30 de jul de 2008

Capítulo 30: Mudanças (Paulo)

Voltei para o apartamento. Passei pelos porteiros, pela vizinha fofoqueira no elevador, pela sala, pela porta do quarto e não pude passar pelo vão de uma saída que me levasse para fora de mim. Eu tinha vergonha do que era. Isso nunca acontecera antes e Jéssi era responsável por isso. Mudei e agora não conseguia voltar atrás.

Vi que o armário dela estava vazio e alguns cabides se encontravam espalhados sobre a cama. Uma folha de caderno com umas poucas letras tortas era só o que deixara como último adeus.

_"Paulo, como mulher, não posso entender o seu mundo, nem fazer parte dele. Eu estou partindo porque não quero que isso que sinto cresça e se apodere de mim. Prefiro afogar o sentimento e seguir com minha vida. Não me procure. Eu entrei na sua vida de uma maneira muito rápida e intensa. Saí com a mesma velocidade. Jéssi."

Sentei-me e olhei pela janela. Suspirei. Ela não entendia nada do meu mundo e nunca poderia fazer parte dele. E eu não me referia a me achar gay, mas aos objetivos tão diferentes de vida. Jéssi nem fazia idéia do verdadeiro motivo que nos unira.

O problema é que, no meu caso, eu não tive tempo de conter o meu amor enquanto era só um embrião. Agora não havia mais coragem para abortá-lo. O sentimento era mais forte que eu, me fazia sentir aquela perda como uma morte. Eu sabia que não poderia chegar nem perto dela e, isso era como estar em outro plano, inacessível aquela que tinha me feito cometer os erros mais primários.

Como ela, era hora de encaixotar tudo e bater em retirada. Eu também estava saindo daquela história. Contrariado, sufocado, injustiçado, incompleto e mutilado. Precisava voltar para casa.

(...)

_Paulo, tem visita para você. _ minha irmã colocou a cabeça na porta do quarto.

Dei um beijo na cabeça de Clarinha e falei para ela tentar continuar a ler sozinha o gibi da turma da Mônica que estávamos acompanhando juntos.

Abri o portão da rua e vi que eram meus três amigos. Eles não disseram nada.

Apertaram minha mão com força, sonoramente, e me deram um abraço apertado de tapinha nas costas.

_Foi mal, cara. _falei para Bernardo e apontei para sua boca inchada.

_O difícil foi explicar para a patroa. Ela achou que eu estava olhando mulher dos outros!

_Isso você faz sempre! _ brincou nosso outro amigo.

Rimos juntos. Eles eram meus companheiros. Apesar da confusão que Bernardo armara, sabia que não faria isso, se não tivesse sido obrigado.

_E agora? _ perguntei. _Como ela está?

Eles se entreolharam. Não podiam me dizer.

_Eu não quero que nada de mal aconteça com a Jéssi e ela está correndo perigo. Não posso ficar fora dessa.

_O que está pensando em fazer? Não ouviu as ordens do chefe? _ Bernardo falou com voz baixa e perto do meu rosto para que ninguém soubesse nosso assunto secreto.

_Eu quero saber o que está acontecendo com ela. Não vivemos uma brincadeira. Eu estou com essa garota na cabeça.

_Você nunca misturou as coisas, como isso pode acontecer, cara?

_Eu não sei! Ela me envolveu!

_Fique fora dessa, Paulo!

_Se não quiserem me ajudar, tudo bem!

Eles se entreolharam.

_ O que quer que a gente faça?

_Me informem dos planos. _ pedi.

_Isso não!

_Eu não vou prejudicar vocês, prometo que vou tomar cuidado!

29 de jul de 2008

Capítulo 29: Punição (Paulo)

O carro parou no estacionamento do prédio. Senti que minhas mãos suavam. Caminhamos pela porta dos fundos e entramos em uma sala cheia de caixas. Vi uma cadeira a minha espera e senti uma mão me empurrar nas costas para que eu tomasse posse do meu lugar.

Rafaela cruzou as pernas, sentada em cima de uma mesa. Ela deu um telefonema breve, fechou o celular com um movimento de concha e ficou a me olhar. Senti que ela estava feliz com minha situação.

_ Você me desapontou, rapaz. _ ouvi uma voz grave atrás de mim.

Meu chefe se posicionou na minha frente com as mãos no bolso. Depois, cruzou os braços e me encarou.

_O que eu deveria fazer com você? _ perguntou com uma voz sinistra, aproximando seu rosto do meu.

Engoli em seco e segurei a respiração.

_Do que está falando, senhor?

_Eu não sou Deus, Paulo. Mas, eu sei de quase tudo. Não pense que confio na minha própria sombra!

Rafaela trouxe um laptop nos braços e colocou-o na minha frente.

_Vamos avaliar o seu trabalho? _ ele posicionou-se atrás de mim e senti um frio metálico no pescoço, abaixo da minha nuca.

No computador apareceu uma imagem pouco nítida. Logo reconheci. Era o quarto de Jéssi. Ouvi minha voz e a dela. Depois, nós dois sobre a cama.

_Você reconhece o elenco? Acha que eles merecem o Oscar do Filme pornô? _ perguntou com a arma na minha bochecha.

Olhei para Rafaela irado. Provavelmente, ela era a responsável pela câmera escondida no quarto sem aviso prévio. Fui traído na minha missão!

_ Saiu do meu controle. _ falei.

_E se eu sair do meu controle também? _ gritou comigo e apontou a arma em direção às minhas pernas. _ Você nunca mais vai ser homem!

_Não, senhor, por favor! _ implorei quando ele preparou a arma.

_Eu podia apagar você. Mas, vou deixá-lo vivo. Vai ser pior. Há dores que em vida são piores que a morte. _ ele encostou a arma em mim.

_Não, não! _ gritei.

_Paulo, você está fora! _ sentenciou e saiu, acompanhado por todos.

Eu fiquei sozinho na sala mal iluminada, ouvindo o barulho de alguma goteira pingando. Meu suor descia pela testa.

Capítulo 28: Perdendo o controle (Paulo)

Jéssi começou a fazer muitas perguntas sobre Bernardo e eu preferi não respondê-las, pois não sabia o que ele viera fazer ali. Os minutos que antecederam a sua chegada pareceram intermináveis. Ela tinha em seu rosto já o desprezo por conclusões precipitadas e eu começava a ver que nossa noite incrível estava prestes a ser anulada.

Ouvimos duas pancadas na porta. Abri. Bernardo me olhou e respirou fundo. Naquela fração de segundos em que eu segurava ainda a maçaneta da porta, senti que ele estava ali em missão contra mim por ordens superiores. A sua tensão deixava claro que aquela não era uma visita fraternal.

_ Quem é ela? _ perguntou.

_Boa pergunta. _ Jéssi ironizou. _ Eu estava justamente perguntando para o Paulo isso e acho que você mesmo pode responder. Quem é você?

_Diz para ela quem sou eu. _ Bernardo pediu.

Isso não está acontecendo, pensei. Sem reação, olhei meu amigo e aquela que eu amava iniciando uma discussão insólita com base em uma armação que deveria ter o dedo de Rafaela.

_Não vai falar nada, Paulo? Acho que é melhor você se explicar, antes que eu comece a pensar que ontem foi o maior erro da minha vida. _ Jéssi apontou o dedo acusador contra mim.

Fechei a porta, antes que a vizinha fofoqueira aparecesse curiosa para participar do grande circo que era minha vida.

Respirei fundo e pensei por onde começar. Não agüentava mais mentiras que só pioravam a minha situação.

_Eu estou decepcionado com você. _ disse Bernardo. _ Depois de tudo que vivemos!

Jéssi riu e virou o rosto. Passou a mão na cabeça.

_Ele era seu caso? _ ela gritou comigo.

_Você estava me traindo com essa aí?_ Bernardo encenou seu papel de enganado.

_Por que você não acredita que terminei com você? _ falei para ele, tentando encenar também. _ Acabou! Não há mais nada entre nós! Nada! Me deixa em paz. Eu estou feliz agora! Por favor! _ pedi.

_ É assim que você quer, então, tudo bem, eu vou esquecer tudo o que vivemos. _ Bernardo abriu a porta e saiu.

Não passou de alguns minutos sua visita, mas ela conseguiu fazer um estrago irreversível. Eu ainda estava incrédulo, sem entender porque aquilo acontecia comigo. Mas, era de se esperar que aquele fosse o meu castigo por estar enganando uma garota legal como Jéssi. Ela tinha todo o direito de me odiar por ter passado por um momento tão humilhante para ela como mulher.

Queria poder lhe dizer que era tudo uma farsa, que Bernardo era só um amigo. Se pudesse, eu me abriria e falaria que gostava dela como ninguém antes. Mas, precisava ficar calado para o seu bem. Era melhor que ela ficasse longe de mim. Eu só a tornaria mais infeliz. Não era justo querer saborear alguns bons momentos com ela, se depois teria que pagar um alto preço por isso.

_O que eu ainda estou fazendo na sua casa? _Jéssi se perguntou. _O que eu ainda estou fazendo na sua vida, Paulo?

_Jéssi... _ tentei segurá-la pelo braço.

_Paulo, depois disso, eu não suporto mais nem te olhar. Eu não quero ter como fantasmas homens apaixonados por você. Me desculpe se isso é preconceito, ou não, mas é que eu não consigo, juro, não consigo lidar com essa situação. É humanamente impossível para mim estar com um homem que gosta de homens!

Eu não gosto de homens! Eu quis gritar, mas foi preciso engolir minha agonia.

_Jéssi, eu amo você. _ falei a única verdade que norteara as nossas vidas desde que nos conhecemos.

_Desculpe, mas não dá. Desculpe. _ Ela bateu a porta do quarto.

Peguei o celular que havia desligado na noite anterior. Vesti a minha calça e lavei o rosto no banheiro. Desci para o estacionamento e lá encontrei Bernardo.

_O que ainda está fazendo aqui? _ perguntei.

_Eu sabia que você ia aparecer.

_Vai dizer que me ama, agora? _peguei-o pela gola do paletó.

_Desculpa, cara, foi a Rafaela quem mandou.

_Você destruiu tudo! _ dei um murro em seu rosto e, quando ele caiu no chão com a boca sangrando, eu pude ver a que ponto cheguei.

Levei as mãos a cabeça.

_Está tudo contra mim...

_Eu tenho um filho e preciso colocar dinheiro em casa! _ Bernardo levantou-se e apontou o dedo indicador para mim, conforme fez Jéssi há pouco tempo. Parecia que só eu era o errado ali.

_Eu também tenho! Porque se não tivesse, já teria contado toda a verdade para Jéssi!

_Não é só pela sua filha que está aqui. É por causa dela. Você se apaixonou pela garota e sabia que não podia!

_Não se pode mandar no coração.

_Que papo de mulherzinha é esse? Isso não é novela mexicana! _Bernardo passou a mão na boca, mas esta não parava de verter sangue.

Mandei que ele entrasse no carro para levá-lo ao hospital. Precisava dar alguns pontos. No caminho, ficamos em silêncio.

Tudo havia saído do controle e eu sentia que era só o começo da minha punição por ter gostado de Jéssi mais do que deveria.

Rafaela apareceu no hospital quando Bernardo e eu já estávamos de saída. Como ela sabia que tínhamos vindo até ali? Bernardo deve ter lhe comunicado enquanto eu fora fazer sua ficha na recepção.

_O chefe quer vê-lo. _ ela anunciou.




Bastidores= Parece que Paulo agora está realmente encrencado!

Um beijo para Camila que deu um bom chute nos capítulos anteriores! Adivinhou bem a continuação do roteiro, hen? Mas, ainda vem muita estória pela frente!

28 de jul de 2008

Cap 27: Visita surpresa (Jéssi)

Quando acordei, Paulo ainda estava ao meu lado. Não tinha sido um sonho. Estávamos abraçados. Era muito bom tê-lo tão perto e íntimo de mim. Acariciei seu cabelo e ele abriu os olhos. Sorri e me senti feliz. Todas as palavras de Rafaela não conseguiram impedir a alegria que pulsava em meu peito.

_Bom dia... _ falei.

_Bom dia. _ respondeu com voz rouca.

Paulo me abraçou mais forte e me pareceu que ia dormir mais. Lembrei-o que iríamos nos atrasar e ele deu um gemido contrariado.

_Só mais cinco minutinhos.

_Não! _ ri e me levantei.

Ouvimos a campanhia tocar.

_Ué? Quem será? _ franzi a testa. _ Vou ver.

_Não! Deixa que eu vejo. _ Paulo pulou da cama.

_Nossa! Como levantou rápido. _ surpreendi-me. _ Está esperando alguém?

_Não. Mas, como você demora mais, melhor tomar banho primeiro.

A campanhia tocou novamente.

_Não estou com tanta pressa assim. Ainda há tempo. _ caminhei até a cozinha e peguei o interfone.

O porteiro avisou que um tal de Bernardo queria falar com Paulo.

_Conhece algum Bernardo?

Paulo não respondeu.

_Quem é Bernardo? _ mudei a pergunta, agora com voz de brava e desconfiada. Tampei o fone com a mão para que o porteiro não escutasse.

_Conheço, é um amigo. _ disse.

_Mando subir? _ perguntei com a voz seca.

_Não! Eu vou lá embaixo.

Por que ele não queria atender na minha frente? Quem esse Bernardo era que não poderia me apresentar?

_Que isso. Não precisa. Vai ter que trocar de roupa à toa... _ disse-lhe e voltei a falar no fone. _ Pode deixá-lo subir. _ autorizei.

Paulo olhou para o chão, depois para mim.

_O que eu preciso saber antes de abrir aquela porta, Paulo?

_Nada. _ ele riu nervoso.

Bastidores= O que o amigo de Paulo veio fazer? Descobriremos no capítulo que vem.

23 de jul de 2008

Capítulo 26: Amor e incertezas (Jéssi e Paulo)

- Que horas vai sair? Podemos ir juntos para casa. _ Paulo telefonou-me próximo ao fim do expediente.

Eu não conseguia tirar as palavras de Rafaela da minha cabeça, mas não iria questioná-lo agora. Isso era um assunto para ser discutido longe do trabalho.

_ Pensei em a gente jantar antes, que acha? _ perguntou animado.

Não era exatamente os meus planos discutir a sexualidade de Paulo enquanto degustávamos um vinho tinto! Porém, se eu negasse seu pedido teria que dar explicações. Preferi dizer que “sim” vagamente.

_ Depois vemos... Te ligo.

Desliguei e coloquei o aparelho em cima da mesa. Passei a mão no rosto e tentei me concentrar nos relatórios que precisava ler. Rafaela apareceu na porta sorrindo.

_Eu já vou. Precisa de alguma coisa?

Eu precisava que ela não tivesse dito nada para eu continuar naquela bolha rosa e feliz em que eu me encontrava.

_Não, estou bem.

_Nos vemos amanhã.

_Tudo bem.

A volta da viagem tinha sido maravilhosa. Podia fechar os olhos e lembrar de Paulo e eu andando abraçados no aeroporto. Encontramos uma sintonia perfeita. Eu me sentia tão feliz que cheguei a me perguntar se o que sentia por Thomé tinha sido amor, pois o sentimento de agora era muitas vezes maior! Não podia especificar se era amor o que batia no meu coração por Paulo. Mas, sentia muita dor pela decepção de suspeitar que ele me escondia aquele segredo. Isso mudava tudo!

_ Está tudo bem com você? _ ele estranhou o meu silêncio quando caminhamos para o restaurante que ficava na esquina do nosso trabalho.

_Mais ou menos.

_Alguma coisa te chateou? _ perguntou e me abraçou mais forte, me deixando colada ao seu corpo enquanto andávamos.

_Precisamos conversar, Paulo.

_O que houve? _ parou e se posicionou na minha frente.

_Aqui não.

_Eu quero saber o que está acontecendo...

_Calma, podemos sentar primeiro? _ pedi.

Ele silenciosamente cedeu passagem e soltou pesadamente o ar dos pulmões.
Quando sentamos no restaurante, ele me encarou ansioso para saber o que me aflingia.

_Paulo, eu queria que você fosse sincero comigo.

_Tudo bem.

_A Rafaela me falou que você é gay.

Ele não negou como eu desejava. Recostou-se na cadeira e esperou que eu terminasse. Então, era verdade?!

_O que mais ela disse?

_Para resumir, foi isso. Eu confesso que fiquei chocada! O que rolou entre nós pareceu tão real!

Ele levantou-se e sentou na cadeira ao meu lado. Senti que agora era o momento de vir sua explicação. Torci para que me convencesse.

_Eu não sabia como isso poderia mexer com você, Jéssi. Só quero que saiba que o fato do meu passado ter sido um pouco diferente, eu não posso dizer que nosso lance não é real! Eu gosto muito de você e agora não há ninguém no meu coração sem ser você.

_É complicado saber que posso ter um homem como meu rival!

_Jéssi, eu só quero você! _ Paulo afirmou com tanta força que eu poderia jurar que aquela história era mentira. Como um homem tão másculo como aquele se interessaria por outro?!

_Eu não quero me machucar, Paulo.

_Nem eu permitiria isso. Jéssi, eu só consigo pensar em você desde aquele beijo que me deu no churrasco de calouros. _Paulo acariciou meu rosto e sorriu. _ Eu quero estar com você o tempo inteiro. Na minha vida, só falta você...

_Tudo o que está falando é muito forte...

_Eu não estou mentindo. Eu gosto mesmo de você.

Respirei fundo e o olhei longamente. Eu poderia estar cometendo a maior burrada da minha vida, mas acreditei nele. Eu via verdade em seus olhos e na sua voz.

_Podemos comer e curtir o resto da noite em casa. _ aproximou o rosto do meu e roçou o nariz na minha bochecha. Fechei os olhos e nos beijamos.

***

Quando chegamos ao apartamento, Jéssi foi ao banheiro. Olhei o vaso de planta em cima da estante. Virei-o para trás a fim de colocar a câmera voltada para a porta da varanda e desliguei o meu celular. Não agüentava mais aquela pressão de vigilância.

Jéssi voltou e sorriu timidamente. Sei que estava confusa com aquela sujeirada que Rafaela fizera com seus sentimentos. Eu não conseguia visionar como tudo terminaria. Havia a maior parte de chance de Jéssi terminar me odiando e eu a amando muito mais.

Encostei minha testa na dela e com as duas mãos a puxei pela cintura.

_Paulo, eu preciso acordar cedo...

_Pode deixar que eu te coloco para dormir. _ beijei-a com vontade e a fiz caminhar de costas para o quarto.

_Paulo...

_Se você quiser, eu posso ir embora... _ beijei o seu pescoço.

Jéssi puxou-me pela camisa e nós caímos juntos sobre a cama. Ela não duvidaria da minha masculinidade. Foi muito mais intenso do que eu poderia imaginar e, quando nossos corpos se aquietaram, fomos entregue ao sono, abraçados e sem mais perguntas ou incertezas.

Eu queria ter dormido aquela noite para sempre porque a surpresa de Rafaela que nos aguardava na manhã seguinte seria um golpe irreversível.

Bastidores= Qual será a surpresa de Rafela? Chutes? Façam suas apostas!

20 de jul de 2008

Cap 25: Bom demais para ser verdade (Jéssi)

Thomé me olhava com ar de desapontamento. Concentrei em um ponto fixo do botão da camisa xadrez de Paulo e não me soltei de seus braços.

_Vejo que você voltou para terminar o que ficou em aberto. _ Thomé comentou.

Revirei os olhos e suspirei. Eu sabia que acharia que estava de vingança por sua traição. Mas, eu não planejara nada! Não seria tão maquiavélica a ponto de trazer Paulo até ali para usá-lo em um plano de ajustes de contas. Mesmo que quisesse, quem iria garantir que Thomé apareceria de repente? Foi um puro acaso do destino. Só faltava Thomé enxergar isso também.

_Eu vou beber alguma coisa... _ Paulo me soltou devagar, delicadamente, mas sem me olhar.

_Não... não precisa ir embora. _ falei baixinho e o segurei pelos braços.

_Está tudo bem... _ sorriu um sorriso amarelo e polido.

_Por que está caindo fora? _ Thomé provocou-o.

_Eu não estou caindo fora, acho que vocês têm o que conversar... _ ele tentou ser educado, mas eu sabia que mais um pouco de provocação o faria perder o tom da diplomacia.

_ Não se abandona uma dama. Não sei como são as regras do seu lugar. _ comentou.

Paulo, que já estava quase na porta, voltou.

_Shiiii... _ fechei os olhos e levei a mão à testa.

_ “No meu lugar” também não se abandonam as damas, como você fez. Há uma diferença entre respeitar o espaço dela e colocar outra em seu espaço. Essa lição você foi reprovado, pelo que fiquei sabendo. Mas, é de se presumir que em todo lugar existam pessoas que não fazem aquilo que falam. Aqui também se chama isso de hipocrisia? _ foi irônico.

Uau! Dois homens em uma guerra verbal sobre mim. Mesmo que eu não tivesse planejado aquilo, admito que estava gostando muito.

_O carinha é cheio do discurso, hen?! _ Thomé riu e olhou para mim com deboche.

_ Não vou perder meu tempo com um peão rude como você.

_O que disse? _ Thomé estufou o peito e chamou para briga.

_Está achando que é mais forte, é? _ aceitou a provocação.

Maravilha! Foi a hora de eu revirar os olhos. Por que os homens sempre partem para o lado animal de controle do território? Alguém ali tinha que trazê-los de volta para o nível racional.

_Vamos parando, gente. Parou, parou. Paulo, vem comigo... _ puxei-o pelo braço.

Andamos em silêncio no caminho de relva verde até a festa. Thomé ficou para trás com seus recalques e conseguiu me deixar mal com Paulo.

Na hora de dormir, levei uma xícara de chocolate quente como pedido de desculpas pela situação. Bati na porta e Paulo veio atender.

_Oi. _ ofereci a xícara e ele abriu passagem para eu entrar.

Deixei em cima da cama o cobertor que trouxera. Ele tomou um pouco do chocolate, sem tirar os olhos de mim. Parou com a xícara na altura do seu peito e me encarou, diferente do que fizera durante todo o resto da noite.

_Você ainda gosta daquele idiota? _ perguntou.

_Não! _ ri, aliviada por saber que sua seriedade era ciúme. _ Desculpe por tê-lo feito passar por aquela situação... Estava certo, ele é rude mesmo.

_Me agüentei para não quebrar a cara dele. _ Paulo deixou a xícara em cima do criado mudo e caminhou até mim.

Meu coração acelerou e eu rapidamente verifiquei que a porta ainda estava entreaberta e alguém poderia passar.

_Preciso descansar, vamos voltar amanhã cedo. Boa noite... _ caminhei para a saída e senti que veio atrás. Paulo fechou a porta e continuou com a mão na maçaneta de maneira que eu fiquei entre ela e seu corpo, aprisionada.

_Vai fingir que nada aconteceu? Como uma festinha de escola em que todo mundo é amigo colorido de todo mundo e no fim ninguém é de ninguém? _ perguntou.

Eu me virei devagar e não consegui olhá-lo, estava muito sem jeito.

_Se quiser que seja assim, ao menos me fale. _ pediu.

_Eu é que não quero ser uma aventurinha passageira...

_Acho que pararam a gente na melhor parte. _ Paulo puxou-me e me beijou intensamente. Levei a mão à sua nuca e afaguei seu cabelo. Era tão bom sentir o calor do seu corpo e ficar envolvida em seus braços fortes. _ Eu poderia ficar a noite toda assim... _ falou perto do meu ouvido.

_Eu também. _ sorri. _ Mas, tenho que dormir. Já são duas da manhã.

_Tudo bem, a gente continua do ponto onde paramos. _ riu.

Voltei para o meu quarto e, deitada na cama, pensei em como a vida dera uma grande reviravolta. Estava chorando por Thomé há alguns meses e, agora, com esse sorriso bobo por causa de Paulo. Temi que a felicidade tivesse fim. Depois de uma primeira desilusão, acabamos achando que ela é inevitável. Só que eu tinha a esperança pueril dos apaixonados de que tudo seria maravilhoso eternamente.

Infelizmente meu eternamente foi até a manhã seguinte, quando cheguei à empresa para meu primeiro dia de trabalho. Encontrei Rafaela que acompanhava meu pai, sempre atrás, anotando tudo em sua agenda, como uma sombra controladora.

Ao me mostrar a sala onde eu ficaria, perguntou-me sobre minha vida nova na cidade, tentando ganhar intimidade.

_Está ótimo, sim. _ respondi vagamente.

_Que legal. Eu te confesso que sempre quis ter um amigo gay. _ falou.

_Desculpe, eu não entendi. _ ri.

_Ora... do... você não sabe?

_Não, realmente não estou entendendo nada.

_O Paulo.

_Que tem?

_Ele não te contou?

Senti um frio na barriga com medo de que no meio daquelas perguntas e respostas fragmentadas a palavra Paulo e gay tivessem alguma conexão.

_Quando eu perguntei para aquela minha amiga, ela me dissera que conhecia o Paulo e que ele era gay. Achei que fosse legal você dividir um apartamento com alguém que não te assediasse...

Depois de “ele era gay” eu não ouvi mais nada. Senti que meu sangue começou a circular mais devagar.

_Desculpe, Jéssi, você não sabia? Eu não devia ter lhe dito! _ lamentou.

_Tudo bem. _ consegui voz para dizer e espírito para sorrir forçadamente. _ Pode ficar tranqüila que eu me viro com o resto. Se eu precisar, falo contigo. Não quero atrapalhar o seu trabalho.

_Ah! Claro. _ ela virou-se para sair e fechou a porta.

_Isso não está acontecendo... _ a voz entalou na garganta. _ Não está... _ senti as lágrimas virem.

Lembrei-me de Paulo junto a cerca querendo me dizer alguma coisa antes do beijo.

_Puta que pariu! Eu não dou sorte! Homem bonito, legal e inteligente bem na sua sala de casa é um projeto de estudo, não existe! Como não suspeitei?

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É gostoso ver o capítulo novo e ficar com gostinho de quero mais no final? Este livro é feito sem fins lucrativos e é um projeto de uma escritora que luta contra a falta de incentivo das editoras nesse país! Para manter a chama da criatividade sempre acesa, preciso da sua colaboração. Indique esta novela on-line para seus amigos que gostam de ler. Vamos aumentar a nossa comunidades de leitores! Conto com você! Beijos da Li Mendi.
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17 de jul de 2008

Cap 24: Aproveitando enquanto é tempo (Paulo)

Ela era meu espelho refletindo a intensidade de um querer quase em eclosão. Ali, alguns centímetros esperando para nos tocarmos. Só à espera do que eu ia dizer. As recomendações de Rafaela travaram em minha garganta. Eu não podia mentir daquela maneira cruel porque eu queria muito que Jéssi me deixasse beber mais um pouco daquela fonte da vida.

Eu estava me sentindo feliz como nunca. Mentir que não gostava de mulheres seria quebrar o castelo com uma onda violenta. Queria adiar, por mais cruel e errado que fosse. Mas, se tudo aquilo já começara como um pecado irreparável, que eu pudesse sentir o amor por um pequeno espaço de tempo.

_Nada, deixa para lá... _ balancei a cabeça para os lados.

_É... Vamos lavar a sua bota ali onde ficam os cavalos.

_Ah! Claro. _ aceitei e pulamos novamente a cerca. Não entendi porque ela propusera aquilo. Podia jurar que iríamos nos beijar, agora de verdade, sem que ela estivesse bêbada, ou passando um trote.

Entramos em um grande galpão feito de madeira maciça, com o teto alto de telhas de barro. Os cavalos estavam em suas baias. Nós fomos até o fundo, onde Jéssi conectou uma mangueira na torneira, que acabou chicoteando o ar por causa da pressão da água, como se fosse uma cobra esquizofrênica voadora.

_Segura que está viva! _ brinquei e pisei na mangueira.

_Você a matou pela cabeça! _ Jéssi riu e eu me abaixei para lavar o solado da bota.

_Não tem problema de molhar aqui?

_Não, não. O chão é de barro, daqui a pouco seca.

Ela desligou a torneira.

_Que droga, acabei ficando molhada. _ reclamou, olhando para a própria blusa cheia de pingos de água.

_Eu sei como secar. _ sorri.

_Deixa eu ver a idéia genial que vai me dizer. _ colocou o dedo no queixo e fingiu pensar, olhando para o alto. _ Vai propor que eu estenda no varal?

_Já ouviu falar de secar no corpo? _ perguntei.

_Nossa, eu superestimei sua genialidade! _ ironizou e andou em direção a porta.

_Eu não disse em que corpo. _ falei e continuei de costas.

Esperei que ela falasse qualquer coisa, mas não veio nada. Só o silêncio quebrado pelo ar forte saindo da narina de algum cavalo.

Virei-me e a vi parada, de frente para a porta e de costas para mim. Polegar em um dos bolsos, o calcanhar direito apoiado no chão e a ponta do pé para o alto, balançando para os lados.

Dei mais três passos e a circuncidei para encará-la, frente a frente.

_Se você não tem coragem de dizer, então, não diz. _ falou séria.

Sei que se referia ao que eu deixei de falar próximo à cerca. Ela esperava que eu lhe rendesse palavras de amor. Talvez, por isso mesmo quebrara o clima e propusera ir ao estábulo.

_É como você falou, tem coisas que é melhor fazer. _ puxei-a pela blusa e ela veio até mim com os pés arrastados, em um movimento um pouco brusco.

Acariciei suas bochechas com minhas mãos grandes, joguei seu cabelo para trás e esperei que ela se oferecesse a mim. Mas, seus olhos agora eram de desafio e isso me excitava ainda mais. Coloquei as mãos nas suas costas e a envolvi, fiz um movimento para frente e Jéssi caminhou para trás, até encostar em uma pilastra de madeira e parar. Ficou com a nuca levemente para trás, arrebitando um pouco o nariz.

Abaixei a cabeça e acariciei a parte da blusa molhada. Meus dedos subiram, contornando a curva do seu abdômen, até deslizar pelo contorno do seu seio próximo às axilas. Rocei meu nariz por seu pescoço e deixei os lábios encostarem na pele para experimentar a seda daquele toque. Jéssi fechou os olhos e encostou seu queixo no meu ombro. Ouvi sua respiração no meu ouvido. Ela afagou com uma das mãos o cabelo da minha nuca.

_Acho que já evaporou. _ sorriu e me olhou de lado.

Nossos corpos estavam quentes e eu sentia transpirar. Sorri também e toquei com meu polegar direito seus lábios para desenhar o contorno. Entreabri a minha boca e seus olhos fitavam agora os meus lábios, à espera paciente. Não sei quem foi primeiro, mas nossas línguas se encontraram. Foi diferente dos dois beijos anteriores porque agora queríamos e nos arriscávamos conscientemente.

Inclinei a cabeça para o lado direito e nos beijamos longamente até esquecer o tempo, a música, a festa, tudo. Era só o carinho de nossas mãos e lábios. O contato mais delicado, doce e sincero que já tive. Não queria que acabasse nunca, mas ouvimos os passos de uma pessoa.

Olhei para trás. Era o ex de Jéssi.


Bastidores= O ex e Jéssi, ali no estábulo mais uma vez. Papéis trocados? Será que Jéssi armou? O que vocês acham? Foi coincidência ou não?!!!

16 de jul de 2008

Capítulo 23: Eva (Paulo)

Quando chegamos na porta da sala da casa de Jéssi e olhamos para a festa a uns metros de distância, ela estancou na soleira e não passou. Perguntei se havia algo errado, mas não me respondeu. Existia algum portal invisível ali e teríamos que dizer palavras chaves para poder atravessá-lo?

_Não acredito que ele veio! _ Jéssi entrou mais uma vez.

_Ele quem? _ olhei para frente, tentando achar algum rosto suspeito.

_Meu ex. _ Jéssi andou para os lados com a mão nas costas, na altura da cintura. _ Como pôde?

_Quem convidou?_ perguntei.

_Sei lá, minha mãe convidou todo mundo! O que nem é tanta gente assim. Aqui, todo mundo significa todo mundo... _ Jéssi disparou a falar como uma faixa de Cd em ritmo acelerado. _ E ele é filho de pessoas influentes. Mas, eu não tenho nada a ver com ele. Nada!

_Nem sente nada também?

_Nada mesmo! _ falou com voz firme e apressada.

_Estou vendo. Ãhan. Dá para observar isso pelos círculos que está fazendo na sala. Daqui a pouco vai chegar ao centro da Terra!

_Não seja ridículo! _ atravessou a porta com tanta facilidade que eu precisei correr atrás para acompanhar os seus passos.

O que ela pretendia? Expulsá-lo? Não demorou muito para entender a lógica do seu plano. Jéssi fez sinal de que iríamos dançar. Ela ia provocar ciúme.

_Eu não quero. _ recusei-me.

_Como não quer? _ ela olhou para os lados para constar se alguém estava olhando.

_Eu não quero. Desculpe. _ pedi. Realmente já tinha extrapolado todas as minhas concessões vestindo aquela calça apertada e o figurino de vaqueiro! Dançar dando pulinhos era demais para mim!

_Como pode fazer isso? _ falou com os olhos cheios de lágrimas e me largou no meio da pista.

Vi um cara rindo e supus que fosse o seu ex. Ela estava chorando por que eu não dancei ou por causa dele? Por favor, alguém pode me dizer onde se baixa o manual das mulheres da Internet?!

_Nunca se nega uma dança a uma mulher daqui, meu rapaz. _ senti uma mão no meu ombro. Era a mãe de Jéssi. _ Essa é a regra de ouro. Você a ofendeu perante as pessoas. _ ela falou com uma voz mansa de quem compreende minha situação mesmo vendo que errei.

Procurei Jéssi por toda parte. Não podia ter me abandonado daquela maneira no meio de tantos desconhecidos! Quando a achei sentada em cima de uma cerca de madeira, de costas para mim, enchi o peito para falar-lhe que eu deveria estar com raiva.

_O que deu em você, hen, garota?! _ perguntei e subi na cerca também.

Jéssi continuou olhando para frente. Desci do outro lado e fiquei com a minha cabeça na altura de seus joelhos.

_Você acabou de pisar em um cocô de cavalo! _ ela riu.

Olhei para baixo e me senti ridículo. Ri.

_Isso não é adubo? _ tirei sarro de mim mesmo.

_Se olhar por esse ponto de vista... _ ela deu de ombros.

Jéssi estava com a cabeça reclinada para frente. Os cachos caíam de seu rosto emoldurando-o com um dourado vivo e brilhante. Seus olhos cintilavam em minha direção e me fitavam com um quê de dona da situação. Esqueci a festa, a calça e o tal outro. Seus lábios delineavam no rosto um sorriso de promessas que bastava eu pegar, como quem quer a fruta no pé, estica a mão e possui. Mas, daquela árvore do jardim não se podia experimentar. Era a única proibida. Exatamente, por isso, desempenhava em mim o desejo de repulsa e a frustração por não atingi-lo nunca.

_Desculpe por não ter dançado com você. Eu não sabia das regras... _ aproximei-me e ela estendeu os braços, pedindo ajuda para descer.

Poderia pular também, como eu havia feito. Mas quis se deixar apanhar. Era minha Eva, dando-me do conhecimento dos prazeres carnais não concedidos a um homem como eu.

Se ela soubesse de minha condição e, mesmo assim, me atentasse o juízo, eu poderia chamá-la de víbora maligna. Mas, nas mãos suspensas no ar e no sorriso de inocente, eu só podia enxergar um anjo.

A peguei e deixei que ficasse no chão, agora olhos nos olhos.

Ah! Garota, se soubesse que eu te escondo a verdade para te proteger... eu mudo o certo pelo errado para não te provocar nenhuma dor. O que é certo para mim não vai ser bom para você.

Eu te confundo com outras moças e acho que posso tudo. Por favor, não procure abrigo no peito do teu traidor. Estou vivendo um romance sem nexo, um amor sem sexo, e você ainda me diz que gostou. Eu te quero não podendo te querer e por mais que te empurre para longe, quando vejo você voltou.

Todas as coisas impossíveis nos deixam a dúvida se a queríamos só por serem inviáveis ou por simplesmente querê-las. Com você eu não tinha o direito nem de querer quebrar a barreira que nos separava.

_Paulo... Eu quero te falar uma coisa.

_Não fala. _ pedi, com um volume bem baixo de voz.

Se ela dissesse que também sentia o mesmo, não teria mais volta.

_Você tem razão... _ deu um passo a frente. _...Tem coisas que é melhor não falar... _ o último passo limítrofe.

_Nesse caso, acho melhor eu falar...


Bastidores= O que Paulo vai dizer?

*Beijo especial hoje para Laine, Camila, Lucy e Ana Paula que deixaram recados lindos nos últimos capítulos e disseram estar sempre com vontade de saber mais sobre a continuação da estória. Queridas! É um prazer dividir meus livros com vocês!

14 de jul de 2008

Cap 22: Puro sangue (Jéssi e Paulo)

Ao acordar, senti que minha cabeça era uma caixa de vidros quebrados. Olhei para a cama e me perguntei como viera parar ali. Levantei e fui até a cozinha beber água. Na porta da geladeira, um bilhete de Paulo:

“_Não quis acordar a serva do Deus Dionísio. Deixei que você faltasse a aula.”

Sorri e pensei em como terminou aquela noite. Droga. Não lembrava de nada! Cocei a cabeça e senti o cheiro de cigarro e fumaça impregnados na minha roupa e pele. Cruzes! Eu precisava imediatamente tomar um banho.

O telefone da sala tocou. Arrastei-me até lá e atendi.

_Jéssi?

_Mãe!

_Oi, minha querida! Queria te chamar para vir me ver no fim de semana. Vamos fazer a festa da Maria Cebola aqui. Está esquecendo da sua velha mãe.

_Não estou! Vou dar um jeito de te visitar.

_O que você anda fazendo por aí?

_Eu? Nada demais. Só estudando.

_Hum. Se quiser trazer suas amigas novas, pode trazer. Sinto a casa tão vazia.

_Pode deixar, vou lotar um jatinho do papai.

_Faz isso mesmo!

Desliguei e pensei nas colegas de faculdade. Não havia nenhuma com quem tivesse intimidade o bastante para levar comigo para a fazenda. Ops! Acho que tem alguém que pode gostar. Disquei o número de Paulo:

_Bom dia! _ ele atendeu do outro lado. _ Que bom que você não veio. A escola toda só fala do vexame que você deu ontem.

_Ãnh? O que eu fiz?

_Ah! Você começou a dançar em cima do balcão e a se molhar com bebida.

_Não seja ridículo! Eu nunca faria isso!

_Não lembra de nada?

_Não, de nada.

_Por que me ligou? Quer saber onde guardo os comprimidos para dor de cabeça?

_Seria uma boa saber, mas não foi para isso.

_Para que então?

_Quer conhecer a festa da Maria Cebola?

_Mais festa? Eu pensei que viesse para a cidade a fim de estudar.

_Vai dar uma de meu pai agora? Eu estou te convidando para uma festa na minha cidade. Não queria ir sozinha... _ olhei para minhas unhas descascando no canto.

_E o que é essa festa da Maria Cebola? Fica todo mundo chorando?

_Se for para zoar... quer saber? Eu nem devia estar te convidando.

_Eu estou perguntando! Estou levando a sério. É que aqui tem a festa do sinal, dose dupla, fantasy, agora da Maria Cebola nunca vi!

_É uma festa em que as mulheres têm o privilégio de dar as ordens e serem as soberanas. Os homens só obedecem.

_E eu vou poder escolher quem vai mandar em mim?

_Está se achando, né? Quero ver se você será chamado de peão ou sangue-puro.

_Ah! Isso tem aqui também. Só que a gente chama as mulheres de potranca.

_Parei com você!

_Jéssi! Jéssi! _ Paulo se controlou para não rir. _ Minha aula vai começar, depois a gente conversa direito.

Desligamos. Paulo achava graça, mas, para nós era natural aquelas nomeclaturas. Os homens que dançam bem a gente chama de peão e, se de quebra são bonitos, ganham o conceito de "puro sangue" ou "cavalos de raça".

Eu começava a ficar ansiosa para a festa. Já podia sentir o cheirinho do churrasco de porco no rolete com farofa, vinagrete e muita cerveja. Será que eu perdera o ritmo da dança? Fazia tempo que não exercitava meus dotes de prenda.

Lembrei de Thomé, naquele momento. Um caubói que nunca se viu igual. Na dança, há os rancheiros ou bolivianos, que dão pulinhos em sua coreografia e os caubóis, que são mais arrastados, deslizando pela pista. Nós dois formávamos uma bela dupla. Eu era sua prenda puro sangue que dançava a noite toda, só parando para beber uma marvada gelada.

O que sempre me atraiu em Thomé era sua capacidade nata de sarandear. Ele conduzia uma prenda na pista como ninguém. Só não soube conduzir o nosso amor.

***

Quando chegamos na fazenda da mãe de Jéssi, eu me sentia muito tranqüilo e feliz de estar longe das câmeras. A senhora nos mostrou um quarto onde eu poderia ficar e disse que em cima da cama estava uma roupa que eu poderia usar para a festa. Eu fui tão bem acolhido que faria de tudo para entrar no ritmo da cultura deles durante aquele fim de semana.

Só não contava que “entrar no ritmo” poderia ser tão apertado.

_Paulo? Você está bem? _ Jéssi bateu na porta do quarto.

_Estou. Eu acho que sua mãe me deu uma calça muito justa.

_Não! É assim mesmo. Vai ver como na cintura cabe. _ ela falou do outro lado.

Coloquei uma das pernas, depois a outra e comecei a pular feito um canguru desgovernado pelo quarto. Eu ia acabar quebrando tudo pela frente. O abajur caiu no chão e eu tentei segurá-lo.

_Paulo? Abre essa porta! Eu posso ajudá-lo!

_Eu já disse que me viro! _ respondi.

Era uma questão de honra eu conseguir entrar naquela calça sozinho. O problema era como separar os dois hemisférios da minha segunda cabeça! Ou eu acomodava os dois de um lado, ou os deixava formando um sinal de divisão deitado. Qualquer uma das alternativas provocava o esmagamento! Aquilo não era um jeans! Era uma embalagem disfarçada para empacotar ovos a vácuo!

Olhei-me no espelho e estiquei a blusa listada de botões para baixo, desesperado para tapar aquela elevação central!

_Paulo, não esquece que a camisa é por dentro! _ Jéssi falou do outro lado. Ela estava olhando pela fechadura?

_Tudo bem. _ abri a calça e coloquei a barra da blusa para dentro.

O que as Maria Cebola primeiro buscavam em um cara ideal? Os que ofereceriam os melhores ovos mexidos? O trocadilho era infame, mas eu só podia rir daquele figurino que me espremia como colant de bailarino.

Andei com as pernas arcadas feito um caubói cagado para não contorcer meu segundo eu e matá-lo de sufoco.

Abri a porta e vi Jéssi encostada à parede do corredor. Estava tão linda que esqueci da minha roupa. Ela vestia uma calça justa, bota de cano alto até o joelho e o cabelo solto.

_Uau! Se não me dissesse que era da cidade, perguntaria onde esse cavalo selvagem estava escondido. _ comentou com voz provocante, mas brincalhona.

_Tem certeza que fiquei bem?

_A natureza ajudou. _ ela sorriu e andou na frente.

Eu olhei para baixo e me perguntei do que ela se referia. Segui-a.

Bastidores= Essa festa parece que promete. Você não pode perder o capítulo de amanhã. Te vejo aqui!

**Agradecimento especial a Ana Paula Barreto que entende muito da cultura de Jéssi. Obrigada minha leitora amada por todas suas sugestões.

Cap 21: Por que não eu? (Jéssi e Paulo)

_Olha só quem está vindo para cá... _ comentou Isadora, dando um puxão na manga da minha blusa. Eu fiz menção a virar para ver, mas ela pediu pra eu não me mexer. _Deixa que eu digo. _ fez uma voz de quem está fantasiando. _ Camisa preta, braços fortes, carinha de não sabe se é anjo ou se é cafajeste, relógio grande...

Eu cansei daquela brincadeira de adivinhação e me virei ansiosa para ver quem era o seu ídolo.

_Você está falando do Paulo?_ franzi a testa.

_Como assim? Já conhece? _ perguntou-me.

_Claro. _ ri.

Isa e eu nos conhecemos recentemente quando eu esperava na secretaria da faculdade para tratar de uma nota de um trabalho que não havia entrado no meu boletim. Conversamos, trocamos telefone e ela me convidou para a festa ocasionalmente quando nos esbarramos mais uma vez em uma aula que fazíamos juntas. Ela já estava no período de Paulo. Eu não lhe contara ainda muito sobre mim. Isa não sabia que ele e eu dividíamos o apartamento.

_Você gosta dele? _ perguntei.

_Do Paulo?

_Não! Daquele outro ali de óculos com dedo no nariz. _ falei sarcástica.

Ela sorriu e voltou a olhar para frente.

_Ele está nos meus sonhos. _ suspirou.

_Oi, Jéssi. _ ouvi a voz de Paulo atrás de mim.

_Oi. _ respondi. _ Quer? _ perguntei, oferecendo o copo.

_Não. Obrigado. Esqueceu que eu vou dirigir de volta para casa? Com essa lei seca não dá para marcar bobeira. _ falou.

_É verdade. Vai bebendo refrigerante, aí! Pode deixar que eu pago.

_Não precisa. _ ele tirou o meu dedo de riste para que eu não chamasse a mulher do balcão. _ Eu estou com bastante consumação. _ mostrou o cartão. _ Vou falar com um amigo que vi ali. _ Paulo saiu de perto.

_Valeu, tá? _ Isa pegou sua bebida e me deu as costas também.

_Hei! Volta aqui. _ corri atrás dela e a puxei pelo braço. _ O que houve?

_Eu falei que estava a fim dele e você deu uma ótima demonstração de como dar em cima de um cara bem de baixo do meu nariz. Tudo bem que fosse qualquer cara e, não, aquele de quem acabei de falar!

_Calma Isa. Calma. Escuta, Paulo e eu já nos conhecemos faz tempo! Nós dividimos apartamento.

_Por que não me falou antes?

_Sei lá, não achei que fosse alguma referência pessoal do tipo: “Oi, prazer, pode me chamar de Jéssi e moro com Paulo”. _ carreguei na ironia, estava chateada por ter pensado mal de mim.

_Desculpe. É que você pareceu feliz em vê-lo e não com uma expressão de quem vê um amigo. Mas, deve ser coisa da minha imaginação. A paixão cega! Eu tenho que esquecê-lo.

_Olha, se quiser, eu posso falar com ele.

_Sobre mim? _ ela apontou para o próprio peito.

_É, ora. Está com medo de quê? _ desafiei.

_Você está muito moderninha, hen? _ deu-me um tapinha no ombro.

_Você quem sabe... _ sai andando em sua frente.

_Jéssi, eu quero. _ ela aceitou e eu me virei.

_Ótimo! Vou lá...

_Espera! Espera! _ conteve-me, nervosa. _O que vai falar para ele?

_Deixe isso por minha conta. Faça o resto. _ pisquei o olho e procurei Paulo na nuvem de fumaça.

Ele estava do outro lado, conversando com o amigo que tinha reencontrado.

_Oi. _ falei e os dois olharam para mim, principalmente o amigo, que deu uma conferida de cima a baixo, descaradamente. _ Posso falar rapidinho com você? _ apoiei-me em seu ombro para poder chegar perto do seu ouvido, já que a música estava muito alta. Ele inclinou a cabeça para o lado e segurou com a mão a minha cintura por trás, carinhosamente. Senti seu perfume e calor. Por um momento esqueci até do que ia falar. Agradeci a falta de muita luz, que impediu de mostrar minhas bochechas coradas e também o fato de Isa estar longe, porque ela captaria que fiquei afetada pelo contato. Eu devia estar sendo sugerida pela desconfiança de minha amiga e sentindo coisas.

Contei-lhe objetivamente o motivo de tê-lo chamado.

_Deixa eu entender. Você quer que eu fique com ela? _ falou perto do meu rosto e me olhou acompanhando o movimento de minhas pupilas.

_Quem tem que querer é você. Só vim fazer a ponte. _ disse-lhe mais uma vez junto ao seu ouvido, com a mão no ombro.

_E, você? Não quer ficar com meu amigo? Ele estava falando de você. _ foi sua vez de quase encostar a boca no meu ouvido.

Paulo piscou para mim e se afastou. Será que ele ia ficar com Isa mesmo? Assim, tão facilmente?

_Oi, meu nome é Jorge. _ ouvi uma voz ao meu lado e reparei que o amigo de Paulo me estendia a mão com um sorriso esperançoso.

_O meu é Jéssi. _ sorri para ele. _ Depois a gente se fala... _ sai de perto, antes que começasse a achar que teria chance.

Ótimo! Agora, minha amiga estava com Paulo e, eu, sem companhia. Olhei para o balcão e Isa tinha desaparecido. Sentei e pedi mais uma bebida. Dei muitos “nãos” para os caras que tentavam se aproveitar do meu momento “desacompanhada”.

Não sei se foi o teor de álcool ou o ciúme que repentinamente comecei a sentir de Paulo que trouxe à minha memória nosso beijo no dia do churrasco. Eu tinha lhe prometido que isso nunca mais aconteceria entre nós, então, por que eu ficara desse jeito, sabendo que ele estava com outra garota?

_Jéssi? Você está aí, sozinha? _ ouvi a voz de Isa uma hora depois.

_Ué? Você não está com Paulo?

_Não. Conversamos, mas ele não estava muito a fim.

_Eu não acredito que ele te disse isso!

_Não, não. Mas, eu saquei. Só que não tem problema. Eu estou com um carinha bem interessante ali. _ ela sorriu e saiu toda faceira.

Eles não tinham ficado?! E Isa estava tão bem assim?

Caminhei em direção ao banheiro. Subi para o segundo andar e passei por um corredor onde alguns casais aproveitavam para ficarem mais a sós. Vi um cara de camisa preta de costas e meu coração começou a disparar. Tentei não olhar com muito medo do que começava a sentir. Aquelas reações me assustavam. Foi inevitável, olhei tanto que a garota que beijava o dono da camisa preta parou e me encarou. Abaixei o rosto e segui meu caminho.

_Jéssi. _ ouvi a voz de Paulo.

Virei-me e o olhei nos olhos, ressentida. Sua acompanhante não pareceu muito feliz com isso.

_Quando quiser ir embora, me liga, se não me achar.

_Tudo bem. _ virei-me e abri a porta do banheiro.

Ouvi o barulho de alguém vomitando em uma das divisórias. Eu também não estava me sentindo muito bem. Só que não era da barriga para fora que eu tinha que expelir o que me fazia mal, era do coração para fora. Se eu não podia arrancar de mim, ao menos ia esquecer por um momento aquelas confusões mentais, tornando-as ainda mais confusas.

_Uma dose dupla, por favor. _ pedi para o balconista. _ Anda! _ dei duas batidas na madeira com a palma da mão quando ele fez uma cara de indecisão.


***

_ Você viu onde está sua amiga? _ perguntei para Isa, a garota que tinha conhecido hoje.

_Não é ela ali? _ apontou para o balcão.

_Obrigado. _ caminhei em direção a Jéssi e vi que eu tinha demorado demais para chegar. Não podia deixá-la uma noite por si mesma que fazia vexame. _ Vem, Jéssi, a festa acabou.

_Qual é?! Me deixa! _ riu e pegou o copo, mas eu tomei de sua mão. _ Vai lá ficar com sua ficante peituda e me deixa. Eu já disse, me deixa.

_Jéssi, eu falei para se levantar agora. _ usei uma voz firme e perto do seu ouvido.

Quando a coloquei no banco de trás do carro, me arrependi de ter ficado longe à noite toda.

_É, garota, se a lei seca contasse o teor de álcool do passageiro, eu perderia a carteira para o resto da vida! _ falei sozinho e dei partida no carro.

Em casa, Jéssi sentou-se no sofá rindo sozinha.

Trilha sonora da cena (clique aqui)

_Vem cá, me ajuda a ficar em pé! _ pediu.

Joguei a chave em cima da mesa e estendi os braços para dar-lhe apoio. Jéssi ficou de pé e eu intuitivamente a abracei, a enlaçando pela cintura. Será que ela lembraria daquele contato?

_Gostou de ficar com aquela peituda? _ perguntou.

Eu ri e achei engraçado o fato de estar com ciúme.

_Por quê? Queria que eu tivesse ficado com quem? Com você? _ perguntei, covardemente me aproveitando de sua falta de lucidez.

_A noite não acabou ainda. _ disse ela e eu sabia que estava dopada demais para ter falado algo coerente, mas aquilo era uma verdade. Ainda restava nós dois, ali a sós, abraçados. Não havia música, mas meu coração disparava e podia ser um tambor ressoando.

Jéssi segurou meu rosto com suas mãos. Olhou para minha boca, depois para os meus olhos, pedindo permissão.

_Eu não posso..._ afastei seu cabelo que caía sobre o ombro e segurei sua nuca com minha mão direita.

Lembrei-me da câmera na sala. Puxei Jéssi até o quarto e a sentei na cama. Ela reclinou-se sobre o travesseiro. Eu queria estar tão bêbado quanto ela para desculpar-me pela inconseqüência de um beijo, mas eu sabia que não devia.

_Paulo... _ ela agarrou minha camisa e fez força para ficar sobre os cotovelos. Depois, sentou-se.

_A festa acabou, Jéssi! _ coloquei a mão no seu rosto e ela puxou-me mais pela gola da camisa.

_Deixa de ser bobo, você não beijou ela? Então, me beija... _ riu.

_Mas, você não é ela! E por que estou falando com você? Nem vai lembrar de nada!

_O que ela tem que eu não tenho?

_Isso é ridículo!

Jéssi não me ouviu, colou seus lábios nos meus e me beijou. Senti o gosto de álcool de sua boca e quis me embriagar ali. Ela puxou-me ainda mais a camisa e seu beijo me tirou o fôlego. Estava com tanta vontade de fazer aquilo que era hora de aproveitar o que só eu lembraria daquele momento. Afastei seu cabelo e beijei seu pescoço de pele macia e cheirosa. Senti o lóbulo da orelha. Voltei com a boca sobre a sua e beijei todos os beijos que já quis e que ainda ia querer. Meu celular começou a vibrar no bolso da calça jeans.

Recuperei o fôlego e me afastei de Jéssi. Ela caiu sobre o travesseiro e ainda me olhou por um tempo, mas logo desfaleceu de sono com um sorriso nos lábios. Será que havia alguma câmera no quarto? Tranquei a porta e recuperei a respiração.

_Alô? _ atendi.

_Paulo. A Jéssi está bem? _ ouvi a voz de Rafaela do outro lado.

_O que faz acordada a essa hora?

_Eu estava dormindo. Mas a pessoa que estava vigiando a câmera me telefonou.

_Está tudo bem. Ela só bebeu um pouquinho.

_Essa garota só dá trabalho. Não vejo a hora de acabar isso! Boa noite, então.

Desliguei.

Ninguém vai saber, exceto eu. Então, nada aconteceu.


**********************************
Bastidores = Paulo e Jéssi estão sendo envolvidos pela química do amor. Só que esta mistura pode se tornar explosiva. É o que veremos nos próximos capítulos. Imperdível! Espero vocês amanhã! O livro ganhou leitores novos. Boas vindas para quem está chegando.

12 de jul de 2008

Capítulo 20: Devidas apresentações (Paulo)

_ Pai, esse aqui é o Paulo. Paulo, esse aqui é o meu pai. _ Jéssi nos apresentou.

Só me restava estender a mão e apertar a outra que se oferecia para mim espalmada no ar. Eu acabava de me meter em um terreno arriscado. Deixei-me levar pelas circunstâncias que não poderia impedir.

Jéssi parecia muito feliz em nos fazer conhecer, mas eu não partilhava do mesmo entusiasmo. Sabia do que aquele desenrolar poderia me acarretar.

_Sentem-se. _ o pai de Jéssi pediu e assim fizemos. _ Jéssi me disse que você estava procurando um emprego. _ ele comentou.

Quando ela teve tempo de falar isso para o pai? Será que conversaram por telefone sobre mim antes?

_Na verdade, eu faço estágio em um escritório de advocacia pequeno. _ menti.

_Hum. Eu tenho um grupo de advogados que trabalha para mim. Fico feliz que a minha filha queira fazer parte agora da equipe da minha empresa. Vocês podem começar como estagiários.

_Me incluindo? _ perguntei.

_“Vocês” é plural, não?

_Eu não falei que ele era um máximo? _ Jéssi sorriu para o pai.

_Ãnh... é. _ sorri. Eu acabava de entrar para aquela empresa que vivia aparecendo nas revistas e sabia que aquilo não significava felicidade eterna.

Só faltava assinar algum papel de letras miúdas que explicariam a minha sentença.

_Querem almoçar comigo?

_Eu agradeço, mas vou precisar ir para o trabalho. _ adiantei-me. _ É bom que deixo vocês mais à vontade para matarem a saudade. _ levantei-me e voltei a apertar a mão dele.

O celular tocou. Ele pediu um momento e atendeu. Depois, voltou-se para nós.

_Eu havia esquecido. Tenho um almoço de negócios. Podemos jantar, então? _ olhou para Jéssi.

_Tá. _ ela pegou sua bolsa, sem olhá-lo. Estava claramente desapontada.

No elevador, eu tentei quebrar com palavras a parede de gelo entre nós:

_Obrigado pela indicação. _ agradeci.

_Ah, que nada. _ ela sorriu e voltou a olhar para a porta metálica.

_Olha, eu não sou o seu pai, mas, se quiser, pode almoçar comigo.

_Para matar a saudade de você? _ riu.

_Ah! Saudade eu sei que não sente...

Jonas Brothers - When You Look In The Eyes


Saímos do elevador e caminhamos por um grande tapete vermelho que levava até a saída. A recepcionista sorriu. O segurança abriu a porta. Sentimos a diferença de temperatura. Lá fora o sol estava quente.

_Isso é psicologia reversa? Quer que eu diga que sinto? _ perguntou e olhou para os lados, procurando não sei o quê. Fiquei com os olhos presos nela, em silêncio. Depois, seriamente perguntei se ela sentiria minha falta. _ O quê? Se eu fosse embora, ou voltasse para casa?

_É.

_Bom... Sim. Nossa! Que climão foi esse? Não se preocupe, eu não vou embora.

Será que Jéssi pensará o mesmo quando descobrir tudo? Às vezes, eu queria que aquela farsa fosse uma verdade. Eu não perderia tempo em tentar conquistá-la. Ela estabelecia um encanto sobre mim a cada dia. Era preciso me conter e manter distância. Tentava fazer isso com meu corpo, mas meu coração seguia por conta própria pulsando ao ritmo de seu sorriso. Amei desde o primeiro sorriso daquela foto e, já ali, eu senti que aquela garota marcaria minha vida.

Mesmo que eu insistisse na maluquice de ganhar a atenção de Jéssi, eu estaria dando um tiro no pé. Ela ficaria com muita raiva quando soubesse por que estava ao seu lado. Precisava me conter. Porém, cada dia era mais difícil controlar minha atenção redobrada por ela.

Quanto mais os telefonemas de ameaças anônimas se multiplicavam, mais Jéssi se apegava à minha presença. Seu pai dizia para confiar no segurança, só que era em mim que ela se apoiava.

_Hoje, vai ter uma festa do pessoal de uma turma. Quer ir junto? _ perguntou.

_Ah! Tudo bem. _ aceitei em primeiro lugar porque queria ir com ela e, em segundo, porque era meu trabalho grudar nela. Eu estava invertendo a ordem dos fatores e essa matemática ainda não acabaria bem.

_O que achou? _ perguntou, à noite, saindo do quarto. Eu, que estava sentado no sofá da sala com meu laptop no colo, tentei não esboçar a real admiração que senti.

_Bem legal. _ disse.

_Ficou ruim? _ fez um ar de desmotivação.

_Não! Foi o que eu disse: ficou bem legal.

_"Bem legal" é sinônimo de "mais ou menos". Eu sabia que essa blusa ficaria um pouco estravagante. _ revirou os olhos e deixou os ombros caídos pelo cansaço. Voltou a fechar a porta.

Como as mulheres são complicadas! Eu já tinha colocado minha calça jeans e camisa preta há duas horas! Meu celular tocou. Nem precisava adivinhar quem era.

_Oi, Rafaela.

_Paulo, eu estou vendo seu sorrisinho daqui. _ lembrou-me, referindo-se a câmera escondida na sala.

_Viu algum casca de feijão no dente? _ perguntei, irônico.

_Não pode se envolver. Eu já li e reli essa cláusula para você!

_O que eu fiz de errado?!

_Acho melhor nos prevenirmos.

_Hum. O que sugere?

_Diga a ela que você é gay.

_O quê? _ quase gritei. _ Nem pensar! Está louca?

Lembrei-me do beijo que Jéssi e eu já tínhamos dado no churrasco e duvidei que aquela de gay colasse. Mesmo que sim, eu não queria me passar por um gay só para impedir que ela se interessasse por mim. As coisas não estavam tão graves!

_Faça isso antes que não possa voltar atrás.

_Tudo bem... _ cocei a testa. _ Eu vou pensar.

_Não tem que pensar em nada. É uma ordem.

Desligou. Eu balancei a cabeça para os lados e ri. Era ridículo!

11 de jul de 2008

Cap 19: Estreitando laços (Paulo)

O dia no Rio de Janeiro amanheceu com sol brilhante e quente. Jéssi se empenhava em achar alguma rádio no carro que lhe agradasse, mas a tarefa parecia muito difícil.

_Aqui não toca as músicas da sua terra. _ comentei com um riso. Eu me sentia feliz, animado. Simplesmente acordei assim, com um ótimo humor. _ Deixa aí. _ pedi, quando ela passou por uma sintonia que falava sobre o trânsito.

_“Os motoristas que vão pegar a Presidente Vargas encontrarão retenções por causa de uma passeata na altura da igreja da candelária. Os manifestantes são professores do ensino médio que reivindicam melhores salários”.

_Não acredito! _ reclamei.

_Que foi?!

_Esse é o nosso caso! Nós vamos passar exatamente por lá! Por que essas professoras não ficam na escola ensinando? _ de repente, meu humor mudou totalmente.

_Calma. _ Jéssi colocou sua mão sobre o meu braço. _ Se não der tempo para a gente chegar, podemos fazer outra coisa. _ sugeriu, como se estivéssemos em pleno fim de semana para “nos divertirmos”. _ Quando não podemos fazer as coisas, não devemos ficar lutando contra elas! _ explicou a guru de auto-ajuda. _ Hei, Paulo, essa aqui é a sua vida, não é um filme de tortura. Você veio ao mundo para fazer o que está ao seu alcance. No fim, tudo acaba e você nem aproveitou!

Eu respirei fundo para tentar me acalmar, mas não fiz comentários. Ela não sabia que essa não era exatamente a minha vida. Minha realidade ficava em um bairro simples, com minha mãe, irmã e filha que precisavam de mim. Eu tinha uma história completamente diferente daquela de mocinho classe média, que divide apartamento e azara nos anos de universidade. Jéssi não imaginava que minha vivência contava com muito mais experiências que a dela. O que sabia de inter-relações humanas? A traição de um namoradinho caipira?

Eu saí de casa aos dezenove anos para morar junto com uma garota de dezesseis que me traiu com um traficante. Ela me enganava, enquanto eu ficava o dia todo fora trabalhando. Nunca quis cuidar de nossa filha, nos abandonou para morar com outro, enquanto eu a amava perdidamente feito um pateta. Depois, acabou morrendo de maneira estúpida. O próprio traficante descobriu que foi traído por ela e mandou matá-la. A verdade é que estava sempre desmotivada e em busca de uma aventura cada vez maior e mais perigosa. Há pessoas que se alimentam da energia do risco.

Pelo menos me restara Clarinha. Minha linda filha era um anjo bom e doce. Eu sempre digo que tudo de melhor que havia em mim e em sua mãe ficou em Clara. A lembrança do seu pedido de viver comigo no apartamento me trouxe um aperto no peito e amoleceu meu coração. Jéssi estava certa de alguma forma, eu não podia me aborrecer. Aquele engarrafamento era algo pequeno entre tantos problemas da minha vida.

_Olha, quem sabe nem é para a gente chegar lá? _ ela olhou para frente e começou a partir para o campo do sobrenatural.

_Hum... _ tentei demonstrar que a ouvia.

_Você sabe da história do homem que se salvou de morrer na queda das torres, no 11 de setembro, nos Estados Unidos, por causa dos bolinhos da mulher?

_É? Como assim?

_A mulher não cozinhava muito bem, mas se empenhava muito. Na manhã daquele dia, decidiu fazer uns bolinhos para o marido comer antes de ir trabalhar. Só que o homem teve uma baita dor de barriga que o obrigou a sair do vagão do metrô correndo para buscar um banheiro. Isso o impediu de chegar nas torres.

_Caramba! Será que o prédio da faculdade vai cair também?

_Nãooo, né? _ Jéssica deu uma sonora gargalhada movendo todo o corpo.

Olhei para Jéssi, que se virou para sorrir. Estava com o cabelo molhado e usava uma saia colorida. Não sei se seu humor amanheceu tão alegre quanto o meu que se refletiu na sua roupa cheia de cores. Que bom que nem lembrava a garota chorando no quarto ontem à noite.

O celular tocou e ela transformou-se em tensão. Abriu a bolsa e tirou o celular. Ficou mais aliviada, era só o pai e, não, algum telefonema anônimo com ameaças.

_Oi, pai. Onde estou? No meio de um engarrafamento. Ah! Você está na cidade? Que ótimo. Se eu posso ir aí? Espera um pouco. _ ela virou-se para mim e perguntou: _ O que você iria fazer na faculdade hoje de importante?

_Eu? Ãnh, entregar um trabalho. Mas, acho que não vai dar tempo. _ olhei o relógio, marcando oito e meia. _ Vou deixar no escaninho do professor e avisar por e-mail.

_Alô, pai? Oi. Olha só, eu tenho que dar uma passada antes na faculdade. Você vai estar na empresa que horas? Ah! Está ótimo, passo lá, sim. Quero te apresentar uma pessoa. _ Jéssi olhou para mim e tive medo de que fosse quem eu estava pensando! _ Namorado? Nãooo, pai. Nada disso! É um amigo só. Vai gostar. Eu estou pegando carona com ele. O Wagner? Está em um carro atrás de nós, como sempre. _ Jéssi olhou pelo retrovisor.

Quando ela desligou, meu cérebro estava a mil. O que ela queria me levando para conhecer seu pai?!

_Vou te apresentar para ele e você aproveita para falar do seu currículo. É uma chance de arrumar um ótimo emprego. Eu vou pedir um para mim também.

Se eu fosse passar meu currículo ia estar na porta da rua! Não tinha nada para fazer na empresa do pai dela! Mas, Jéssi estava resoluta demais para dissuadi-la de seu plano.

_Gostou da idéia? _ perguntou-me.

_Ah! Muito! Não vejo a hora. _ tentei controlar a ironia.


Bastidores= Paulo está se aproximando cada vez mais da beira do penhasco. Ele sabe que uma hora não terá mais como dar um passo à frente. Como será conhecer o pai de Jéssi, será que ele vai aceitar o emprego? Uma coisa é certa: muita aventura estar por vir! Diversão garantida! Beijos, minhas leitoras amadas! Deixem um recadinho aí nos comentários.

9 de jul de 2008

Cap 18: Eu não posso te deixar partir (Paulo e Jéssi)

Eu estava na varanda da sala, quando Paulo voltou. Ele sentou imediatamente à mesa do computador que deixara em modo de espera. Depois de mexer um pouco, desligou e apareceu na porta.

_Você está pensativa...

Virei o rosto e o olhei recostado. Ele aproximou-se e nossos ombros quase se tocaram.

_Não está feliz de ter vindo para a cidade? _ perguntou.

Eu continuei muda, olhando para o céu negro à minha frente.

_Por que está tão aflita? _ insistiu e reparou nos meus punhos fechados, segurando o ferro do parapeito. _Jéssi?

_Eu acho que eu não vou poder ficar. _ disse-lhe e engoli em seco.

_Que isso?! Não vai ser tão difícil assim. É só uma faculdade, uma cidade meio esquisita...

_É um motivo grave.

_Aconteceu alguma coisa com sua família?

_Eu não posso contar. Não sei se eu devo... Desculpe. _ Voltei para a sala e depois me tranquei no quarto.

***

Imediatamente tirei o celular do bolso e liguei para Rafaela.

_A Jéssi está estranha. O que aconteceu? _ perguntei.

_Já começaram as ameaças.

_Ãnh? Já? Como não me falaram nada?

_Tenho que desligar agora!

Irritei-me e joguei o aparelho em cima da mesa. Ouvi um gemido de choro vindo do quarto. Eu não estava preparado para aquilo. Por que sempre fui tão frio e agora eu me sentia no olho de um rodamoinho? Era um lamento infantil e soluçante que ecoava do outro lado da parede. Não consegui fazer nada além de andar pela sala.

Respirei fundo e bati na porta. Virei a maçaneta. Estava aberta. Coloquei a cabeça para dentro.

_Posso entrar? _ perguntei.

Jéssi, que estava sentada na cama e recostada em um travesseiro, virou o rosto para o lado.

_Eu estava ouvindo uns ruídos e pensei que fosse aquela velhinha lá de baixo chorando a minha falta. Você sabe... _ sentei à sua frente e ela sorriu.

_Eu não estou muito boa. _ disse-me.

_Dá para ver.

_Eu estou sendo perseguida.

_Como assim?

_Recebi hoje um telefonema com uma ameaça. Meu pai tinha me advertido que eu não deveria sair de lá, mas eu não queria limitar a minha vida. _ ela fez uma pausa e continuou. _ Deixa eu explicar, meu pai tem vários negócios e mexe com gente muito grande. Pessoas que não deixam barato nenhuma insatisfação. Alguém está querendo me fazer mal. Agora, entende por que tenho o Wagner como minha sombra?

_Você está segura aqui...

_Eu estou com medo. _ Jéssi pegou o celular que estava no criado-mudo. Depois de apertar alguns botões, me deu para ouvir.

Era uma mensagem na caixa de voz.

_ “Oi, Jéssi. Seu pai sabe medir muito mal os riscos. Ele esqueceu que não pode estar em todo lugar. Estamos na sua cola”.

Desliguei e a olhei nos olhos. Ela buscava o mesmo desespero em mim, mas eu não podia oferecer-lhe essa reação.

_Seu segurança está por perto. Não pode deixar de viver sua vida aqui...

_Eu não quero ir embora.

_Não vai! _ segurei seu rosto com a mão.

_Você fala como se pudesse fazer algo por mim. _ segurou meu pulso e olhou dentro dos meus olhos com esperança.

Cascada - Everytime we touch ( slow version)

Eu ia cometer a maior loucura de todas, dar uma reviravolta nos planos. Mas, se a vida valesse por um só erro, que eu então errasse. Abri a porta do guarda-roupa.

_Está vendo isso aqui? _ peguei a caixa.

Jéssi tinha agora toda sua atenção em mim. Saquei a arma e sentei na cama novamente bem próximo a ela. Precisava arrumar uma forma de passar-lhe confiança. Mas, até onde eu poderia ir?

_Eu já fui um policial.

_Você?

_É.

_Como? _ Jéssi franziu a testa.

_Não sou mais e não quero contar o porquê agora. Ande comigo e perto de mim.

_Você vai sair por aí armado?

_Não precisa ir embora. Nada vai te acontecer.

Eu estava arriscando definitivamente a minha vida, mas eu não queria que Jéssi voltasse para a fazenda. Ela sorriu e disse que eu era louco. Nem precisava me falar aquilo, eu tinha noção das conseqüências de minhas atitudes.

Entre todas as mentiras que eu lhe contava, aquela era uma grande verdade: precisava ficar perto de Jéssi. Depois era depois. Não vou pensar nisso agora.

_Eu não quero que nada te aconteça por causa de mim, Paulo.

_Eu vou me cuidar. Vou cuidar da gente, aliás.

_Às vezes, eu sinto que não é por acaso que eu vim parar aqui, que tudo teve algum propósito.

_Deve ter...

_Podemos de manhã ir para a faculdade juntos. _ ela sugeriu.

_Vamos. _ aceitei.

Bastidores= Paulo começa a perder a noção das fronteiras entre a missão e seu coração. Vamos ver até onde ele consegue levar com tantas mentiras. A hora da verdade sempre chega.

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8 de jul de 2008

Cap 17: Em apuros (Paulo)

_Pai, é demais isso aqui! _ Clarinha começou a pular em cima do sofá.

_Desce daí. _ falei com voz paciente. Ela deu o último pulo e caiu sentada, rindo. Abracei-a e beijei o topo de sua cabeça.


_ Por que você mora aqui e, eu, naquela casa?

Pensei um pouco em como respondê-la. As crianças dominam a lógica do universo. Conseguem enxergar tudo claramente. Resta apenas com o tempo elas se tornarem bem complicadas para compreenderem como nem tudo se explica em poucas palavras.

_Eu moro aqui porque fica perto do meu trabalho. _ disse, não sendo mentiroso em certo ponto por isso.

_E eu posso morar com você? Deixa, por favor... _ ela juntou as mãos e fez uma cara comovente de quem implora.

_Mas você vai ficar longe da sua escola. _ tentei argumentar.

_Ah! _ cruzou os braços.

_ Em breve vamos ficar juntos. _ prometi.

_E de quem é aquela roupa? _ apontou para o casaco rosa de Jéssi em uma cadeira.

_É de uma pessoa que mora aqui.

_Ela é sua namorada?

_Não! Nem namorada, nem amiga, nada. Só divide a casa.

_Aaaah! Por que você pode dividir a casa com ela e não comigo?

_Por que eu preciso que ela me pague o aluguel da metade dessa casa para pagar a sua escola.
_Esse apartamento é seu, pai?

_Não... não exatamente.

_Eu não estou entendendo.

_Quer sorvete?

_Quero! _ ela vibrou.

Ótimo! Eu precisava congelar a sua curiosidade com qualquer coisa que a distraísse. Clarinha tinha uma mente assustadora, capaz de fazer muitas conexões reveladoras. Uma pequena conversa com ela poderia ser mais difícil de travar que com um interrogador de polícia.

Dei-lhe o pote de sorvete de chocolate branco para que pudesse pegar o quanto queria. Fiquei a observá-la se lambuzando e feliz. Se soubesse o quanto gostaria de estar com ela. Não poderia trazer minha filha até o apartamento, era muito suspeito, mas eu queria aproveitar que Jéssi estava em provas durante a manhã para curtir um pouco aquele momento.

De repente, ouvi um barulho na porta da sala. Assustei-me.

_Clarinha! Fique aqui! Em silêncio. _ falei baixo.

Tranquei a porta da cozinha e dei de cara com Jéssi na sala.

_Oi... Eu não tive prova, acredita? _ falou.

Não acredito mesmo! Droga! Estou perdido!

_É? E por quê? _ perguntei, tentando ser displicente.

_O professor decidiu só aplicar semana que vem.

Era o que me faltava! Como explicaria sobre aquela garotinha tomando sorvete na cozinha?

_Ãnh, tá.

_Vou tomar banho. _ ela anunciou.

Era minha vez de voltar para a cozinha e tirar rápido Clarinha dali, mas eu não podia deixar que as duas se encontrassem por azar. Precisava preparar uma delas.

_Por que fechou a porta? _ Clarinha perguntou.

_Sabe o que é? Minha colega de quarto está muito gripada. Não quero que você pegue.

_E você não vai pegar?

_Não, eu não. Eu já fiquei gripado, não pego mais esse ano. _ disse-lhe e a puxei pela mão. Antes de abrir a porta novamente, olhei-a. _ Ah! Essa moça queria ter um filho, mas não pode ter. Então, ela fica triste quando vê que outras pessoas têm uma filha tão linda e ela não pode. Vamos fazer um trato, não me chama de pai perto dela. Pode me chamar de irmão?

_Mas você também não pode ter filha!

_Vamos, Clarinha. _ puxei-a.

Como eu merecia uma boa punição por ter alterado as regras do jogo, não tive sorte e dei de cara com Jéssi, que esqueceu a toalha no quarto e voltou para pegar.

_Ué, quem é essa menina linda? _ perguntou e se aproximou de Clarinha.

Frio na espinha dorsal subindo como um choque.

_Qual o seu nome? _ Jéssi abaixou-se para ficar da altura dela.

_Clara.

_Que bonito! O meu é Jéssi.

_Ela é minha irmã. _adiantei-me.

_Você tem uma irmã? Nunca me falou! _ ficou de pé e franziu a testa.

_Pois é. Estão apresentadas. Vamos, Clarinha?

_Por que a pressa? Ela pode ficar e almoçar com a gente!

Que idéia ótima! Aí, ela aproveita para contar como eu sou um bom pai e você descobre tudo!

_Não, não, ela está atrasada para ir para a escola. _ puxei-a pela mão e fechei a porta.

Apertei o botão do elevador repetidamente, um pouco descontrolado.

_Por que disse que eu tinha que ir para a escola? Por que ela estava com gripe ou por que ela não pode ter filho?

_Porque ela, como você, faz muitas perguntas. _ sorri.

Quando a porta do elevador se abriu, vi aquela velha vizinha bisbilhoteira. Era só o que me faltava.

_Ela é sua filha? _ perguntou-me.

_Não, eu sou a irmã dele. _ Clarinha respondeu. _ Porque ela não pode ter filho.

A mulher franziu a testa confusa, mas Clarinha estava disposta a explicar:

_...e também porque ela está gripada. Por isso, eu vou para a escola.

_Ela tem uma mente rápida. _ olhei para o número e torci para chegar ao térreo. _ Dizem que as pessoas que pensam em uma velocidade muito alta acabam alterando a ordem das coisas.

Térreo! A porta se abriu e eu estava apressado para sair dali.

_Pai, por que estamos correndo?

_Clarinha, a cada frase que você fizer que não tiver um "porquê" eu te dou um sorvete!

Entramos no carro para eu levá-la de volta para a casa da minha irmã, a verdadeira! No meio do caminho, eu lembrei de algo que me petrificou.

Deixei o motor do carro morrer.

Esqueci o computador ligado em casa!