alô.

_É da casa do Paulo?

Era Jéssi? Bem que me disseram que ela me procuraria.

_É sim, é ele. Quem é?

_Você não me conhece.

Pode crer que já te conheço bem, garota!

_ Hum, então o que quer?

_Desculpe se estou ligando tarde. _intimidou-se.

_Tudo bem, estava só estudando. _mostrei pouco caso. _Mas, quem é você mesmo?

_Bom, o que acontece é que você deixou um anúncio no mural da faculdade com um aviso para dividir apartamento. Eu queria saber se ainda está aberta a vaga.

_Ah! Sim, ainda está. Algumas pessoas já telefonaram, mas não fechei ainda.

_Hum... Tá.

_Você não dá preferência para apartamento com garotas? _impliquei.

_Seria melhor, se não me leva a mal pela sinceridade. _ riu. _ Mas, é que eu recebi uma indicação sua da secretária do meu pai. Não sei se conhece: Rafaela.

_Rafaela, Rafaela... Ahhhh, Rafaela. Claro. Rafaela... De fato ela se mudou e recentemente nos reencontramos. Eu comentei com ela que queria dividir o apartamento porque eu passo o dia inteiro fora e acaba saindo caro morar sozinho.

_Será que pode segurar essa vaga até eu ir aí?

_Não pode demorar tanto. Eu fiquei de dar a resposta para outras pessoas.

_Claro!

_Então, tudo bem.

_Obrigada. _ ela fez uma voz risonha e eu a imaginei na foto com seu sorriso rosado.

Na sacada do apartamento da frente, vi uma velhinha sentada na cadeira com uma cara de feliz, olhando bem na minha direção. Abaixei a cabeça e vi que estava de sunga. Sua filha apareceu e fez uma cara de reprovação, levando-a pela cadeira de rodas para dentro. A senhora ainda olhou para trás insatisfeita com a cortada da filha.



Bastidores = Rafaela fez direitinho seu papel e Jéssi caiu como um patinho. A garota não sabe o quanto sua vida está em risco e que os lobos estão rondando mais perto do que imagina. Será que depois de conhecer a garota da foto Paulo vai cumprir direitinho sua missão?

13 de jun de 2008

Cap 4: Lar novo lar (Paulo)

Lords Of Acid - Am I Sexy



Bati a porta do carro e olhei para cima, começando da portaria do prédio até meus olhos pararem no topo da cobertura. Com a boca ligeiramente aberta, verifiquei o endereço na folha e deixei o risinho sacana no canto da boca.

_Obrigado, Deus! Eu mereço! _ gabei-me, adorando aquela situação toda.

Dei espaço para uma mulher passar com seu poodle e entrei pela escadaria de granito preto. Identifiquei-me na recepção como o novo morador e peguei a chave do meu apartamento.

Uma garota passou no corredor, em direção a piscina, de biquíni fio dental por baixo da tanga branca semitransparente.

_Que missão difícil! _ sorri e apertei o número do elevador.

Quando abri a porta do meu mais novo lar, fiquei sem ar:

_Uau! _ retirei os óculos escuros e joguei a cabeça para trás. _ Eu ainda sou pago para isso!

Abri a porta da varanda e vi a bela vista para as montanhas. O celular vibrou no meu bolso da calça.

_Paulo? _ a voz inconfundível de Rafaela do outro lado oscilava, como quem caminha enquanto fala.

_Eu mesmo, em carne, osso e gostosura. _ abri a geladeira e vi que estava cheia.

_Estou subindo. _ ela informou.

_Para cá?

_É!

_Pode vir, baby. _ desliguei.

Tirei a tampa da garrafa de suco e virei na boca. Estava louco de sede e com um pouco de calor. Puxei a camisa e a joguei no sofá. Quando a campainha tocou, eu abri e sorri para Rafaela, que engoliu em seco e parou seus olhos nas minhas entradas, que se perdiam dentro da calça jeans. Como as mulheres se entregam tão fácil?

_Veio fazer minha warming house party? _ perguntei sorrindo e ela fez um ar de deboche.

Rafaela era uma loira de dar parada cardíaca. Eu me jogaria em um formigueiro de saúvas por uma hora com aquela deusa de capa de revista masculina.

_Está tudo ok, aqui? _ ela me empurrou com a mão no peito e passou para dentro da sala.

_Faltava só você. _ usei minha voz mais sexy.

_Se toca, tá? _ esnobou e olhou cada detalhe do apartamento que ela mesma decorou.

_Quando vai deixar de resistir, ãhn? _ puxei-a pela cintura.

_Paulo? _ ela revirou os olhos com tédio. _ Será que a gente pode pensar em trabalho?

_Ok! _ soltei-a e cai no sofá entre as almofadas. _Pode mandar aquela gatinha para mim!

_Não brinque com isso! _ ela abriu seu Palm e fez uma anotação. _ Já sabe que não vai se meter com esta garota nem que ela seja a última mulher na Terra! _ repetiu as ordens. _ Não vou dar bobeira. Vou te vigiar! Já está na hora de ir embora. Ninguém pode sonhar em me ver aqui, é muito arriscado. Posso perder meu emprego, se falhar. Eu não estou aqui para desapontar seu patrão. Prezo pelo meu pescocinho.

_Só o pescocinho? Então, deixa o resto comigo!

_Argghhh... _ ela deu um grunhidinho e apontou para uma mesa no canto da sala. _ Ali está seu computador, nos envie os relatórios diários. Em cima da estante tem uma câmera no vaso de folhas secas. Essa aqui é sua vida agora: um estudante que vai dividir o apartamento com uma outra estudante. Haja com naturalidade. Faça isso e aguarde as ordens para agir. Não se precipite sem nos comunicar!

_Já conseguiu convencê-la a dividir o apartamento comigo?

Rafaela se aproximou com sua boca vermelha carnuda:

_Querido, eu ganho muito bem para isso! Pode deixar que nossa little cowgirl estará aqui rapidinho. O pai dela não quer muito que venha, mas acho que não vai ter jeito mesmo. Eu entro em ação em breve e te comunico. Enquanto isso, nada de festinhas por aqui...

_Como pode pensar que um dia eu faria isso?

Rafaela olhou-me de cima a baixo e saiu.

_Só de noite...


Bastidores= A casa está pronta. Que venha a garotinha do papai.

12 de jun de 2008

Cap 3: Previsões (Jéssi)

U2 - I Still Haven't Found What I'm Looking For


_Jéssi, eu quero falar com você! _ ouvi as batidas desesperadas de Thomé na porta do meu quarto.

Eu, que já estava sentada na cama, retirando minhas botas. Não fiz qualquer movimento para abrir. Deixei que ele percebesse que estava aberta. Não demorou muito para girar a maçaneta e entrar afoito.

_Eu nem sei o que dizer... _ abaixou-se na minha frente.

Levantei, ignorando-o completamente. Peguei uma roupa para dormir no guarda-roupa e, nesse instante, ele se irritou e me puxou pelo braço.

_Hei! É a nossa vida, como pode fingir que não houve nada?

_ “Hei, é a nossa vida”... _ repeti, sarcástica. _... como pode ter esquecido disso?! _ perguntei, atirando com raiva a minha roupa sobre a cama. Cruzei os braços e franzi a testa. _ Você não poderia ter escolhido um lugar pior ou a sede do perigo foi mais excitante? Acho até que escolheu o lugar certo, pensando bem. Só um cavalo como você poderia ter jogado para o alto tudo...

_ Eu sou um idiota!

_É... _ encostei o dedo indicador no seu peito e me preparei para desabafar. _ ... Mas, eu não tolero desculpas de idiotas. Homens como você vão repetir a mesma coisa quando eu tiver com a casa cheia de filhos. Só que eu não estarei aqui para bancar o papel de otária que “fingiu que não sabia”. Mulher que finge não saber merece sofrer. Eu não sou uma delas.

_Aliás, o que você é eu já desconheço. _ irritou-se.

_Qual é? Espera que eu me ajoelhe e abaixe a cabeça, aceitando minha missão de mulher submissa? Estou fora!

_Isso quer dizer o quê?

Peguei a roupa e fui para o banheiro do meu quarto, antes me virei para ele:

_Isso quer dizer um chute bem grande no seu traseiro!

Quando saí, ele ainda estava lá, resoluto de que diluiría tudo que fez com meias palavras:

_Seu pai me falou que quer estudar direito na cidade. Ele está certo, está na hora de nos casarmos.

Eu ri irônica. Foi tão ridículo o fato de Thomé fingir que a vida seguia seu curso normal, que tive uma crise de riso.

_Não quer casar comigo? _ perguntou.

_Eu não quero olhar na sua cara!

_Nunca falou comigo assim!

_Talvez, por isso mesmo, eu te peguei se emparelhando com aquelazinha! Mulher boa demais merece um bom par de chifre. Mas, chega! Cai fora da minha vida!

_Está me dispensando?

_Sim, estou te dispensando. Estou dispensando o riquinho que me considerou pouco para merecer a fidelidade. Portanto, não estou perdendo muito.

_Não é você... _ levantou-se e fez uma cara de vítima.

_Eu estou com a mesma sensação de ter passado tanto tempo com uma pessoa estranha que não era o que eu pensava.

_Vai perceber que está fugindo da situação indo para a cidade.

_Eu já queria ir antes da sua traição covarde.

_Então, iria me deixar?

_Eu estava pensando, mas agora eu tenho certeza que não vale a pena ficar por você.

_Você vai ficar sozinha e vai sofrer!

_Obrigada por suas previsões. Deve ser bom mesmo nisso porque nem demorou muito para eu começar a sofrer!

Ele chegou o rosto perto do meu e seus olhos verdes flamejavam o orgulho ferido:

_Tomara que você encontre alguém que te faça sofrer muito e te deixe!

_Não conseguiria ser pior que você.

Thomé se afastou:

_Você não me merece! _ fechou a porta.

_Não mesmo... _afastei os cabelos para trás. _ Mereço algo muito melhor, que me espera em algum lugar...


Bastidores= Quando fazemos um desejo, atraímos o objeto da conquista... Nos próximos capítulos veremos isso acontecer...

11 de jun de 2008

Cap 2: Nada mais me prende (Jéssi)

Fogo nas toras, leitão queimando na brasa, luz de estrelas, som da sanfona. Olhei pela janela do meu quarto a festa na fazenda e demorei mais um pouco só no posto da contemplação. Não estava mais com ânimo para viver à base de comemorações vazias.

_Não vai descer? _ ouvi a voz da minha mãe, que colocou a cabeça na porta.

Virei-me para ela e sorri.

_Daqui a pouco.

_Está tudo bem? _ ela entrou e estava elegantemente vestida. Provavelmente, iria participar também da festa que meu pai dava para seus empregados. _ Me parece tristinha.

_Não, não... _ sentei-me na cama e calcei minha bota de bico fino. Puxei o zíper até o joelho. _ Só estou pensando.

_Em que essa cabecinha anda pensando tanto? _ ela puxou uma mexa do meu cabelo ondulado e deslizou seu dedo pelo meu rosto até que colocou o cabelo atrás da orelha.

_Na conversa que tive com o meu pai. _ pus o chapéu na cabeça e me olhei de corpo inteiro no espelho oval que havia na parede. Fiquei de todos os ângulos para conferir se a blusa estava perfeitamente arrumada dentro da calça jeans.

_Ele me falou que você quer fazer faculdade na cidade.

_Eu quero ir para o Rio de Janeiro. _ consertei brava por não estar sendo levada à sério.

_Por que não vai para a cidade aqui perto? Não entendo o motivo de querer ir para tão longe. E o Thomé?

_Ele é a única coisa que me prende aqui.

_Como pode se referir a ele como algo que te prende, como se fosse ruim namorar o rapaz. Ele é o melhor partido que poderia ter e, além do mais, está prestes a te pedir em casamento!

_Ah! Claro! Nascer, crescer, procriar, envelhecer e morrer... _ debochei e peguei os brincos em cima da penteadeira. _ Namorar, noivar, casar e separar.

_Nem sempre... _ minha mãe abaixou o rosto e senti pelo seu tom de voz que a magoara.

_Desculpe. Não falei por mal. Claro que nem todo casamento não vai dar certo como aconteceu com você e papai. Mas, não sei, eu sinto que estamos caminhando pelo caminho e não pela vontade em si de caminhar.

_Não entendi.

_Esquece. Eu quero ver o mundo do alto da montanha! Aqui, eu me sinto um passarinho na gaiola.

_Passarinho? Quer mais liberdade do que esse mundo de terras? Presa é estar dentro de um apartamentozinho!

_Eu não vou aprender com árvores e cavalos, mas com as pessoas da cidade.

_Seu pai disse que não é boa hora. _ comentou e eu já sabia a que se referia.

_Meu pai sempre teve os inimigos dele, não vou me abalar por isso.

_Agora é sério. _ puxou-me pela mão e me fez sentar. _ Ele disse que já recebeu ameaça por telefone.

_Tá, eu já ouvi essa história antes dezenas de vezes. Nunca aconteceu nada. Por isso mesmo, eu poderia ir para longe e ficar a salvo.

_Eu não concordo. _ confessou.

Eu sabia que minha mãe no fundo não queria ficar sozinha naquela casa enorme. Meu pai talvez estivesse usando as ameaças como desculpa e estas nem fossem reais. Ele era um homem cheio de negócios que começou a vida na cidade. Estudou economia e direito. Junto com um amigo, criaram uma empresa inovadora que prestava consultoria para outras empresas para medir riscos de ações estratégicas sobre os mais diversos assuntos. Mas, parece que dessa vez ele falhara nos seus cálculos. Não quis me dizer em que exatamente consistia a análise dos riscos desse caso específico, mas os resultados foram muito graves.

No momento, a única coisa que eu queria era poder ampliar meus horizontes e conhecer a cidade de que ele sempre me falara quando me colocava no colo e contava histórias. Não adiantava me conter porque eu tinha o desejo no sangue e vinha dele. Nem adiantava negar.

Desci as escadas e fui até a festa. Perguntei a um dos empregados se Thomé tinha aparecido por ali.

_Eu vi Thomé indo para o estábulo. _apontou.

_Obrigada. _ sorri.


silverchair - i miss you love


Desci pela trilha de chão batido, no meio da grama, e fui sozinha até a coxia onde dormiam os cavalos. A luz do lampião estava trepidando e o amarelo irradiava por uma das janelas.

Aposto que Thomé estava conferindo o estado da nossa égua que acabara de dar cria. Caminhei entre as baias e olhei por cima de cada uma para conferir, mas não o achei. Franzi a testa e percebi que a última estava aberta. Quando virei meu rosto e vi as costas dele a reconheci na hora, só não fazia parte do seu corpo aquelas mãos que tateavam as suas costas por cima da blusa listada. Senti uma vertigem e quis pensar que era um engano. Tentei chamá-lo pelo nome, mas temi ver seu rosto e não o de outro.

Queria ter pernas para correr, mas elas fincaram no chão e na minha boca não havia voz. Meu coração disparou e senti a mesma adrenalina de quando corro com os cavalos. Era meu corpo se preparando para uma situação de reação. Nas veias, meu sangue fervendo corria quente. Senti uma dor não física, quem sabe na epiderme da alma.

Eu esperei por acontecer. Não me mexi, deixei a cena desenrolar sozinha em seu ritmo natural. Ele a empurrou mais para dentro e abriu os botões da sua blusa.

Senti o ódio dos traídos e meus dentes rangeram. Olhei para o balde de água do meu lado esquerdo. Peguei-o lentamente. Segurei por de baixo e com a outra mão peguei na borda. Em um movimento rápido e irado joguei a água fria nos dois.

_Ah! _ a mulher deu um grito e se assustou.

_Jéssi? _ Thomé engoliu em seco.

_Deu para apagar o fogo? Eu pensei que fosse pegar no feno!

_Não é...

_O que eu estou vendo? _ larguei o balde.

_Eu...

_Você pode ficar com ela porque se merecem. _ caminhei em direção a saída e ele não veio atrás.
Corri pelo caminho de volta. Fiquei ofegante, meu coração acelerou até doer. Entrei pelos fundos da casa, subi até meu quarto e fechei a porta. Olhei para as minhas botas sujas de barro, escorreguei e sentei no chão.

Era hora de chorar, mas aquilo dentro de mim era mais raiva que decepção.

Agora nada mais me prendia aqui.


Bastidores= Parece que Jéssi está decidida. Ela só na sabe o que a espera...