28 de ago de 2008

Capítulo 44: Culpados (Jéssi)



Quando chegamos ao restaurante, eu me dei conta da grande liberdade que dera a Paulo. Se queria deixá-lo definitivamente fora da minha vida, eu estava indo pelo caminho errado. Respirei fundo, segui pela entrada do estabelecimento e escolhi uma mesa. Na verdade, estava desesperada para sentar e comer logo. Peguei o menu e pedi. Paulo percebeu minha mudança de tom e exibiu aquele seu sorriso de quem sabe o que está passando pela minha cabeça. Eu tinha que parar de também bancar de uma adivinhadora dos seus trejeitos! Arghhhh!

_A reunião de hoje foi produtiva. _ joguei o assunto para o campo mais profissional possível. Paulo manteve o silêncio, não me ajudando em nada. _ Já viu como faturamos mais esse mês? Saiu a tabela...

_Isso aqui está bommm... _ ele sugou seu macarrão cheio de molho, totalmente alheio ao que eu dizia.

Eu ri e balancei a cabeça para os lados.

_Você emagreceu. _ comentou.

_É um elogio?

_Uma observação. _ encolheu os ombros e olhou o celular que tira do bolso. Voltou a guardar. _ Eles já estão preocupados com você.

_Eles?

_Seu pai e seu ex-novo-namoradinho. _ falou baixo.

_Ligaram?

_Bernardo está perguntando se você está comigo... Não devia sair sem seus seguranças. Pode ser perigoso estar comigo. _ falou, ainda irritado pela interrupção da mensagem de texto.

_Se não fosse seguro, não teriam me entregue a você.

_Grandes coisas...

_Você ser seguro?

_Não, você ser grandes coisas.

Eu franzi a testa.

_Estou brincando. Me referia a ser seguro. Eu só faço o meu trabalho.

_Usa o verbo no presente ainda? Você agora não é mais meu segurança.

_Para o bem e para o mau. _comentou, movendo suas pupilas para os lados, acompanhando o movimento das pessoas atrás de mim.

_Será que dá para você se concentrar em mim? _ briguei. _ Pára de agir como se...

Paulo olhou-me em cheio e fixou em um ponto estático no centro do meu rosto.

_Pode olhar para seu prato... _ consertei.

_A gente vai agir como se nada aconteceu? _ perguntou.

_Aconteceu, mas, agora estou em outra... Desculpe, eu...

_Garçom, a conta. _ ele pediu.

_Ãnh? Nem pedimos a sobremesa.

_Estamos com pressa, lembra?

O garçom aproximou-se.

_Ainda vamos comer a sobremesa. _ falei brava e o homem consentiu. _ Quatro bolas de sorvete, calda de chocolate e tudo que tiver direito. _ pedi.

_E o senhor?

_Nada. _ Paulo fechou-se, enquanto eu fiz bico.

_ Se era para ser tão indelicado, não precisava ter furado o pneu do meu carro, ou acha que não suspeitei?! Eu não deveria ter vindo!

_Eu é que estou sobrando nessa história. _ Paulo levantou-se.

_Vai me deixar aqui sozinha?

_Suas sombras estão logo ali. _ apontou para a porta e vi meus seguranças. Como me acharam?!

Paulo saiu carregando uma seriedade que me assustava. Droga, por que eu ainda me sentia culpada?!

Meu sorvete chegou e eu não senti nenhuma vontade de comê-lo. Peguei a colher e comi de mau gosto, mas, depois, me afoguei no chocolate para esquecer aquela troca de domínios na minha vida, que mais parecia uma mesa de pingue-pongue, em que meu coração era a bola do jogo.

No trabalho, Paulo resolveu ignorar-me totalmente. Sentia-me um espírito perambulando pela empresa. Ele passava por mim como se eu não existisse ou fosse invisível. Isso começou a me fazer mal. Fiquei triste e, por causa disso, irritada também. Era um sinal do quanto eu era dependente do seu desejo de me querer. Que complexo!

Os sentimentos foram empilhando até que minha cota estourou a capacidade de suportar e o segurei pelo braço, no meio de um corredor, quando Paulo caminhava na direção contrária, sempre fingindo que não me notara.

_Estou com pressa. _ falou sem me olhar e abriu a pasta de folha que estava na mão para conferir algo.

_Está ocupado para mim agora?

Só notei o quão ridícula estava sendo depois de ouvir o que eu mesma estava ouvindo.

_O que quer, Jéssi?

Backstreet Boys - Backstreet Boys - Inconsolable


Eu não sabia lhe dizer a tradução do que se passava comigo em palavras. Era uma angústia que ele percebeu nos meus olhos, pois me puxou pela mão sem muita paciência até uma sala de reunião ao lado. Fechou a porta, deixou abruptamente a pasta sobre uma mesa e me encarou. Eu não disse nada, só fiquei olhando para o chão. Eu comecei a perceber o que estava me faltando. Era a sua proteção. A sensação de que ao seu lado o meu mundo estava seguro.

Também não poderia lhe dizer isso, seria uma traição a Thomé.

_Eu vou te dizer uma coisa e eu espero que entenda bem. Eu não sou o seu brinquedo, nem o seu funcionário para problemas amorosos. Não estou aqui para você me puxar por um barbante como ioiô.

_Paulo, eu...

_Jéssi, não fala mais nada, tá?

_Eu...

_Eu não quero ouvir! Eu não quero nem olhar mais para você! _ falou alto comigo.

_Mentira! _ murmurei.

Paulo ia dizer mais alguma coisa, mas conteve-se. Senti que nós dois estávamos sem controle, na impulsão de algo que não se irrompia por uma questão de falta de iniciativa. Como se um precisasse do primeiro gesto do outro para tomar coragem também. Não sei se foi em um movimento de mão, num pestanejar de olhos que alguém fez primeiro, que a gente se envolveu com os braços. E Paulo me beijou com vontade, puxando cabelo, blusa, tragando para dentro. Tomei fôlego quando virei o rosto e ouvi nossas respirações arfantes. A boca dele era quente e macia como eu bem lembrava. Sua língua ordenava a dança de nossos beijos e a minha a provava com consentimento e pedido. Ficamos assim não sei se horas, ou minutos, não era uma questão de tempo, mas de toque, força, afago, volúpia. Um estado de união elevado que me arrebatou para outro plano inexistente de palavras, só de sensações boas, completamente contrárias as que sentia a pouco tempo.

Ele determinou a hora do fim, afastando os lábios. Cada um deu dois passos atrás e olhos no chão. Éramos os dois culpados. Eu, duplamente, por ser comprometida. Olhei-o com medo do que fizera ou do que tinha provocado.

_Não vai dizer nada? _ perguntou como quem pede.

_... _ Não consegui.

_Entendi. _ magoou-se. _ É disso que eu quero ficar longe... Não faz mais isso, tá? _ falou como se eu fosse a única a participar do ato.

Saiu e fechou a porta.

Senti as lágrimas virem aos olhos por medo e covardia. Um nó na garganta parecia me estrangular. Respirei fundo. Outras pessoas começaram a entrar na sala para uma reunião e eu saí de cabeça baixa. Encontrei Thomé que estava animado para o fim de semana. Falou de uma festa que minha mãe estava aprontando na fazenda, mas, eu não prestei atenção em nada. Caminhava ao seu lado com os ouvidos fechados para o mundo.

Era bom mesmo que eu fosse para longe desanuviar toda aquela tempestade mental.

_Seu pai vai dar uma comemoração pelos ótimos rendimentos do mês. Irão vários...

_Hum-hum.

_Está prestando atenção?

_Claro.

_E eu vou fazer uma surpresa para você.

_É? Qual?

Se eu pudesse ter adivinhado, não teria ido àquela viagem.

26 de ago de 2008

Capítulo 43: Um cara além da sorte (Paulo)

Pelo desejo do senhor Figueiredo eu deveria ficar bem longe de Jéssi, mas, essa não era minha intenção. Queria poder mostrar o meu potencial e crescer através do meu trabalho, sem, claro, deixar de lado meus sentimentos. Agora minha situação estava complicada porque ela se sentia traída, como parte de uma engrenagem que serviu para fazê-la de boba, quando era, na verdade, para protegê-la de tudo.

Só que eu não era uma pessoa que esperava a vida me dar oportunidades fáceis. Aprendi que devo eu mesmo criar minhas chances. Não existe isso de esperar por uma ordem superior para crescer. Deus, luz, energia, arquiteto do universo, ou seja lá o que for que cada um acredite, não é alguém que fica desenhando nossa vida em cima de uma nuvem de algodão. As pessoas fracas usam essa desculpa para tudo que dá errado na sua vida.

Um exemplo claro disso é minha filha. Um dia desses uma vizinha disse que eu tinha muita sorte por ela ser tão amável e esperta. Eu lhe falei que não era sorte, era muito suor. Não sou um pai presente, sou um pai atuante. Posso não estar 24 horas com Clara, mas, faço tudo para que ela tenha o melhor. Os poucos minutos ao seu lado é para lhe mostrar o que aprendi para ser um bom ser humano. Nada disso envolve circunstâncias aleatórias. Pelo contrário, muito esforço, trabalho e renúncia.

Era uma pessoa assim que estava preparada para enfrentar todas as barreiras e se aproximar de Jéssi. Eu não tinha o dinheiro que o meu atual concorrente tinha, mas, sabia exatamente quais armas certas usar para passar em sua frente. Não importava se via aquilo quase como um jogo em que só a vitória valia, Jéssi era minha luta. Eu já conseguira um emprego que me colocasse no caminho do sucesso financeiro e de realização profissional. Só que isso deveria estar incluído dentro de um quadro que desse sentido. Ter um êxito sozinho é ganhar uma partida em um estádio vazio. Não há qualquer graça.

Entrei na sala de Rh e procurei a senhora Rizélia. Ela tinha um filho louco por futebol e eu duas entradas Vips para a final do Flamengo. Era uma forma de sacrificar um brinde que recebi de um cliente por uma boa causa.

Ela sorriu e me perguntou diretamente o que eu queria.

Continuei debruçado sobre o balcão. Abaixei a cabeça com um sorrido tímido. Ela riu também. Éramos velhos conhecidos e eu sabia que as entradas serviam para agraciá-la e não comprá-la.

_A Jéssica...

_A filha do dono?

_Isso. _ peguei uma borracha que estava ao lado de um bloco de folhas. _ Ela está aqui. _ simbolizei. _ E eu... _ peguei o pequeno grampeador para me representar. _ ... Estou aqui. Você poderia dar um empurrãozinho? _ pedi.

_O que quer que eu faça?

_Quero que precisem de mim lá no prédio onde ela trabalha.

_Ah, não...

_Por favor...

_Vou ver o que posso fazer.

_Obrigado! _ sorri e sai em passos firmes. As pessoas que passavam por mim olhavam para trás, surpresas com minha cara de alegria.

Não foi tão difícil assim nos remanejar para que Jéssi estivesse sob minha guarda. Eu tinha que esquecer que estava livre da missão de protegê-la. Era comum eu passar pelo corredor e a gente se esbarrar. Participamos de todas as reuniões e almoços de negócios juntos. Em diversas vezes a ajudei com informações importantes e lhe dei apóio em situações em que não tinha pulso firme para decidir.

Na última, saímos e pegamos o mesmo elevador, já um pouco lotado. Jéssi virou-se para o espelho e ajeitou o cabelo com os dedos, querendo alguma forma indefinida. Eu não fingi que não estava olhando. Perdi-me admirando a interação das duas imagens dela. Mais pessoas entraram no elevador e nós ficamos tão próximos que podia sentir o calor do seu corpo. Olhei-a em cheio, mas ela preferiu não me encarar. Eu mantive-me fitando-a com o desejo que meu olhar a fizesse mudar de atitude. Jéssi olhou para os lados, passando rapidamente por mim.

Senti que ela foi a primeira a querer sair do elevador, mesmo estando atrás de todos. Eu caminhei mais atrás, tranqüilo e confiante. O celular tocou no bolso.

_Não me peça mais para fazer esse tipo de coisa! _ falou Bernardo.

_Obrigado. _ ri e desliguei.

Encontrei Jéssi irritada dentro do carro.

_Algum problema aí? _ perguntei.

_Não sei... _ ela abriu a porta e saiu. _ Não acredito! O pneu está murcho.

_Já aconteceu comigo. Há muitos objetos pontiagudos largados por aqui. Cansei de reclamar disso. _ mostrei solidariedade, agradecendo em silêncio o empurrão de Bernardo.

_Droga! Tenho que almoçar rápido. Vou comer um sanduíche...

_Quer almoçar comigo? _ abri a porta do meu carro.

Olhei ao fundo quem vinha. Era só o que me faltava: Thomé! O que ele tinha? Um sensor que mapeava onde Jéssi estava?

_Também tenho pressa. _ falei para ver se ela concordava logo.

_Ãnh...

_Massas no Spoleto? _ sugeri.

_Não sei, massas engorda, já comi ont...

_Saladas na Bibi?

_Saladas não vai matar a minha fome.

Escorpiões fritos em algum país exótico? Qualquer coisa! Por que ela não respondia logo.

_No caminho a gente pensa... _ disse ela.

Senti um alívio, fechei a porta logo. Se era para não decidir, por que tanta demora?!

Acelerei e cantei o pneu. Pelo retrovisor vi que Thomé estava com as mãos na cintura, indignado com o que achava que tinha visto. É isso mesmo, cara, estou com a sua garota.

Liguei o som do carro.


Lee Cabrera - Shake It (Move A Little Closer)

21 de ago de 2008

Capítulo 42: Eles são de Economist. Elas são de Caras

A reunião estava prestes a começar e Jéssi não chegara. Era irritante saber que meu primeiro pequeno desafio tinha ela como uma das variáveis que alteravam o resultado final. Peguei o celular e liguei, não me contive:

_Já saiu da cama? _ falei assim que atendeu.

_Estou no meio de um engarrafamento. Mas, fica tranqüilo, faltam duas quadras.

_Sai do carro e vem à pé.

_Quê?

_Você não está com seus seguranças? Não vai perder a bolsa.

_Eu estou com um salto agulha.

_Tira a agulha e vem!_ brinquei.

Ela desligou na minha cara. Eu já podia imaginar a careta de raiva que fizera ao fechar o aparelho. Sorri com a visão que se formou em minha cabeça. Fui até a sala de Bernardo agradecer-lhe o favor que me fizera ontem falando com os seguranças de Jéssi para me deixarem entrar em seu apartamento.

_Essa foi a parte fácil. _ ele me disse. _ Já pensou em como vai se livrar desse aqui? _ apontou para uma pequena janela das mais de vinte abertas na sua tela. A imagem se ampliou e vi que se referia a Thomé, ao lado de Jéssi.

_Eu não quero esse panaca no meu caminho. O que pode fazer?

_Eu?!

_É!

_Eu sou só o segurança. Não posso mandar na vida desse riquinho. O pai dele alimenta com seus bois toda a Europa.

_Eu não pedi nada que não tivesse no seu alcance. _ dei um tampinha e seu ombro.

Bernardo pegou o rádio e discou um número.

_Vou acumular todos esses favores e cobrar de uma só vez!

_Põe na minha conta! _ ri e sai da sala.

Apoiei as mãos sobre a sacada que permitia ver o andar de baixo. O segurança avisou ao ex de Jéssi que ele não poderia subir para a reunião. Ela parece que sentiu meu olhar sobre ela porque levantou o rosto. Mais rápido, me afastei. Peguei um café na bandeja do garçom que seguia em direção a sala.

Jéssi saiu do elevador com olhar de felina que encontrou sua presa. Sorri. Ela estava desafiantemente sexy em um vestido azul claro justo ao corpo que provocava meus pensamentos mais irreveláveis. Caminhou em minha direção com os olhos cintilantes de irritação. O cabelo esvoaçou para trás com o movimento.

_Eu quero um outro salto Gucci! _ bravejou.

_Que mentezinha pobre a sua. Aqui a gente vai falar de milhões e você se prendendo a essa ninharia. _ fiz pouco caso.

A reunião era com um cliente que gostaria de arriscar o dinheiro em leilões de carros. Organizei uma apresentação sobre o setor de automóveis, o público alvo e as oportunidades de crescimento em diversas praças. Precisei dormir sobre as planilhas de cálculos para explicar o cenário de ações e todo o resto que envolvia a questão. Resumindo, eu estava disposto a ganhar a administração dos riscos de investimento desse cliente de toda maneira.

_Os carros blindados ganharam muita força ultimamente por causa dos índices de violência e ocorrência de blitz falsas...

_Nem me fale, minha mulher já passou por isso. _ ele comentou.

_Se a gente pensar, nem é um investimento tão caro assim... _ Jéssi argumentou. _ Os carros para o público A são mais potentes, tem tração nas 4 rodas, agüentam carregar toda aquela armadura. Se a pessoa investe em um veículo desse porte, por que não complementar com a segurança da sua família?

O homem consentiu com a cabeça. Eu quis continuar, mas, senti que ela ainda tinha muitas obviedades a falar.

_Além do mais, o carro não é caro. Cara é a mulher que os homens têm que cobrir de jóias. No mínimo, é bom protegê-las.

O homem caiu na risada e apontou com o dedo indicador para Jéssi como se ela tivesse dito algo verdadeiramente relevante.

Eu ri forçadamente também, mesmo achando ridículo.

_Você deve saber como é isso... _ ele olhou para o seu decote.

Eu me segurei para não revirar os olhos! Ninguém ali queria ouvir sobre meus gráficos de pizza?

_Meu pai se separou e agora tem três carros para blindar: o meu, o da minha mãe, o dele e das namoradas.

O homem riu mais ainda e eu bebi o copo de água esquecido na minha frente suado de gotículas.

_Não é a toa que as pessoas buscam esse diferencial nos leilões... _ ela olhou para mim vitoriosa e me deu o gancho para continuar.

Quando saímos da sala, segurei-a pelo braço:

_De onde tirou aquilo?

_Das colunas sociais, honey. Você lê a Economist e eu, a Caras. Ele é o mais novo rico que pegou as últimas garotas capas de revista masculina! Isso que eu precisava saber. Tinha que ganhar a confiança dele.

_Com esse decote? _ me incomodei.

_Eu não jogo para perder! E quando vir aquele abatimento cheio de zeros do seu contra-cheque, é o meu salto. _ piscou o olho e virou-se para pegar o elevador.

Lá em baixo, ela se encontrou com o ex. Provavelmente, foram almoçar. Ela tomou toda a cena e ainda correu para o lado daquele idiota. Era hora de usar sua arma. Eu ia investigar a vida desse intruso que se meteu na minha vida para me atrapalhar.

20 de ago de 2008

Capítulo 41: Você vive (Paulo)

Jesse Mc Cartney - Because you live


Jéssi levantou-se com minha ajuda. Ao mesmo tempo, Rafaela entrava na sala com um copo de água para ela.

_Você sabia de tudo, né? _ perguntou para a secretária de seu pai com ar de vítima traída. _ Como eu não desconfiei?

Rafaela não respondeu nada, continuou segurando a bandeja a espera que alguém tomasse suas dores.

_Como eu fui tão idiota de achar que podia confiar em vocês? _ riu, em delírio.

Aquilo era o pior momento que eu podia passar. Me revirava o estômago saber que estava sendo acusado de uma coisa que constituía o meu trabalho!

_Minha filha, eu fiz para o seu bem!

_Você fez para o meu bem? _ perguntou e, depois, virou-se para Rafaela e repetiu _ Você fez pelo meu bem também? _ chegou a minha vez de dividir a culpa. _ E você, quem diria, fez para variar, pelo meu bem.

_Jéssi, você está sendo infantil... _ seu pai lhe falou.

_Eu não deveria estar surpresa? Você paga um homem para morar comigo sem me comunicar! Depois, eu fico pensando que ele me seqüestrou, mas, na verdade, ele era seu empregado! Eu nasci na família errada, tudo isso me enoja.

_Desculpe, Jéssi... _ tentei tomar a palavra.

_Não quero ouvir nada de você. Nada existiu, nada. Foi tudo um contrato assinado por você.

_Não foi isso...

Jéssi saiu da sala e os seguranças a seguiram. Eu quis correr, mas fiquei. Eu precisava decidir entre mostrar frieza e me manter no cargo e lutar por ela, contra a vontade de seu pai.

Quando saí da sala, meu celular tocou. Era Bernardo, contando que Jéssi foi procurá-lo para obter informações minhas.

_Ela já sabe de tudo. _contei.

_E agora?

_Ela quer ver minha caveira...

_Que droga. Logo agora que estava começando a ganhar a confiança do seu pai... Poderia até melhorar de vida e chegar à altura dela.

_Cara, a Jéssi quer algo que nunca mais vou poder oferecer à sua altura: honestidade de caráter. Isso o dinheiro não substitui.

_Eu acho que você só fez o seu trabalho.

_Mas, não fiquei só no trabalho. Eu me envolvi!

_Vai lá e fala isso para ela!

_Jéssi não vai me dar atenção.

_Eu sei, tente arrumar uma chance de ficarem só vocês dois.

_Como?

_Eu não devia estar fazendo isso, mas... Tenho o endereço de onde ela está morando agora.

_Qual?Os seguranças dela vão permitir que eu me aproxime?

_Eu acho que ainda mando neles.

_Obrigado, cara!

Quando cheguei ao apartamento de Jéssi, estava convencido de que o melhor a fazer era lhe explicar tudo. Não podia compactuar com seu pai tamanha frieza.

Ela abriu a porta, mas, ao me ver, fechou-a. Bati e pedi que me desse uma chance de falar. Eu já estava desistindo, quando ela virou a chave novamente.

Entrei.

_Obrigado. _ agradeci.

Jéssi estava em pé, de braços cruzados, na defensiva.

_Jéssi, eu quero te dizer que nem tudo foi uma farsa.

Ela não rebateu, continuou uma pedra de gelo.

_Eu só tinha que cumprir o meu trabalho que era te defender. Recebi essa tarefa do seu pai que estava preocupado com as ameaças.

Ela virou-se e foi até a cozinha que ficava separada da sala por uma divisória baixa. Estava me ignorando para me penalizar.

Aproximei-me e sentei em um dos bancos altos próximos a bancada.

_Eu não consegui ser totalmente profissional.

_É mesmo? _ ela pegou duas bananas e colocou no liquidificador.

_Claro! Acha que eu estava sendo pago para te amar?!

_Não sei. _ ela apertou o botão e aquele barulho ensurdecedor me fez parar de falar.

Ela encheu o copo de vitamina e bebeu.

_Você não era um bandido, como pensei. Mas, agora está vendendo sua alma para ter poder ao lado do meu pai.

Aquelas palavras me magoaram.

_Quem não sabe o que não é ter, quem nunca teve que conquistar nada, não tem o direito de dizer que sou um oportunista. Trabalhei duro para ter a confiança do seu pai! Não cheguei aqui agora.

_Esse foi sempre seu objetivo? Minha vida te custou o passo final para atingir o topo.

_Está sendo injusta.

_Paulo, você salvou minha vida porque...

_Eu te amava. _ cortei-a e a fiz perder as palavras. _ Seu pai soube que estávamos juntos e ordenou aquela armação ridícula de que eu era gay. Ele me pressionou fisicamente, moralmente, psicologicamente para que eu saísse da missão. Eu saí. E, mesmo assim, me mantive informado com meus amigos sobre seu paradeiro. Quando eles me contaram que te raptaram, fiquei maluco. Corri atrás e me arrisquei para que estivesse aqui agora...

_Se ele te fez tão mal, qual o motivo de querer ser seu empregado?

_É só isso que sei fazer e agora ele reconhece que eu sou bom.

_Boa sorte. _ ela caminhou até a porta e abriu.

_Você pode não dar nenhum valor a isso. Mas, eu só estou aqui porque você vive. Só estou disposto a lutar por uma nova chance porque sei que cumpri minha missão até o fim. Eu sei que fiz tudo, até quase troquei minha vida pela sua.

Ela poderia estar dando o fim, mas, nunca deixei que as pessoas dissessem para mim qual era o limite. Eu a teria novamente. Era só o começo. O re-começo.

19 de ago de 2008

Capítulo 40: Sigilo (Paulo e Jéssi)

Jéssi entrou na sala de reuniões. Estava vestida de preto e tinha o cabelo preso. Pediu desculpas pelo atraso e se sentou. Abriu a pasta rapidamente, retirou um envelope com papéis. Folheou, afundando um pouco na cadeira. Fechou-se em seu micro mundo. Meu coração disparado aguardava o momento em que nossos olhos se cruzariam. Isso poderia acontecer a qualquer segundo, o que me deixava ainda mais nervoso.

Seu pai ao meu lado deveria estar captando cada gesto meu. Abaixei a cabeça um pouco e assinei meu nome na lista de presença da reunião. Quando estendi a folha para o acionista ao meu lado, vi que Jéssi conversava com uma mulher à sua esquerda. Será que ela já tinha me notado? Se sim, fizera pouco caso?

_Bom, vamos começar. _ Figueiredo tomou a palavra.

Jéssi fez um pequeno movimento de cabeça para olhar para frente e em seus lábios ainda tinha um lindo sorriso. Ela me reconheceu e seu semblante se transformou em susto, depois confusão e, por último, em transtorno.

Só me restou olhar para seu pai e me concentrar nele para não chamar mais atenção. Sua cabeça deveria estar um turbilhão. Senti o celular vibrar no meu bolso. Abri-o discretamente. Era uma mensagem dela.

_ “O q faz aqui?”

_Quero apresentar a vocês os nossos novos funcionários. O Fábio, que é diretor do segmento de ações. Galeão, gestor de finanças e Sérgio, nosso analista de mídia.

_Acho que faltou você apresentar uma pessoa. _ Jéssi olhou para mim e senti que virara o foco de todos os olhares.

Seu pai sorriu e temi o que pudesse dizer.

_Esse é o Paulo. Está aqui comigo como analista e irá escrever a ata da reunião.

_Pensei que essa fosse a função da Rafaela. _ Jéssi forçou a barra para fazer daquele momento uma discussão de questões pessoais.

_Assim como você é estagiária e está aqui para aprender, eu permito que o Paulo também esteja. Eu aprecio que todas as pessoas da minha empresa se sintam motivadas a crescer e espero que façam o mesmo no setor de vocês. _ se dirigiu aos demais. _Isso é um estimulo ao intra-empreendedorismo.

Os que compunham a mesa estavam aceitando aquela oratória como um ensinamento de guru. Mas, para Jéssi era muito pouco. Ela me via como um bandido que lhe salvara. Nem em seu sonho mais insano imaginaria a verdade.

Eu começava a me sentir mal. Não acreditava que seu pai pudesse ser tão frio ao ponto de não querer resolver esse ponto antes para que não chegássemos aquele estágio.

Jéssi se levantou e saiu da sala. Eu queria correr atrás dela e explicar tudo do meu jeito, mas não podia. Precisava ficar ali.

(***)

Sai da sala para poder respirar. Meu cérebro estava em uma profusão enlouquecedora de pensamentos. Vi Rafaela passar por um corredor. Fui atrás dela. Segurei-a pelo braço.

_O que Paulo está fazendo na sala de reuniões?!

_Seu pai não lhe contou?

_Contou o quê?

_Ele foi efetivado.

_Mas, como?! Ele não tinha se demitido? Eu não estou sabendo de nada...

_Por que está tão preocupada? _ perguntou.

_Você não entende... _ parei de falar.

_Olha, eu estou ocupada, preciso ir.

_Ele me pareceu tão íntimo do meu pai que não pude acreditar!

_Jéssi, acho melhor conversar com seu pai. Ele deve preferir isso.

_Como ele veio parar nessa empresa?! Como?

Rafaela olhou para os lados. Respirou fundo.

_O RH pode te responder isso. _ falou em um tom de voz baixo.

_Obrigada.

Fui até a sala do RH e procurei uma mulher no fundo da sala, na frente do computador. Identifiquei-me como filha do dono. Eu detestava fazer isso, mas, estava com pressa demais para utilizar outros métodos.

_Eu preciso ver a ficha de um funcionário da empresa.

_Por quê?

_É importante. Queremos organizar uma festa de premiação para os melhores. Mas, precisamos escolher um caso interessante para mostrar...

_Qual o nome? _ ela não parecia muito interessada em minhas mentiras.

Dei o nome e sobrenome de Paulo.

_Pode ficar aqui. Vou pegar um café.

_Obrigada. _ sentei-me na frente do computador.

Cliquei no nome dele e me surpreendi com sua foto. Era antiga. Sua ficha datava de 5 anos atrás! Como?!

_Segurança do presidente. _ li em voz baixa. _ Funções: acompanhar o presidente em viagens ao exterior e áreas de risco.

Meu coração quase parou. Senti as mãos frias e um arrepio na nuca! Paulo era o segurança do meu pai! Então, ele armou contra o meu pai para me seqüestrar? Não estou entendendo nada...

Abri dois arquivos anexos em formato de pdf. Havia imagens de Paulo acompanhando meu pai como seu guarda-costas!

O outro arquivo abriu e eu o maximizei na tela. Eram as missões de Paulo.

_”Este dado é sigiloso. Digite a senha de segurança.” _ li.

A mulher voltou com o copo de café.

_Eu poderia ver esse arquivo?

_Não, ele só pode ser acessado pelo responsável pelo departamento de segurança. Aí, ficam arquivados dados secretos.

_Quem é ele? _ perguntei.

_Bernardo Santos.

_Obrigada. _ levantei-me.

Parei antes de passar pela porta.

_Qual o nome que disse?

_Bernardo.

_Não pode ser quem eu estou pensando... Onde eu posso encontrá-lo?

_Terceiro andar, sala da porta de vidro.

Acionei o elevador que estava no 10º andar. Não podia esperar, abri a porta da escada de emergência. Desci um andar. Abri a porta blindex e pedi para falar com Bernardo.

Fui anunciada e entrei em uma sala repleta de televisores. Alguns homens vigiavam todos os passos dados no prédio.

_Bernardo, ela quer falar com você. _ a secretária chamou-o.

Quando ele se virou, não tive mais dúvidas, era o homem que fora ao meu apartamento.

_Veja como o mundo é pequeno. _ falei irônica.

_Desculpe, senhora, eu...

_Podemos falar em particular? _ pedi.

_Claro. _ esticou o braço e indicou uma outra porta.

_Em que posso ajudá-la?

_Não precisa ser muito esperto para adivinhar por que estou aqui.

_Poderia ser mais clara?

_Qual a ligação de Paulo com meu pai?

Ele respirou fundo e cruzou os dedos.

_São informações sigilosas.

_Não há sigilo nenhum! _ bati no tampo da mesa. _ Ele está na sala de reuniões, à mesa com os acionistas! _ gritei e me levantei, perdendo a paciência.

_Acho melhor conversar com seu pai antes.

_Vocês estão querendo me enlouquecer! É isso?

_Lamento, não posso ajudá-la.

_Esquece. _ bati a porta e voltei pela escada.

Atravessei o corredor feito uma bala, bati com os ombros nos acionistas que saiam da sala de reuniões. Entrei e vi Paulo conversando aos risos com meu pai. Os dois me olharam e ficaram sérios.

_Eu posso rir também?_ falei irônica.

_Jéssi, precisamos conversar. _ meu pai pediu.

_Quer que eu saia?_ Paulo perguntou para ele.

_Fugir por quê? Você é a peça chave de tudo! _ dei a volta na mesa e fiquei na frente deles de braços cruzados. _ Posso entender o que está acontecendo? Ou a palhaça aqui sou eu? Estão rindo de mim?! Estão rindo há quanto tempo?! _ gritei.

_Jéssi, se acalme, minha filha. _ meu pai pediu.

_Como me acalmar? Eu acabo de descobrir que esse aí trabalha nessa empresa há anos! Ao mesmo tempo, ele estava lá no dia do seqüestro. Você planejou tudo para trair o meu pai? _ me dirigi a Paulo.

_Não é nada disso! _ meu pai interrompeu-me.

_Então, é o quê? O senhor pediu para me seqüestrarem para me darem uma lição?

_Não fale besteira! Eu nunca seria capaz. Por isso, eu coloquei Paulo como seu segurança, para ele impedir que meus inimigos te fizessem mal.

_Como meu segurança? _ repeti.

Meu pai ligou para Rafaela e pediu que esta trouxesse água.

_É. Ele me passava relatórios diários sobre sua segurança. Havia câmeras no seu apartamento...

Fiz um sinal com as mãos para que parasse de falar. Eu não agüentava mais ouvir. Estava me dando vertigem.

Canção tema da cena (clique aqui)

_Senta aqui. _ Paulo puxou uma cadeira e pegou meu pulso. _ Você está pálida...

_Você pode até me odiar, mas eu fiz para o seu bem. Não vai entender, mas, eu tinha que te prote...

_Senhor, pare. _ Paulo pediu. _ Jéssi, está me ouvindo...

_Não estou bem... _ tudo começou a se esfumaçar.

_Calma, vem comigo. _ ele puxou-me rapidamente para levantar e apoiou a minha nuca com a mão. _ Deita no chão...

_Não, eu... _ minhas pernas perderam a força.

_O que está acontecendo? _ meu pai falou alto, mas eu só podia ouvir sua voz, ficou tudo escuro.

_Jéssi, vai ficar tudo bem. _ ouvi a voz paciente de Paulo. Ele pegou a ponta dos meus dedos e apertou com força, cravando suas unhas em um ritmo constante.

Senti que podia abrir os olhos novamente. O rosto de Paulo estava bem acima do meu.

_Foi só uma queda de pressão. Você está bem?

18 de ago de 2008

Capítulo 39: Se pondo no seu lugar (Paulo)

Quando chegou a hora de entrar na sala de reuniões, segui junto com o grupo de homens vestidos de terno. Cabeça erguida, confiante. Eu tinha ganhado minha oportunidade. Agora, precisava mostrar que era capaz de ser mais que um homem de ferro.

Rafaela fechou a porta, antes que eu passasse. Sorri e me contive para não lhe dizer que tinha cometido um erro. Eu não ficaria do lado de fora para fazer segurança, mas, participaria ativamente da própria reunião. Deixei que meu triunfo fosse maior.

Seu Figueiredo retornou e abriu a porta de vidro para que eu entrasse. Aquele singelo gesto teve um significado de toda uma vida de trabalho e dedicação ao lado do pai de Jéssi.

_ Peça para servirem café. _ ordenou a Rafaela que abaixou a cabeça e disfarçou o constrangimento.

_Obrigado. _ agradeci a passagem aberta para mim.

O gosto daquele triunfo era sem igual. Por muito tempo eu fui um capacho que ficava do lado de fora. Agora, eu estava no olho do furacão! Senti um frio na barriga tremendo.

Vinte minutos antes, o pai de Jéssi me chamara em sua sala para conversarmos. Sentei-me, pronto para ouvi-lo.

_Eu queria chegar a uma conclusão de onde colocá-lo. _ contou-me, jogando a bola para mim. Senti que era um teste.

_Eu posso ajudá-lo. _ disse-lhe.

Peguei uma folha de papel em sua mesa e uma caneta. Comecei a desenhar um organograma cheio de retângulos e setas que os interligavam.

_Aqui estão os estagiários. Acima, os especialistas. Depois, os gerentes de setores estratégicos. Mais para o topo, os gestores e, por fim, os diretores...

_Eu não quero uma aula sobre a minha própria empresa...

_E aqui, está o senhor. _ desenhei uma cabeça de um boneco e não interrompi meu raciocínio. _ Eu quero estar aqui, do seu lado.

_Mas... Esse cargo não existe!

_Eu não sei quanto tempo vou levar para chegar aqui. _ bati com a ponta da caneta no papel. _ Mas, eu sei qual é o meu foco.

_Você é muito audacioso.

_Como disse, eu não posso lhe ensinar sobre a sua empresa. Mas, eu quero aprender tudo. _ falei.

_Eu não imaginava que você tivesse tanta persistência e interesse nos meus negócios.

_Meu trabalho como segurança pedia discrição. _ arrumei uma desculpa para ele. _ Agora, o melhor de tudo. _ aproximei-me mais da mesa. _ sua filha está aqui. _ desenhei um círculo na base da pirâmide. _ E, se eu estiver aqui... _ sublinhei seu nome. _... Ficaremos bem longe, como o senhor deseja.

_Eu sou mais rápido que você, meu caro. _ ele pegou a caneta e fez um zigue-zague na pirâmide, começando da base e chegando ao topo. _ Ela, sendo minha filha, pode estar em qualquer lugar, logo, ao seu lado. _ riu, como se tivesse vencido um jogo de charadas.

_Qual é a decisão mais difícil em uma situação de riscos? _ perguntei, tomando sua tão famosa frase.

Ele sorriu, percebendo que eu usaria seus próprios argumentos como trunfo.

_Você mesmo pode me dizer. _ deu de ombros.

_A decisão mais difícil é justamente não tentar e nunca saber como teria sido.

_Paulo, existem dois tipos de pessoas que receio. As que são totalmente passivas e se deixam levar pela correnteza da vida e as que são tão persistentes e ambiciosas que não enxergam o perigo de nenhuma tormenta, acreditam que podem abrir o mar.

_Eu já lhe dei provas de que não sou nenhuma coisa e nem outra.

_Paradão você não é. Vi que tentou salvar minha filha e a protegeu enquanto pôde, mesmo cometendo o deslize de se envolverem... Agora, não sei se você é do time dos oportunistas.

_Eu só posso te dar certezas quando me permitir demonstrar. Uma prova de que não sou um calculista é que justamente me envolvi com sua filha. Não sou uma pedra de gelo. Mas, também soube esperar pacientemente para que chegasse o momento de pedir uma oportunidade.

_Você me intriga, meu rapaz. Espero que o que tenha de talento seja tão surpreendente quanto será para minha filha quando eu for obrigado a lhe dizer a verdade sobre você.

_Lamento que terá que se indispor com ela.

_Lamente por si mesmo. Eu sou o pai dela, tenho minhas razões e terei seu perdão em poucos dias... Não posso dizer o mesmo de você. Talvez, nem uma vida seja suficiente para ela te desculpar por tê-la enganado.

Suas palavras eram duras, mas reais. Eu sempre quis ser um auxiliar dele, sua sombra pensante. Mas, não contava que, no meio do meu percurso, me apaixonaria justamente pela última mulher que deveria. Agora, eu ficara dividido.

_Ela pode nunca entender... _ deixei sair.

_Você quer realmente tentar? Então, vamos a uma reunião comigo.

_Agora?

_Não, há dois minutos. Já estou atrasado! _ levantou-se. _ Ah! Chamei Jéssi, quero que ela conheça os novos funcionários incorporados. _ comentou. _ Não tive tempo de lhe dizer nada.

Eu não sabia se devia ficar feliz ou preocupado com o fato de ser o pai de Jéssi o porta-voz da explicação de toda a verdade.

_Não acha melhor ter uma conversa em particular com ela primeiro? Será muito confuso...

_Depois, não posso deixá-los esperando. Prefere não ir?

_Eu vou, sim. _ respondi. Uma oportunidade não se bate na porta duas vezes. O problema era a porta de Jéssi estar se fechando para sempre.

14 de ago de 2008

Capítulo 38: Novo emprego (Paulo)

_ Eu conheço essa cara. _ minha irmã olhou-me desconfiada. Ela estava arrumando a mochila de Clarinha para elas irem para a escola, onde ela trabalhava.

_Consegui um emprego!_ anunciei.

_Que ótimo! _ sorriu aliviada. Andávamos realmente preocupados com o dinheiro que estava acabando. Precisávamos fazer as compras do mercado, pagar a escola e o plano de saúde. _ Espero que seja bom porque esse apartamento é bem caro de manter.

_Dá para o apartamento, para os estudos da minha lindinha, até para guardar... _ Abracei minha filha e beijei sua cabeça.

O sorriso da minha irmã fechou-se.

_Clarinha, vai colocar um pouco de perfume lá no banheiro, querida. _ pediu, a fim de ficarmos a sós. Minha irmã me puxou pelo braço até o quarto e fechou a porta. _ Em que está se metendo dessa vez? _ falou agressiva._ Você não é gato para ter sete vidas!

_Eu precisava de dinheiro!

_Tudo bem, dessa parte eu sei! Eu quero saber que tipo de trabalho tão bom arrumou. _ cruzou os braços e me encarou.

_Não é mais nada como segurança. Consegui um emprego em que posso agora me enveredar pelo direito, a carreira que estudo...

_Paulo, eu não nasci ontem! Você não quer me convencer que um estágio de direito vai nos sustentar!

_Não, é um emprego mesmo!

_Isso eu imagino pela sua cara de felicidade. Só não acredito que notícia boa quando vem de você não vem também com uma cota de preocupação para nós!

_Como pode pensar tão mal de mim?

_Se eu não te conhecesse, te comprava. Anda, fala logo! Para onde foi essa manhã tão cedo, vestido de pingüim assim!

_Fui à empresa do senhor Figueiredo.

_Eu sabia... _ ela virou o rosto e levou a mão à testa. _ Você está maluco?!

_Calma, não vou mais arriscar minha vida! Deixa eu terminar...

_É para ficar perto daquela garota, né?

_Ele me deu um emprego diferente!

Clarinha bateu na porta e disse que estavam atrasadas.

_Paulo, você ainda vai se arrepender por brincar tanto com a sorte. Depois, conversamos! _ minha irmã saiu injuriada, pegou Clarinha pelo braço e fechou a porta com força.

Minha mãe que fazia o almoço na cozinha perguntou o que estava acontecendo.

_Nada demais. _ caminhei até a sacada e olhei a cidade lá embaixo. Respirei profundamente e senti novamente aquele friozinho na barriga.

Eu não agüentava mais ficar em casa, telefonando para firmas de segurança. Eu tinha que dar um passo ousado. Nada iria cair do céu. Para que tanto sacrifício, se eu não poderia tirar proveito disso?!

Rafaela estava incrédula quando me anunciou para o senhor Figueiredo, mas seu semblante de surpresa não o contaminou. Ele pareceu já esperar por mim. Para um homem tão influente e vivido como ele, nada era de espantar. Inclusive, minha ousadia.

_Veio pedir dinheiro? _ falou-me, diretamente.

_Não. _ sentei-me.

_Eu vim pedir um emprego.

_Emprego? Sabe que, para todos os efeitos, você não trabalha mais aqui.

_Sei. Mas, para todos os efeitos... _ ironizei. _... Fui “mandado embora a força” e não por ter pedido isso. _ lembrei-o.

_Por que eu deveria lhe dar um emprego? _ perguntou.

Bom, muito bom, aquilo começava a soar como uma entrevista de trabalho.

_Porque já me conhece, sabe do que eu sou capaz e, porque eu também te conheço, sei do que é capaz...

_Isso é uma chantagem barata?

_Não, isso seria uma parceria inteligente!

_Parceria?

_Ora, eu estou estudando para isso. Posso ser muito mais do que um escudo de ferro.

_Então, não veio aqui para voltar para o cargo de segurança?

_Não.

_Confesso que estava já esperando que me pedisse para cuidar da segurança de Jéssi.

_Não! Eu quero entrar para os seus negócios. Estudar os casos de risco e ajudá-lo a desenhar os cenários possíveis para seus clientes...

_Quer um trabalho intelectual?

_Exatamente. Nesse caso, vai ficar perto de Jéssi da mesma forma, já que ela trabalha aqui.

_Senhor, eu vou pagar as minhas contas com o dinheiro do meu trabalho. Não estou aqui para me aproveitar da sua filha.

_Não gosto muito da sua proximidade com ela. Já disse que tenho outros planos para Jéssi.

_Eu vim aqui para falar do meu trabalho. Preciso dele.

_Já desistiu dela? _ perguntou.

_A gente pode falar de negócios sem misturar vida pessoal?

_Mas, a sua vida pessoal envolve a minha filha!

Não respondi nada. Ele não era ingênuo para achar que suas ordens iriam me fazer deixar de gostar de Jéssi. Se quisesse me admitir, teria que assumir esse risco.

_Você deu a entender a ela que era parte daquele bando que tentou seqüestrá-la. Deve ter feito muito bem a minha filha porque ela não me contou nada sobre isso. Escondeu de mim para te proteger.

_Eu não fiz bem a ela... _ aproximei-me mais para frente e apoiei os braços sobre a mesa. Falei com uma voz firme: _ eu salvei a vida da sua filha. _ corrigi.

_Eu vou te dar esse emprego. _ falou, abruptamente, como quem decide jogar todas as fichas nas cartas que tem nas mãos.

Assustei-me com a rapidez com que tomou a decisão.

_Mas, não quero você nessa sede, pode se instalar em outro prédio. Não fique perto de Jéssi.

_Como quiser.

_Agora, como ela irá “entender” essa nova realidade?

_Bom, deixo isso com o senhor que é o mestre de medir riscos. O que disser para eu fazer, eu cumpro.


Bastidores= Paulo realmente gosta de se meter em encrencas e de nos deixar ainda mais curiosas para saber como essa estória vai se desenrolar! Já pensou a cara de Jéssi quando descobrir que ele trabalha para seu pai na empresa? Como será que vai reagir, achando que ele é um bandido? Contará para seu pai tudo? Os próximos capítulos dirão! Não percam!

Se está gostando da estória, conte para seus amigos. Divulgue o livro! Quanto mais gente na nossa comunidade de leitores, mais força dão para mim que sempre arrumo um tempo no meu dia corrido para me divertir junto com vocês!!!

13 de ago de 2008

Capítulo 37: Troca de lugares (Jéssi e Paulo)

Quando entrei no avião do papai e sentei sozinha na poltrona, pensei pela primeira vez se deveria voltar para casa de vez e não apenas fazer uma visita como agora. Thomé chegou logo em seguida e ficou na minha frente, separados por uma pequena mesa. Estava sem fôlego, sorriu, limpou o suor da testa:

_Nem acredito que vamos para casa juntos! _ disse.

_Pensei que poderia querer uma carona. _ falei, sem muita motivação.

_E eu imaginei que era você que precisava de um ombro. _ foi mais rápido. _ Soube que você e aquele carinha não estão mais juntos. Nem quero saber o por quê.

Ótimo! Eu não contaria e, mesmo que contasse, Thomé não acreditaria. Talvez, até fosse denunciar Paulo. Eu devia minha vida ao homem que planejara minha morte. Que incoerente. Independente da falta de lógica, eu sabia honrar minhas dívidas.

Thomé estava certo, eu o chamara ali para tentar desanuviar minha cabeça e ocupar meu coração. Mas, isso não era muito justo de se fazer. Senti-me mal por estar usando-o de alguma maneira. Tentei ser simpática para não parecer tão cruel:

_Estou louca para montar. Não faço isso há tanto tempo. _ comentei.

_Vamos montar, levar comida na mochila e subir as montanhas, vamos até aquela velha casa...

_Eu não tinha tantos planos assim.

_Depois de tudo, você ainda deve estar um pouco desnorteada. É normal. Se me deixar ajudá-la, prometo que vamos nos divertir muito nesse fim de semana!

_É isso que quero. _ concordei. _ Me divertir muito.

Eu não fazia mais muitos planos porque simplesmente não era viável planejar aquilo que não iria acontecer. Paulo não deixaria de ser o que era agora para mim, nem voltaríamos a nossa harmonia de antes. Restava-me deixar a vida seguir seu fluxo normal e acompanhá-lo.

(***)

Minha mãe ficou um pouco desconfiada com a chegada de Thomé. Ela não disse nada, mas, li em seus olhos sua surpresa. Estava pronta a apoiar qualquer coisa que eu quisesse só para me ver bem, depois de toda a agonia do meu desaparecimento.

Cavalgamos durante toda a tarde e chegamos até as montanhas. Nos abrigamos em uma pequena choupana rústica que meu pai mantinha desde que eu era menina. Pedimos para os empregados da fazenda arrumarem tudo para nossa estalagem.

_Isso é que eu chamo de mudança brusca! _ Thomé começou a acender o fogo da lareira. Estava agachado, de costas para mim. Vestia uma camisa xadrez vermelha e calça jeans. Seus braços muito fortes faziam curvas sob o tecido da roupa. _ Nada de televisão, computadores, telefones, nem celulares!

_Eu precisava muito ficar assim, longe de tudo. _ comentei, deitada no sofá.

_Senti tanta falta disso. _ ele virou-se para me olhar.

_Mas, nem ficou tanto tempo assim na cidade para sentir falta daqui. _ lembrei-o.

_Eu fiquei muito tempo longe de você, Jéssi e é disso que senti muita falta. _ explicou.

_Você entende que não dá para ser tudo igual? _ falei, sem querer ser indelicada.

_Entendo. Só não consigo jogar fora o que aconteceu entre nós.

Eu também não conseguia atirar no esquecimento o que vivera com Paulo e recomeçar a gostar de Thomé. Mas, ele parecia decidido a me fazer chegar a esse ponto.

_Você sabe que eu estava com outra pessoa..._ toquei no assunto.

_Deu para perceber que estava muito ligada nele. _ disse, agora sentado no sofá. Limpou as mãos em um pano. _ Vamos curtir esse fim de semana sem compromisso de nada? _ sugeriu.

Sorri. Ele estava realmente disposto a me animar.

_Sei, sem compromisso... _ironizei.

_Juro!

Ri da idéia.

_Como vou ter uma coisa sem compromisso com um ex?

_Sei lá, pense como preferir, só queria que a gente não lembrasse de outras pessoas, de outras situações de ruins, de outros problemas... vamos deixar todos os outros fora disso, fora daqui.

_Eu queria que fosse fácil assim.

_Deixa acontecer... _ puxou-me pela mão e eu sentei também.

Thomé abraçou-me e eu fiquei com a cabeça em seu peito. Lembrei do seu cheiro e do conforto do seu afago. Havia ali uma segurança boa. Encarei aquela satisfação como um começo do que ele chamou de “deixar acontecer”.

Conversamos toda a noite sobre as diferenças entre a cidade e a fazenda. Rimos das disparidades de costumes, da moda, das gírias, músicas, comidas. Thomé conseguiu fazer daquele sábado um verdadeiro momento de descontração. Não houve pressão para que passássemos do limite da amizade.

Se a gente não pode estar perto de quem queremos, temos que aprender a querer quem está perto. Tentei fazer como pediu e esquecer o passado. Eu aprendi muitas coisas nesses meses e com ele deve ter sido igual.


(***)


_O quê? _ tentei não gritar ao telefone para não acordar Clarinha. Minha irmã levantou os olhos da televisão curiosa. _ Não estou acreditando...

_É isso aí, cara. Sua garotinha correu para os braços do ex dela. _ Bernardo contou-me as últimas.

_Mas, ela parecia odiar aquele brucutu.

_Você não deixou brecha? Bola nas costas! _ deu uma gargalhada. _ Pô, cara, fala sério, tu não ta abalado por caso de uma fedelha sem carne, né?

Não respondi.

_Putz! Você, tá? Desculpa, cara. Foi mal aí.

_Jéssi foi de avião com ele para a cidade dela? _ perguntei com uma voz triste.

_Eu não vou falar mais sobre isso...

_Não! Eu insisto que continue me informando.

_Você já está fora dessa missão. Não tem mais nada a ver com isso, Paulo.

_Eu não consigo me desligar dela. Acredita que veio aqui? Eu quase contei tudo. Mas, tive medo daquele pai. Imagina só se ela resolve ficar comigo! Ele vai mandar alguém aqui colocar chumbinho no meu café!

_O velho é estranho mesmo. Nunca vi isso, colocar um guarda-costas para morar com a filha como se fosse amigo dela... Deu no que deu. Pior para você.

_É, parece que só para mim mesmo. Ela, pelo visto, rapidinho se arrumou com aquele cara.

_Calma lá. Isso também não quer dizer que ela já esteja ligadona na dele.

_Eu não duvido de nada. As mulheres são muito inconstantes.

_Nem me fale.

Desligamos.

Minha irmã olhou para mim e balançou a cabeça para os lados.

_Eu já sei o que vai falar. _ disse-lhe.

Ela levantou as mãos para o ar em posição de defesa e encolheu os ombros. Voltou a prestar atenção na sua novela das oito.

_Eu não podia!

_Ainda vai se arrepender disso. _ profetizou.



Bastidores: Se Jéssi está fazendo tudo isso porque acha que Paulo era o vilão, será que vai ter como voltar atrás quando descobrir toda a verdade? E, será que Paulo a essa altura ainda vai querê-la? Hummm, muita estória ainda vem por aí. Ação é o que não vai faltar!

11 de ago de 2008

Capítulo 36: Coração confuso (Jéssi)

Eu não queria deixar a minha vida em aberto. Precisava passar a limpo com Paulo tudo que acontecera. Mesmo que não achasse nenhuma explicação cabível, ao menos queria olhar nos seus olhos e dizer tudo que estava entalado na garganta.

Imaginei que não tivesse mais morando naquele apartamento. Quem sabe fugira para bem longe. Mas, eu deveria encerrar todas as possibilidades antes de dar tudo por encerrado.

O porteiro abriu a porta e não perguntou nada. Pensou que eu ainda morava ali. Subi pelo elevador e toquei a campainha ao lado da porta. Uma mulher morena atendeu. Era bonita e jovem.

_Oi. _ sorri. _ O Paulo ainda mora aqui?

_Mora sim.

_Ah! Ãnh... _ perdi as palavras. Se ele morava ali, quem era ela? Já colocara outra em meu lugar? Ou era sua esposa?! _ Ele está? _ fui direto ao ponto, queria mais que nunca respostas para as minhas perguntas.

_Está sim. _ ela abriu mais a porta para que eu entrasse. _ Fique à vontade.

Entrei e olhei rapidamente toda a sala para ver se estava tudo como antes. Não havia mudado nada. A irmã pequena de Paulo estava sentada no sofá, vendo desenho animado.

_Paulo, visita! _ a mulher bateu na porta do banheiro.

_Quem é? _ ele perguntou lá de dentro.

_É aquela moça que morava com você. _ respondeu.

Como ela sabia? Hei! Eu era a única pateta enganada ali? Ela só podia ser sua mulher que assumira seu lugar. O que eles faziam pelas minhas costas? Riam da situação toda?

_Já vou. _ ele gritou.

Ela foi para a cozinha e fiquei sozinha ali, em pé.

_Você está morando agora aqui com seu irmão? _ perguntei para a garotinha.

_Não! _ ela respondeu sem muita simpatia.

_Não o quê? Você não mora aqui? Está só de visita também?

_Não, ele não é meu irmão.

_Ah! Não? _ ri, surpresa. _Maravilha! O que falta mais eu descobrir... _ murmurei.

_Ele é meu pai.

_Pai! _ repeti assustada.

_Clarinha, vem para cá. _ a mulher gritou da cozinha e a menina desligou a televisão.

_Eu sei que você fez o meu pai chorar. _ ela se levantou do sofá e calçou a sandália rosa. _ Não quero que machuque ele mais! _ deu as costas e foi para a cozinha.

Meu Deus! Eu vou enlouquecer! Isso é muita maluquice. Ele era pai daquela menina! Comecei a ficar com medo do que mais poderia descobrir. Eu tinha cutucado um vespeiro vindo ali!

A menina tinha um olhar de raiva quando falou para não fazê-lo chorar. Se ela soubesse o quanto eu tinha chorado também, se tivesse consciência do que seu pai era capaz de fazer... não iria vê-lo como herói!

_Oi. _ ouvi a voz de Paulo atrás de mim. Assustei-me, estava olhando pelo vidro da janela da varanda a cidade lá embaixo.

Virei-me e o vi de short preto curto e a barriga enfaixada. O cabelo molhado e os ombros cheios de pingos de água. Por alguns segundos pareceu impossível conceber que Paulo fosse um homem mal. Mas, logo, lembrei do pânico que foi o seqüestro, das agressões e humilhações. Ele estava por trás de tudo! Como pude beijá-lo, amá-lo...? Como!

_Eu vim aqui para... _ olhei para o chão e respirei fundo. _... Para tentar entender!

_Jéssi, você está a salvo e isso é tudo que eu posso dizer.

_Aquela menina...

_Sim, ela é minha filha. Se chama Clara. E aquela que atendeu a porta é minha irmã de criação. Eu sou viúvo também. Satisfeita?

_Por que mentiu para mim?

_Eu precisava protegê-las.

_Por que mentiu sobre tudo?

_Para proteger a mim mesmo.

_E eu?

_Está vendo isso aqui? _ apontou para o curativo. _ Essa é a sua parte na minha história.

_Paulo, eu não sei se te agradeço ou se te odeio!

_Veio aqui para escolher qual sentimento vai sentir por mim?

_Eu não sei mais de nada... _ balancei a cabeça para os lados.

_Escolha o que preferir. Eu tenho o meu.

_E qual é?

_Eu não posso dizer!

_Como não?! _ ri, sarcástica. _ Olha em tudo que me meteu!

_Desculpe. _ ele se virou.

_Eu vejo que perdi meu tempo... Vou embora. É uma pena que tudo tenha sido mentira porque eu fui feliz enquanto acreditei que era verdade.

Abri a porta da sala. Chamei o elevador ao lado. Entrei. Antes das duas portas metálicas se unirem e fecharem, Paulo apareceu e colocou o pé para impedir. Tomei um susto. Meu coração deu um salto.

_Jéssi.

Engoli em seco. Ele me puxou pela cintura e o elevador começou a apitar. Nossos rostos estavam muito próximos e, daquela distância, meu cérebro não sabia se lembrava dos bons ou dos maus momentos. Oscilava entre os sentimentos.

_Se cuida, tá? _ pediu e, quando pensei que fosse me beijar, saiu do elevador e as portas se fecharam.

Na portaria, meus três seguranças me aguardavam. Abriram a porta do carro. Peguei o celular da bolsa decidida que esqueceria a existência de Paulo para todo o sempre.

Procurei o número na agenda. Disquei.

_Alô? Thomé?


Bastidores= Será que Jéssi vai colocar outro no lugar de Paulo em seu coração? É possível substituir um amor por outro? A teoria da fila funciona? O que acham?!

10 de ago de 2008

Capítulo 35: Orgulho e Amor

Minha irmã pegou seu casaco em cima da cadeira. Finalmente eu iria deixar o hospital. Peguei o envelope ainda lacrado que o pai de Jéssi deixara. Clarinha, que viera me buscar, perguntou o que era. Abri-o e puxei as folhas que estavam dentro.

_O que diz aí? _ questionou minha irmã, também curiosa.

Li rapidamente, passando as páginas no ar.

_Ele transferiu para o meu nome aquele apartamento onde eu morava com Jéssi.

_O quê? Aquele apartamento?!

Minha irmã arregalou os olhos e recuperou o fôlego. Era realmente muito surpreendente para nós, que não teríamos nunca condição de comprar um imóvel daquele. Lembrei das palavras de Figueiredo sobre o alto preço do amor.

_Não precisa aceitar. _ ela recuperou seu orgulho.

Olhei para as duas e pensei por um momento.

_Eu vou aceitar. Fiz o meu trabalho. Era para eu salvar a vida dela. Fui até o final. Me fingi de amigo, me fingi de desconhecido... agora é hora de seguir meu caminho. Por que não morar naquele apartamento?

_Porque você a ama!

_Eu liguei, mas ela não atendeu.

_Claro! Por que não desmentiu quando ela achou que você tinha alguma coisa a ver com o seqüestro?!

_É muito mais complicado do que pensa! Não se brinca com o pai dela. A ordem era para ela não saber que ele tinha pago alguém para vigiá-la tão de perto. Quando Jéssi conclui erradamente que eu era um dos bandidos, achei que era mais simples deixá-la pensar assim.

_Eu sei! Mas, a partir do momento que você quebrou as regras, já não havia mais razão para continuar com esse segredo!

_Não é tão simples assim...

_Tudo bem! Que seja complicado... mas, onde fica o que viveram? Não acredito que fingiu também gostar de ficar tão íntimo daquela garota.

_Não, nada disso foi fingimento. Talvez, esse foi o erro.

_Que erro, que nada! Eu não apóio muito, mas, como sua irmã, quero te ver feliz. Está escrito no seu rosto que não está completo.

_Pelo contrário, nunca estive tão vazio. Ela me despreza.

_Não, até contar tudo. Diz que o pai dela te contratou para ser seu guarda-costas, Paulo.

_Acha que isso vai fazê-la me perdoar? Não tem noção do que isso significa? Não atenua muito minha situação. Ela vai se sentir enganada!

_Enganada sim, mas, traída não! Agora ela te acha um crápula que tentou seqüestra-la, quando, na realidade, os inimigos do pai dela é que queriam machucá-la! Explica que você foi incumbido de impedir que alguém a fizesse mal.

_Isso explica, mas não justifica.

_Tem que começar por algum ponto. Não justifica você ter mentido, tudo bem. Só que estava cumprindo ordens! Não precisa dizer que o pai dela não faz tantas coisas legais... isso é problema deles. Só não acho justo que alguém que quase deu a vida por ela não seja visto como herói.

_E eu nem queria ser o herói dessa história. _ ri da idéia. _ Só queria ficar perto dela e não digo isso profissionalmente.

_Então! Insista!

_Vou respeitar o espaço dela e deixar a poeira abaixar. Por enquanto, vamos conhecer nossa nova casa? _ perguntei.

Clarinha sorriu e nós saímos do hospital com planos de viver uma vida nova.


Bastidores= Na opinião de vocês, Jéssi deve perdoar? Paulo esteve ao seu lado o tempo todo como seu guarda-costa em missão secreta e acabou fazendo com que ela pensasse que era um dos bandidos apenas para que ela não descobrisse a sua real identidade. Ele deve peitar o pai dela e arriscar sua vida mais uma vez?

9 de ago de 2008

Capítulo 34: Uma ligação perdida (Jéssi e Paulo)

_ Ela deve estar em estado de choque. _ ouvi a voz de minha mãe atrás de mim.

_O psicólogo não conseguiu arrancar nada dela. _ meu pai comentou baixinho.

_Por que não chamou a polícia?

_Eu confio mais nos meus homens.

_Mas, ela saiu de lá sozinha!

_Nem que eu quisesse chamar agora a polícia, adiantaria. Ela disse que não reconheceu ninguém, nem quer ir à delegacia...

_Isso não pode ficar assim...

_Vamos esquecer tudo isso e deixá-la sozinha. _ meu pai pediu e eles saíram do quarto.

Continuei sentada na poltrona, imóvel, com os fones do MP4 no ouvido:

avril lavingne - Avril Lavigne - When You're Gone


I always needed time on my own
I never thought I'd need you there when I cry
And the days feel like years when I'm alone
And the bed where you lie
Is made up on your side

When you walk away I count the steps that you take
Do you see how much I need you right now?

When you're gone
The pieces of my heart are missing you
When you're gone
The face I came to know is missing too
When you're gone
the words I need to hear
to always get me through the day
And make it ok
I miss you

I've never felt this way before
Everything that I do
Reminds me of you
And the clothes you left, they lie on the floor
And they smell just like you
I love the things that you do

When you walk away I count the steps that you take
Do you see how much I need you right now?

When you're gone
The pieces of my heart are missing you
When you're gone
The face I came to know is missing too
When you're gone
All the words I need to hear
to always get me through the day
And make it ok
I miss you

We will be for each other
Out here forever
I know we were
Oh...

All I ever wanted was for you to know
Everything I do I give my heart and soul
I can hardly breathe
I need to feel you here with me
Yeah...

When you're gone
The pieces of my heart are missing you
When you're gone
The face I came to know is missing too
When you're gone
All the words I need to hear
will always get me through the day
And make it ok
I miss you


Estava na suíte presidencial de um hotel de alto luxo. Olhei para a cidade escura e cheia de pontos brilhantes, como um céu de cabeça para baixo. Abracei minhas pernas. Eu vestia apenas o roupão branco e pesado. O cabelo ainda úmido caía no meu rosto.

Como Paulo pode ter feito isso comigo? Todo o tempo estava do meu lado para me entregar aos leões! Era tudo mentira, suas palavras, seus carinhos! Não havia amor, mas um plano para me seqüestrarem.

Senti um nó na garganta que impedia a minha respiração. Duas lágrimas romperam grossas e pesadas, pingaram firmes sobre meu braço. Solucei e limpei o rosto com as costas das mãos. Tinha raiva de mim mesma por estar chorando por aquele canalha.

Levantei e me aproximei da sacada. Olhei para baixo e medi a altura. Chorei sozinha enquanto o vento, minha única companhia invisível, acariciava meu rosto e jogava meu cabelo delicadamente para trás.

Eu o odiava pelo amor que não podia mais sentir. E, mesmo assim, não podia entregá-lo, pois sabia que tinha se arriscado para seguir contrário ao seu plano e me salvar.

Ele se aproveitou de saber que meu pai era uma pessoa importante e me vendeu para os seqüestradores. Como pode ser tão perverso? Eu não merecia aquilo.

_Hei... _ouvi uma voz.

Virei-me. Era Thomé, escorado na porta da varanda que dava para a sacada. Estava de terno, tão diferente do Thomé que eu conhecia sempre cheirando a mato.

Voltei a olhar para frente e ele se aproximou, até ficar ao meu lado.

_Não sabe o alívio que eu senti ao saber que tudo acabou bem. _ comentou. _ Eu percebi que poderia ter te perdido para sempre.

_Thomé, não estou com humor para cantadas.

_Não é cantada. _ ele me fez eu me virar para ele e me encostou na sacada. _ Eu nunca falei tão sério. Não queria te perder de forma alguma. Eu digo isso sem interesses... Por mais que não acredite.

_Depois de tudo o que se passou, eu não sei mais em que acreditar.

_Comece por isso. _ ele me abraçou forte e beijou minha cabeça. _ Eu estou aqui.

Respirei fundo e fechei os olhos.


(***)


Eu estava deitado em uma maca fazia horas. Ouvia ruídos, sentia dores e um sono pesado que, conforme passava, me trazia mais incômodos físicos.

A primeira pessoa que reconheci ao lado da cama foi minha irmã. Cansada, abatida, mas atenta para cada movimento meu:

_Eu só te dou trabalho, né? _ balbuciei.

_Alguém tem que cuidar de você. _ ela sorriu e acariciou a minha cabeça. _ Conseguiram tirar a bala. Logo, estará novo em folha.

_E ela, como está?

_A garota? Não sei, deve estar bem. _ falou com desdém.

_Ela não veio me ver? _ perguntei.

_Não...

Fechei os olhos e tentei suportar aquela nova realidade. Agora, Jéssi não me via com carinho. Eu deveria agradecer se ao menos lhe restasse gratidão.

Ouvímos duas batidas na porta. Minha irmã levantou-se para atender. Ela abriu um pouco e, depois, voltou a me encarar. Antes que eu perguntasse quem era, ela abriu passagem para que a visita entrasse. Senti um frio na barriga. Era ele, meu chefe.

Minha irmã saíra. Agora, éramos só nós dois. Ele, de frente para maca, me via com o abdômen enfaixado e soro na veia. O silêncio absoluto só era quebrado pelo barulho do “bip” dos aparelhos médicos próximos à cama.

Fazia alguns meses desde que me dera aquela missão. Lembro como se fosse agora.

Eu esperava em uma poltrona de couro preto na ante-sala. A secretária me anunciou e ele me recebeu. Indicou a cadeira para eu sentar. Elogiou meu trabalho, que chamou de “limpo” e “sem rastros”. Esse era o motivo de me escolher entre tantas opções de sua confiança.

Toda a grande confusão que se sucedeu em minha vida começou com uma foto sobre a mesa. Era de uma garota de cabelos cacheados e um sorriso hipnotizante. O fato de eu fazer faculdade de direito, conforme me explicara, também era um facilitador para o seu serviço porque me deixaria no lócus da situação.

Os “trabalhos” de alguma forma arriscavam a minha vida. A causa daquele era o mínimo que eu precisava saber para ter uma morte justificável. Foi, por isso, que lhe perguntei o por quê daquela garota da foto:

_Porque ela é a minha filha.

Saí da sala com a sensação de que aquilo poderia ser grande demais e que mudaria totalmente o rumo das coisas. Era uma missão de alto risco. Quanto a isso não me enganei.

A garota era “só” a filha do meu chefe! E estava sendo ameaçada por causa de seus desafetos comerciais obscuros. Eu teria que me infiltrar em sua vida de uma maneira que nunca soubesse o real motivo de tanta proximidade. Minha tarefa era eliminar qualquer um que atravessasse seu caminho para machucá-la. Por isso, aquela arma e o envelope de dinheiro que me entregara.

Jéssi tinha seu guarda-costas na porta do apartamento, mas, não imaginava que sempre esteve protegida por câmeras e um segurança dentro do apartamento e na faculdade.

Minha irmã havia me alertado que eu devia ficar longe do senhor Figueiredo, pois ele se metia com muitas pessoas indevidas e, que se um dia isso vazasse, a polícia poderia querer vasculhar toda sua vida. Eu corria o risco de ser indiciado também. Mas, não estava nem aí. Ele sempre fora um ótimo chefe e me pagava muito bem. Jamais era injusto.

Jéssi e eu nunca havíamos nos visto porque eu tratava de missões mais estratégicas. Viajava com seu pai para outros países, tornava sua proteção quase uma blindagem. Quando ele tinha que ficar na empresa ou em casa, designava seguranças menos treinados.

Neste caso, era sua filha que estava em risco. Minha missão era resguardar a sua vida. Só que eu, no meio do caminho, descumpri uma única regra que ele me dera:

“Você não sairá de perto dela. Mas, não poderá chegar perto demais.”

No dia em que Rafaela mostrou-me no computador que havia gravado as imagens de Jéssi e eu fazendo amor no quarto do apartamento, seu Figueiredo puxou o cabelo da minha nuca e encostou a arma na minha cabeça. Ele estava furioso com o que via. Sabia que poderia ter me apagado ali, naquela sala escura do estacionamento do prédio. Mas, deixou-me vivo.

Talvez, graças apenas a isso que sua filha agora estivesse viva e bem. Eu não desistira de protegê-la e salvara sua vida. Porém, fizera isso por um motivo maior, pelo amor que sentia pela garota proibida da foto.

Lá estava ele, em pé, em minha frente.

_Eu sou um homem justo. _ rompeu o silêncio. _ Quem trabalha comigo sabe. E, eu soube que você tirou Jéssi de lá bem. Além disso, você não contou nada sobre sua missão. Bernardo me falou que você deixou que ela pensasse que era um dos bandidos. Foi muito inteligente de sua parte. Assim, Jéssi ficará longe e você poderá seguir sua vida. Limpo, sem rastros, como sempre.

Ele se aproximou e deixou um envelope em cima de uma pequena mesa, ao lado da maca.

_Isso é o meu agradecimento. Agora, para o seu bem, quero que suma da vida da minha filha. Ou, sabe como são as regras...

_Eu não fiz por dinheiro. _ disse-lhe, quando ele virou as costas para sair.

_Eu sei, exatamente por isso, eu fui generoso. O amor tem um alto preço. Fique longe de Jéssi, tenho outros planos para a minha filha. Sua missão está terminada, não queira que sua vida também.

Ele fechou a porta.

Eu me sentia como um cartucho caído no chão, inutilizável.

(***)

Três seguranças seguiram-me quando saí do quarto do Hotel. Um deles apertou o botão do elevador. Entrei e ficaram na minha frente. A porta se fechou.

Abriram a porta do carro para mim.


Olhei pela janela o mundo cinza que via através da lente dos óculos escuros passar. Coloquei os fones no ouvido e conectei no meu celular.

Pink - Who Knew


You took my hand
You showed me how
You promised me you'd be around
Uh huh
That's right
I took your words
And I believed
In everything
You said to me
Yeah huh
That's right

If someone said three years from now
You'd be long gone
I'd stand up and punch them out
Cause they're all wrong
I know better
Cause you said forever
And ever
Who knew

Remember when we were such fools
And so convinced and just too cool
Oh no
No no
I wish I could touch you again
I wish I could still call you friend
I'd give anything

When someone said count your blessings now
For they're long gone
I guess I just didn't know how
I was all wrong
They knew better
Still you said forever
And ever
Who knew

Yeah yeah
I'll keep you locked in my head
Until we meet again
Until we
Until we meet again
And I won't forget you my friend
What happened

If someone said three years from now
You'd be long gone
I'd stand up and punch them out
Cause they're all wrong and
That last kiss
I'll cherish
Until we meet again
And time makes
It harder
I wish I could remember
But I keep
Your memory
You visit me in my sleep
My darling
Who knew
My darling
My darling
Who knew
My darling
I miss you
My darling
Who knew
Who knew

O celular vibrou na minha mão. No visor, o número de Paulo e sua foto sorrindo. Engoli em seco. Deslizei o dedão sobre o teclado, mas não apertei. Deixei tocando, em inércia. Não atendi. Depois, só restou a mensagem "1 Ligação perdida". Voltei a olhar pela janela.

Bastidores= Hoje, os bastidores quem comentam são vocês... :)