25 de set de 2008

Cap 60. Final: Amor para começar

A porta do carro abriu. Ergui lentamente os olhos e vi os flashs do fotógrafo oficial. O tapete vermelho começava de onde meus pés tocaram o chão e sumia pela longa escadaria de mármore branco que dava para o salão de festas. Soltei o vestido suspenso pelas mãos e este esparramou-se pelo chão fazendo um degradê de vermelho com o tapete. Seus brilhos desenhavam ondas que contornavam minha cintura e ressaltavam os seios apertados no decote. Pensei que aquele vento pudesse desmanchar meu penteado clássico preso.

Todos da empresa estavam ali para fazer uma surpresa para o convidado da noite. Entrei no salão e distribui sorrisos. Tirei fotos com alguns, brindei com outros, troquei beijinhos. Mas, sentia-me solitária caminhando na multidão.

(...)

Minha irmã deitada no sofá me olhava dar o nó na gravata. Perguntou-me o que significava eu ter aceitado ir a festa. Disse-lhe que eu sentia vontade de ir. Insistiu no questionamento e quis saber se eu ia para ver Jéssi. Falei que também.

_Você nunca aprende?

_Não, o amor nunca quer aprender.

_Amor? Amor... _ balançou a cabeça para os lados e continuou lendo a revista.

_Agora eu sei que Jéssi não falou mais comigo desde o seqüestro porque você pediu. Quero vê-la e ponto final.

Naquela tarde minha irmã e eu tivemos uma grande discussão porque ela me confessara que fora a responsável pelo afastamento de Jéssi. Eu não podia acreditar que ela me privara do que eu mais lutei durante todo aquele tempo! Só que não perdi mais nenhuma hora tentando fazê-la se sentir a pior das mortais por reconhecer seu erro. Eu queria imediatamente ver Jéssi. Será que ela ainda sentia o mesmo?

(...)

_Você acha que ele vem? _ meu pai perguntou.

Não respondi, continuei aflita batendo no copo com os dedos.

_Todos estão esperando...

Senti que meu pai queria que eu ligasse para fazer uma pressão, mas eu não iria fazer isso. Fazia uma semana que Paulo saíra do hospital e não nos falamos. Ele deve ter ficado com raiva de eu não ter ido visitá-lo.

Quando eu estava perdendo já a paciência, com o nervosismo a flor da pele, ouvi o primeiro aplauso, depois outros, até que virou uma ovação. Procurei o foco desencadeador. Estiquei o pescoço.

Lá estava ele, com o braço imobilizado e o paletó por cima dos ombros. Ainda mais bonito. Eram muitos homens dentro de um só. Era o meu colega de quarto. Era o segurança do meu pai. Era o seqüestrador. Eram tantos personagens. Não sei qual amava. Talvez amasse qualquer coisa que ele pudesse, na verdade, ser. Porque em todas as suas fases eu estava perto, desejando-o, contra ou a favor do meu lado racional.

Meu pai pegou o microfone e chamou a atenção de todos.

_Dizem que os gatos têm sete vidas. Na outra, ele deve ter sido um gato de madame que vivia no sofá e acumulou mais vidas para essa! Deve ter umas 14.

Todos riram.

_Paulo, você está vendo essas pessoas? O sangue de quase todas elas passaram pelo seu coração. Todos tentamos te salvar.

Ele fez um aceno de agradecimento.

_Mas, ninguém acreditou tanto quanto uma pessoa.

Meu coração disparou. Já era inacreditável meu pai ter mudado sua concepção sobre Paulo, não podia crer que iria fazer um discurso mais longo:

_Eu tenho muitos planos para minha filha. Todo pai tem... Mas, você sempre teve um plano para tirá-la de apuros...

(...)


O pai de Jéssi falava e eu já não conseguia escutar bem. Meu coração parecia tamborilar mais alto. Eu aguardei muito tempo a chance perfeita. O momento. O dia. A hora. O instante. E nada disso precisava de tradução. Ele falava para as pessoas entenderem o histórico de tudo. Mas Jéssi eu já tínhamos entendido muito antes que não dava mais para não acontecer.

Eu não tive medo das armas que poderiam ser disparadas sobre nós. Eu tinha medo era de que matassem o que sentíamos. Jéssi era meu erro irreparável, que eu não queria, mesmo que tentasse, ajustar.

Não esperei que ele terminasse de falar. Caminhei na direção de Jéssi.

(...)

Paulo parou na minha frente. Meu pai largou o microfone e fez sinal para o DJ subir a música. Fez uma cara de quem não ia atrapalhar mais. A luz abaixou e as pessoas formaram casais para dançar. Como algumas pessoas ainda nos olhavam esperando o momento que parecesse cena de filme, Paulo indicou com o braço a área externa. Caminhei na frente e quando parei na varanda do lado de fora, pensei rápido em tampar o silêncio do diálogo com qualquer assunto:

_Viu quanta gente? Foi um milagre... E...

Paulo puxou minha nuca com a mão do braço que não estava ferido e me beijou. Era finalmente um beijo sem qualquer impedimento. Acariciei seu cabelo, senti seu perfume, o calor do seu corpo. Sorri e afastei um pouco o rosto.

_Eu tenho um trabalhinho para você. _ falei-lhe baixinho, com nossas testas coladas.

_É? E como será o pagamento?

_Isso eu conto depois... _ falei baixinho em seu ouvido.

Ele abaixou a cabeça e riu. Segurou minha cintura e olhou nos meus olhos.

_Quero que você me proteja para sempre.

_Mas, é trabalho completo?

_Completíssimo. _ ri e o beijei de leve, provando seu lábio quente e úmido.

_É por isso que eu gosto de trabalhar com você, nada profissional. _ zombou.

_Ah! _ dei-lhe um soquinho no peito e o puxei mais para perto. _ Eu te amo.

_Eu preciso provar isso mais alguma vez?

_Mas eu finjo que não acredito só para ouvir...

_Eu te amo._ falou e me beijou.

Como a noite terminou... Me lembro de um edredom e de uma xícara de chocolate. O resto é só começo de tudo.


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24 de set de 2008

Cap 59: Saber perder (Jéssi)

Backstreet Boys - Inconsolable
No corredor tumultuado pude ver as duas chegarem de mãos dadas. Uma trazia a outra. Não se sabia de quem vinha a força maior. A irmã de Paulo e Clarinha pararam na sala de espera e todos os olhares foram direcionados para as duas.

_Que bom que conseguiram libertá-la. _ disse-lhe em um tom de voz baixo para a menina não ouvir. Passei a mão no cabelo de Clara. _ Estamos fazendo tudo para ajudar o Paulo... _ disse-lhe.

Ela abaixou os olhos para a sobrinha e a puxou pela mão para longe. Achei estranho aquela reação de nos ignorar. Confesso que fiquei com raiva. Que falta de gratidão total com o meu esforço de salvar seu irmão!

As duas ficaram distantes por todo o tempo, abraçadas. Quando a madrugada chegou, fui lhe oferecer café e dizer que podíamos acomodar a garota em algum sofá.

_Obrigada. _ aceitou o copo, mas não falou nada sobre a idéia de tirar Clara dali. Apenas acariciou o braço dela.

_Eu estou sentindo o mesmo que você. _ falei-lhe.

_Não, não está. _ olhou nos meus olhos. _ Você não sabe o que é perder.

_Pode parecer que não, mas, sei sim. _ defendi-me.

_Você perde as coisas e sabe que logo as terá de volta. Só que os seres humanos não são como ações que podemos comprar por um preço maior. Não são como computadores que repomos por um mais avançado. Naquela sala ali ao lado está o pai dessa garotinha. Um cara que te amou e arriscou a vida dele diversas vezes para te mostrar que queria estar ao seu lado. O que fez? Você brincou com ele em um jogo de resistência que deixou bem claro para mim o quanto você não entende nada de perder.

Engoli em seco e não retruquei.

_Ele é o meu irmão e não concordei desde o principio com esse pacto de tantos sacrifícios. Você não merece... _ olhou para o lado.

_Eu juntei todas essas pessoas para salvá-lo!

_Será que não vai ser tarde demais para você aprender?

_Eu não seria tão pessimista em pensar assim. _ levantei-me e caminhei até o lado de fora do hospital.

Precisava ficar sozinha. Aliás, eu estava sozinha. Só queria pegar um pouco de ar. Não havia mais Thomé, nem Rafaela, nem ninguém que me colocasse em perigo por perto. Eles estavam presos. Só que meu anjo da guarda não reagia de jeito nenhum.

Como eu poderia ficar em paz sabendo que deixei aquela menina sem pai? Isso era um peso muito grande nas minhas costas.

_Jéssi... _ ouvi meu nome vindo da porta.

Virei o rosto e vi que era minha mãe:

_As hemorragias pararam.

_Obrigada, Meu Deus! _ olhei para o alto e agradeci.

Minha mãe me abraçou com força. Entramos afoitas, mas não podemos vê-lo imediatamente. Assim que isso foi possível, cedi o privilégio a irmã e a filha de vê-lo primeiro.

Senti-me mais leve. Era maravilhoso o sentimento de dever cumprido. Eu ajudei um milagre acontecer!

Encontrei a irmã de Paulo outra vez no corredor, no fim de sua visita. Ela me disse que o irmão lhe prometera não se meter mais comigo, no dia em que se falaram pelo telefone antes do resgate. Pediu que eu não atrapalhasse mais seu caminho e me mantivesse longe para nunca mais prejudicá-lo.

_Por favor, respeite.

_Tudo bem. _ aceitei, mesmo inconformada.

Era hora de voltar para casa, sozinha. Atravessei o corredor, levando comigo meu coração, o único ainda doente e incurado. Coloquei os óculos escuros e entrei no carro.


Letras de Músicas | Letra de inconsolable

23 de set de 2008

Cap 58: Amor de Alto Risco (Paulo e Jéssi)

Senti o suor escorrer da minha testa. Segurei a respiração e a soltei lentamente. Só conseguia piscar os olhos. Meus movimentos estavam congelados. O braço rígido impunha a arma em direção a Thomé.

_Vamos conversar. Abaixem a arma. _ o policial insistiu.

Vi na testa de Rafaela um ponto vermelho. Um atirador de elite em algum lugar a estava mirando de longe. Se a atingisse, ela poderia disparar o gatilho que estava acionado. Torci para que o fim daquela história não se tornasse uma tragédia.

Foram longos minutos em que ninguém ousou se mexer. Muita conversa por parte dos policiais e nenhuma mudança do lado de cá. Calculei que eles estavam ganhando tempo para alguma movimentação tática.

_Paulo, abaixe essa arma. Entregue-se. Acha certo, matar inocentes? Deixe a Rafaela e Thomé vir com a gente... _ eles tentaram negociar.

Esse era o plano? Fazer com que eles acreditassem que eu seria preso para pegá-los em um instante de fragilidade? Então, que eu fizesse bem a minha parte de interpretação. Deixei a arma no chão e deitei de costas, com as mãos na cabeça. Dessa maneira, ficaria longe da linha de tiro.

Rafaela e Thomé ficaram atordoados. Fingiram que estavam felizes, esboçaram um sorriso de dúvida e acreditaram na encenação.

Jéssi correu para os braços do pai e da mãe. Os policiais fingiram me algemar, mas, um deles falou baixinho:

_Fique calmo.

Enquanto isso, outros policiais pegaram Rafaela e Thomé de surpresa e os prenderam. Eles começaram a gritar que era uma injustiça. Os outros homens tentaram fugir, mas, facilmente foram pegos também.

(***)

Soltaram Paulo e ele caminhou em minha direção. Paramos frente a frente e sorrimos. Ele esticou a mão para alcançar meu rosto. Ao fundo, Thomé se esperneava. Em um dado momento, conseguiu se desvencilhar do policial e pegar uma das armas que estava no chão. Foi tudo muito rápido. Podia sentir que a mão de Paulo iria acariciar minha bochecha, mas o gesto não se completou. Os três tiros que penetraram as costas de Paulo congelaram sua expressão. Depois, ele caiu para frente, sobre mim.

Minhas mãos se encheram do seu sangue e quase podia pressentir o segundo em que ele me deixaria para sempre.

_Paulo, não morre, por favor. _ abracei-o, trêmula, segurando-o nos braços.

Uma ambulância levou-o para o hospital, onde começaram a fazer uma cirurgia longa e arriscada. Não havia sangue para conter suas hemorragias. Liguei para a responsável pelo setor do RH da empresa e pedi que contatassem todas aqueles que tinham o tipo sanguíneo de Paulo.

_Já usamos 200 bolsas. _ o médico informou e senti pelo tom de voz que não havia mais o que fazer.

_Só vou desistir quando o coração dele parar.

Meus pais não falaram nada, abaixaram a cabeça.

_Eu preciso de mais gente, peça ajuda! _ falei para o meu pai. _ Faça alguma coisa!

_Filha, você tem que aceitar...

_Eu não quero! Se ele morrer, é um risco que corro por não ter conseguido. Mas, se ele viver, pai?! Me ajuda. _ implorei.

Ele tirou o celular do bolso e se afastou. Ele conseguira fazer com que seus outros amigos empresários pedissem ajuda aos funcionários. Mais 150 voluntários aceitaram doar sangue.

_Ele continua sem reagir. _ falou o médico no próximo boletim, às 4 da madrugada.

_Precisamos, então, de mais gente. _ disse para o meu pai, que não tentou me persuadir dessa vez a acreditar que o melhor era deixá-lo partir. Depois de tudo, era o mínimo que podia fazer para tentar compensar a grande brecha que abriu para Thomé entrar em minha vida para me destruir.

O médico disse que o caso mais raro que conhecera fora de um homem que recebera 400 bolsas, no primeiro semestre desse ano, aqui no Rio de Janeiro. Eu lhe falei que milagres podem acontecer mais de uma vez. Ele não respondeu, mas sabia que pensava que mesmo sendo possível, eles não se repetiam em tão curto espaço de tempo.

21 de set de 2008

Cap 57: Efeito dominó mortal (Jéssi)

Paulo entrou no quarto armado. Vendou nossos olhos e mandou que caminhássemos em direção ao lado de fora da casa. Primeiro, guiou-me e, depois, fez o mesmo com Thomé. Entramos em um carro.

_Dirija por aquela trilha. _ouvimos Paulo ordenar a alguém e, em seguida, o carro deu partida e se movimentou.

Nossas mãos estavam amarradas para trás com cordas. Eu sentia-me muito fraca, mas, feliz por saber que tudo acabaria bem e logo. Tinha a confiança de que em breve não lembraria daqueles dias horríveis mais. Meu coração se encheu de alegria.

_Seu filho da mãe! _Thomé gritou ao meu lado.

Tomei um susto enorme. O que dera nele? Mandou que Paulo parasse o carro. Estava maluco? A falta de comida afetara seu cérebro?

_Eu disse pára! _ repetiu. _Me desvenda agora, seu traidor.

_Fica quieto, Thomé. _ pedi.

_Se não desligar esse carro agora eu vou mandar matar a sua filha. _ Thomé ameaçou.

Eu não conseguia ver nada, só escutar seus gritos, mas era o suficiente para me deixar completamente confusa. O carro freou e depois o motor foi desligado. Por que Paulo estava acatando as ordens de Thomé? Com que audácia meu noivo tomara posse do controle da situação?

Senti a porta ao meu lado sendo aberta e o vento entrar. Duas mãos me puxaram para fora. Desequilibrei-me e caí de joelhos. Fui desvendada.

Thomé ainda berrava do lado de dentro. Meus olhos viram Paulo frente a frente. Não havia os outros homens, era só ele que dirigia o carro.

Thomé foi retirado do carro e Paulo o empurrou. Ele caiu de joelhos e teve a arma apontada para sua bochecha. Paulo lhe desvendou.

_Eu vou matar a sua filha! _ouvi ainda ameaçar. _ Se você não chegar lá na hora marcada a ordem é para liqüidá-la.

Então, Thomé era o mandante de tudo? Era ele que ameaçava Paulo? Mas, por que iria querer ser seqüestrado comigo? O plano era absolutamente macabro.

_Já está se atrasando para o resgate. _Thomé deu uma risada. Estava completamente louco e fora de si.

_Eles não vão fazer nada, a menos que mande. Mas, e se não estiver aqui para mandar?

_Se me matar, não vai ter quem testemunhe ao seu favor. _Thomé lembrou-o.

Paulo estava com uma expressão dura, o suor corria em sua testa e sua mão continuava apontando a arma para Thomé.

_Você podia ter tudo, por que não deixou a mim e minha filha em paz?

_Por que você nunca me deixaria em paz... Parece um fantasma da Jéssi...

_Largue essa arma. _ouvimos uma terceira voz.

Olhei para o lado, era Rafaela, acompanhada de dois homens também armados.

Fechei os olhos. Pensei que nada poderia ficar pior.

_Mate ele. _ Thomé ordenou.

_Nãoooo! _gritei. _ Por favor, não faça isso. Eu te dou todo o dinheiro que quiser para fugir, Rafaela, eu prometo. Por favor!

_Cala a boca, garota idiota. Mate ele. _ Thomé ordenou.

_Eu dou todo dinheiro que quiser, Rafaela. Suma daqui e deixe que Paulo me entregue.

_Se fizer isso, eu te procuro até o fim do mundo. _Thomé disse.

_O que faria com um milhão de dólares, ãnh? Você poderia ir para outro país e viver para sempre sem trabalhar! _ persuadi-a.

_Parados! _ouvimos a voz de um policial que apareceu em uma viatura de polícia.

Como nos acharam?!

Rafaela apontava a arma para Paulo, que fazia o mesmo em direção a Thomé e os homens que ela trouxera, por sua vez, me ameaçaram. Qualquer ação de uma pessoa desencadearia um efeito dominó mortal.

_Abaixem suas armas. _ o policial ordenou, mas, ninguém o acatou.

19 de set de 2008

Cap 56: A filha (Paulo)

Trilha Sonora, clique aqui

Quando amanheceu o dia em que eu deveria levá-los para trocar pelo dinheiro do resgate, senti que se aproximava também o meu fim. Se livrariam de mim como um saco de ossos no fundo do rio. A idéia era terrificante.

Caminhei cansadamente ao lado de um dos homens para cortarmos um pouco de lenha. Ali, eu era seu escravo e não o mandante de tudo, como fazia parecer para Jéssi. Com a madeira estava molhada, falei que buscaria mais a frente. Ele permaneceu sentado em uma tora, fumando.

Respirei fundo. O ar que saia das narinas fazia nuvens brancas. Segurei firme o cabo de madeira. Pensei na minha filha e em Jéssi.

_Não tem como me dar uma mão? _ pedi.

Ele veio aborrecido e se abaixou para pegar alguns pedaços de tronco. Eu não podia pensar muito. Seria por legítima defesa. Aproveitei que ele estava com as mãos ocupadas e de costas. Bastaram três golpes fortes e certeiros. O homem caiu morto. Olhei para o corpo imóvel e tentei não deixar meus sentimentos travarem meus pensamentos. Puxei-o pelos pés até o rio e desapareci com o corpo. Cobri com a folhagem o rastro de sangue.

Quando cheguei a cabana o outro perguntou onde estava seu amigo. Falei-lhe que tinha ficado para pegar as toras. Avisei-lhe que devia procurá-lo para não nos atrasarmos. Garanti que não sairia dali. Mas, essa não colou. Ordenou que eu mesmo fizesse isso. Sai por uns minutos da cabana como quem toma a trilha da mata. Eu tinha que me livrar dele também.

Olhei a mangueira de borracha que jorrava água no barril. Puxei-a. Com um canivete, cortei um pedaço dela. Minha saída era estrangulá-lo, mas isso poderia dar tempo de que ele gritasse. Desisti da idéia. Não queria chamar a atenção. Teria que ser fulminante.

Trouxe o restante das toras e coloquei na sala. Acendi o fogo. Quando ele se distraiu, bati em sua nuca com um pedaço de madeira. A força dessa vez era a única variante que me faria ter sucesso. Consegui, ele caiu inconsciente. Agora, eu tinha que imobilizá-lo. Usei o esparadrapo para lacrar sua boca e amarrei seus pés e mãos.

Não iria matá-lo, já havia sido chocante demais a experiência anterior. Levei-o para longe da choupana carregado nas costas. Levaria dias para se arrastar de volta. Tomei a arma da sua cintura e peguei o que tinha de mais precioso: o rádio.

Liguei para minha irmã. Ela mesma atendeu.

_Paulo! _ gritou de emoção.

_Tenho que falar rápido. Preciso que consiga o telefone do senhor Figueiredo! Mas, não fale com a Rafaela, entendeu? Ela está por trás disso.

_Tudo bem.

_Notícias da Clarinha?

_Sim, ela está viva. Não agüento mais essa pressão psicológica. Pediram para não sairmos de casa... Ao mesmo tempo, a polícia está em cima da gente. Eles pensam que você é o errado da história. Não quero que cometam uma injustiça!_ chorou.

_Seja fria! Força. Isso vai acabar! Pega o telefone na minha agenda.

Minha irmã me passou o número do pai de Jéssi.

_Promete que vai se afastar dessas pessoas para sempre?

_Prometo. _ garanti-lhe.

Quando o senhor Figueiredo atendeu, ele já começou a me ameaçar:

_Eu nunca te traí em todos esses anos!

_E quer 5 milhões agora?!

_Não sou eu que quero! Mas, o Thomé.

_Do que está falando?

_Ele pegou a minha filha! Fui obrigado a seqüestrar sua filha para salvar a minha!

_Quem me garante que está falando a verdade?

_Todos os anos que lhe fui fiel! A Rafaela está oferecendo todas as informações. Não confie nela!

_Como é que é?

_Isso mesmo! O plano é que Thomé seja a vítima e eu o seqüestrador. Mas, eles vão me matar! Eu estou com medo.

_Paulo, salve a minha filha!

_Senhor, eu vou tentar, mas, se eu não conseguir, salve a minha!

_Farei o possível. Precisa me dizer onde estão.

_É perto do local combinado ontem por telefone. Eu matei um dos homens e o outro que me vigiava consegui desacordá-lo. Vou levar Thomé junto comigo para pegar o resgate. Faça com que a polícia esteja lá para me prender. Temos que armar uma cilada para ele.

_Se trouxer a minha filha para mim, vai ter todo o dinheiro que precisar. Nunca mais terá que trabalhar. Poderá viajar para qualquer país do mundo e...

_Não é uma questão de dinheiro. Eu quero sair vivo.

_Traz a minha filha. _pediu.

Desliguei o rádio e entrei na cabana. Precisava colocar Jéssi e Thomé dentro do carro e dirigir até o local. O maior desafio era explicar a ausência dos outros dois homens.


Letras de Músicas | Letra de any-other-day

17 de set de 2008

Cap 55: Ligação errada (Paulo)

Trilha sonora do capítulo

Eu tinha que arrumar um jeito de falar com Jéssi em particular. Mas, foi ela mesma quem conseguiu a deixa da maneira mais dramatúrgica possível. Ainda bem que percebi a tempo suas segundas intenções.

No meio da noite, ela pediu para ir ao banheiro por que estava supostamente passando mal da barriga. Falei alto para os homens ouvirem que não íamos suportar mau odor nenhum ali. Se ela quisesse, teria que fazer no meio do mato. Depois, fiz um ar de insatisfação e acrescentei que a acompanharia para que não fosse engraçadinha e resolvesse fugir. Pisei duro e grunhi.

Jéssica agachou-se no escuro. Um dos homens nos espiava pela janela. Eu continuei de braços cruzados. Ela, de cabeça baixa, fingia cumprir o que havia pedido para fazer ali. Era humilhante, mas, ao mesmo tempo, genial da parte dela para que não chamássemos atenção.

_O que está acontecendo?

_Não posso falar. _ sussurrei. _Confia e mim.

_Eu to com medo.

_Vou te proteger.

Fiz um sinal para que ela parasse de representar e que voltássemos para a cabana. No trecho entre a janela e a porta, naquele pequeno intervalo de alguns passos em que nossos corpos ficavam em uma zona cega, segurei seu braço. Jéssi virou-se. Com a mão direita, puxei seu rosto e a beijei rapidamente. Foi só um toque, um calor úmido de duas bocas se chocando em um piscar de olhos.

_Eu te amo. _ falei baixinho e, passei na sua frente. _ Anda logo, songa-monga! _ gritei. _ Vai deitar lá com seu cowboyzinho. _ abri a porta para que ela entrasse no quarto e a tranquei.

O telefone de contato foi feito. Pedi o resgate para o pai de Jéssi. 5 milhões. Era boa parte dos seus bens, mas, nada teria um valor equivalente à vida de sua filha. Ele reconheceu minha voz e disse que não sobraria nem cinzas se me encontrasse. Aquilo me assustava tanto quanto o fato de não ter notícias de minha filha.

Combinamos o local e a hora da troca. Eu devolveria Thomé e Jéssi e ele me passaria o dinheiro. Dinheiro esse que seria a moeda de negociação pela minha filha. Eu sabia bem o que ele sentia e entendia a raiva que nutria. No seu lugar, eu pensava o mesmo da pessoa que era o responsável por aquilo tudo. Estava em minhas mãos reverter isso. Mas, um só pequeno gesto errado e levaria a uma cadeia de desastres.

Eu estava arriscando a vida de todos, mas, se não fizesse nada ao meu favor, havia quase 100% de chance de quererem apagar os arquivos. Uma hora ou outro iriam sumir comigo. Essa visão me atormentava e não deixava que eu pensasse com a razão.

Pensei em oferecer uma boa quantia para corromper aqueles homens. Só que não era uma boa idéia. Eles não tinham cara de que se vendiam. Seria uma péssima estratégia.

Eu precisava pegar o rádio e ligar para o senhor Figueiredo novamente. Esperei que os dois dormissem. Peguei o rádio e fiz o contato. O único telefone que tinha de cabeça era o de Rafaela. Ela mesma atendeu. Contei-lhe tudo em poucas palavras e desliguei.

Felizmente, ninguém viu que mexi no rádio em baixo do travesseiro de um deles. Mas, na manhã seguinte, fui agarrado por duas mãos que me levantou do sofá em um só puxão pelos braços. Depois, senti um soco de direita e apaguei. Acordei novamente amarrado a uma árvore. Levantei a cabeça e a senti doer. Abri melhor os olhos. Vi uma mulher na varanda da choupana. Ela se aproximou. Era Rafaela:

_Acha que vai colocar tudo a perder? _ perguntou, puxando meu cabelo para trás para ver o meu rosto. _ Espero que cumpra o seu papel!

Não podia acreditar! Rafaela fazia parte de tudo...? Como é que fui cometer a burrice de lhe contar... Não é possível!

Eu queria me matar por aquela trapalhada. Não podia imaginar que ela fosse desde sempre uma infiltrada na equipe do pai de Jéssi para prejudicá-lo.

_Você sabe que eu também só cumpro ordens superioras. _ ela cruzou os braços. _ Vou ganhar minha recompensa depois...

_Por que veio aqui?

_Para te dar essa lição e... para te trazer um presentinho. A mesma mão que bate, acaricia. _ riu.

Duas mulheres saíram de um jipe que, só naquele momento, percebi que estava ali. Fui desamarrado e as convidadas me puxaram pelo braço para dentro da choupana. Os dois homens não estavam ali. Elas agarraram minha blusa e me atacaram como se eu fosse uma caça. Não tive tempo nem de pensar e me desvencilhar. Rafaela queria que Jéssi ficasse confusa e, pelos gritinhos das meninas, ela já devia estar me odiando.

Agora, realmente eu estava ferrado! Jéssi contra mim me deixava mais sozinho ainda.

Puxei as garotas para fora do casebre e fiz um sinal para que fossem embora.



Letras de Músicas | Letra de darkness-round-the-sun

16 de set de 2008

Cap 54: Plano perfeito (Paulo e Jéssi)

Trilha Sonora do Capítulo (clique aqui)

Eu não conseguia dormir. Meu cérebro era um computador de última geração capaz de fazer todas as combinações de finalização para aquele seqüestro. Jéssi dormia no sofá. De vez em quando tossia, devia estar resfriada. Olhei-a ferida e magra sobre aqueles trapos no sofá e quis ergue-la nos braços e levar para sua casa. Não podia. Jéssi tinha que pensar que eu era um monstro. Se em um só momento duvidasse disso, a vida de Clarinha estaria em risco.

O que será que eles faziam com minha pequena? Desde que me colocaram naquele táxi, experimentei o horror das piores sensações. Primeiro, precisei me fazer de mandante de um seqüestro orquestrado por outra pessoa. Depois, tive que agredir a pessoa que amo para que não ponha tudo a perder. Agora, eu sinto que nem assim vou conseguir sair bem dessa.

Havia dois brutamontes para garantir que eu fazia tudo como ordenado. Se Jéssi os via como meus ajudantes, eu sabia que só estavam ali para me liquidar no menor erro de estratégia. Tentei vestir o personagem e fazer dele um digno ao Oscar! Mas, era naqueles momentos em que Jéssi implorava para eu parar de agredi-la que precisava trazer à tona meu lado mais abjeto, nunca antes conhecido nem por mim.

E quem era o vilão, o mandante de todo aquele roteiro de filme de ação? A chave para o meu final feliz e salvo estava justamente em sua identidade. Se fosse um homem ruim, desconhecido, apenas interessado no dinheiro eu teria chance de ser descartado vivo. Mas, não era com essas cartas que eu estava jogando.

Se é difícil para eu crer na lógica daquele plano perfeito, quem dirá para as pessoas de fora. Nenhuma irá levar em conta a versão verdadeira . Era macabra demais! O pior disso tudo é que eu tinha já quase certeza que me matariam para apagar todos os arquivos do crime e anular qualquer efeito. Era hora de eu fazer meu próprio plano para infringir as regras e salvar o meu pescoço.

(...)

Thomé e eu aguardávamos o dia passar. Mais um dia dentro daquele quarto mal ventilado.

_ Nós temos que matá-los. _ disse-me.

_Claro, com as unhas? _ resmunguei.

_Na menor chance que eu tiver, eu agarro aquele troglodita e esgano ele...

Calei-me. Se Thomé soubesse que eu havia me declarado para o homem que ele pretendia matar, talvez transferisse a raiva para mim. Eu amava Paulo. Não aquele, mas o que eu acreditava que estava dentro dele. Atrás daquela carapaça de vilão morava o doce Paulo que conheci, meu segurança invisível. Se ele dedicara tanto tempo de sua vida para me proteger, por que agora queria me ferir?

_Vou te tirar dessa, amor. _Thomé sorriu para mim.

Eu poderia aproveitar aquela situação extrema para dizer-lhe que não o amava. Ao mesmo tempo, poderia evitar aquela situação extrema para dizer isso em outra hora. O cansaço me fez escolher a segunda opção por pura falta de forças.

(...)

Por acaso, antes de abrir a porta para entregar comida para os dois prisioneiros, ouvi a conversa deles sobre me matarem. Naquele minuto, tive a certeza que era hora de passar Jéssi para o meu lado como minha aliada. Mas, como faria isso sem que os que me vigiavam percebessem?

Deixei o prato de comida no chão.

_Eu estou com sede. _ ela reclamou.

_Tomou ecstasy? Nunca vi ninguém com tanta sede! Levanta, vou te fazer não ter mais sede!

Jéssi continuou sentada, olhou para Thomé, depois para mim. Gritei mais uma vez quer era uma ordem levantar. Ela o fez.

_Vou te levar para beber água. _ puxei-a pelo rabo de cavalo do cabelo.

Os dois homens na sala viram minha brutalidade no tratamento com Jéssi e entenderam meu recado de que estava seguindo o mandado. Levei-a para o lado de fora da casa. Paramos na frente de um barril de água que transbordava. Uma mangueira o enchia.

_Está com sede? _ perguntei e olhei para um dos homens espiando da janela. _ Bebe! _ empurrei seu rosto dentro da água e o segurei por um tempo imerso. Dei uma gargalhada sonora. Jéssi estava quase se afogando quando a trouxe de volta. Tossi e engoliu água. _ E agora? Quer mais um pouco? _ repeti a dose de tortura até que não fizesse com que os homens se preocupassem conosco.

Meu requinte de crueldade tranqüilizou-os Foi nesses pequeno espaço de tempo em que não havia ninguém na janela, que puxei Jéssi pelo cabelo. Eu que estava atrás dela, falei próximo ao seu ouvido:

_Resista.

Ela tossiu e respirou como uma asmática.

_Eu também te amo. _ sussurrei, fazendo-a lembrar de sua declaração na noite anterior.

Levei-a de volta para o quarto. Ela sentou no chão e olhou-me nos olhos. O cabelo molhado em seu rosto. Thomé abraçou-a e gritou que iriam me pegar e acabar comigo.

Jéssi continuou a me olhar.

Tranquei-os.

Eu precisava de um plano urgente.


Nota= Letra da trilha sonora


Letras de Músicas | Letra de everywhere


Bastidores= Paulo consegue fazer da nossa cabeça uma roda-gigante. Ele ama mesmo Jéssi, disso temos certeza. Mas, os motivos desse seqüestro continuam obscuros. Será que saberemos amanhã?

15 de set de 2008

Cap 53: Amor e ardor (Jéssi)

Não sei o quanto aquela droga que nos fizeram inalar era forte. Mas pude ter uma pequena noção de suas proporções quando vimos onde estávamos. Era uma selva. Devem ter nos trazido para cá de carro, de jatinho, não sei. Mas, não parecia que carro chegasse até ali. Era uma ilha? Uma encosta, outro país? Nada parecia funcionar ali, nem rádio! Uma sensação horrível e opressora de ser esquecida como um náufrago, um sobrevivente de uma guerra...

Paulo caminhava na frente junto com dois homens e Thomé e eu seguíamos atrás, puxados pelas cordas que prendiam nossos punhos. Falei que estava com sede.

_Onde pensa que eu vou arrumar água? _ Paulo continuou pisando forte nas folhagens com suas botas. Meu vestido já estava todo sujo e meus pés descalços feridos.

_Eu estou desidratando! _ gritei e parei de caminhar.

_Estamos cansados! _Thomé reclamou também.

Paulo virou-se.

_Onde está sua rusticidade? Virou rápido um cara da cidade! _ riu e olhou para mim.

_ Anda, sua fresca, tem água aqui perto.

Paramos em uma nascente de água e me ajoelhei para beber. Estava fraca, não agüentava mais nada. Estava em meu limite. Comecei a chorar feito uma criança indefesa. Paulo levantou meu rosto, puxando meu cabelo da nuca.

_Levanta!

_Por favor, não, não... _ implorei. _ Eu não consigo!

Ele engoliu em seco e olhou para o homem ao seu lado.

_Fica de olho nele! _ mandou que continuasse vigiando Thomé.

Paulo abaixou-se e me pegou no colo.

_Devia ter te feito andar mais para não ficar tão pesada como uma porca!

Começou a chover.

_Vamos andar mais rápido. _ pediu e meu corpo sacolejou mais, enquanto ele me trazia.

Chegamos noutra choupana de madeira. Levaram Thomé para um quarto e o trancaram. Os
dois homens buscaram nos fundos da casa madeira para aquecer o fogo. Paulo me pôs no chão. Cambaleei até um sofá velho e ali caí deitada.
Ele tirou a mochila das costas e a colocou em cima de uma mesa quadrada próxima da porta. Enfiou uma caneca em uma jarra de barro comprida e bebeu água. Deu-me agora com facilidade aquilo que me negou antes. Aceitei.

_Eu não acredito em nada disso que está acontecendo. _ disse-lhe.

_Quer que eu desenhe? _ Paulo abriu a mochila e tirou um rolo de atadura.

_O que vai fazer? _ perguntei.

_Vou tampar sua boca tagarela. _ disse-me, mas o que fez foi trazer um balde com água, onde mandou eu colocar meus pés.

_Aí, está machucado... _ reclamei.

_Cala a boca. _ mandou e lavou-os sem muita delicadeza.

_Paulo, faz um sinal, qualquer coisa para mim. _ pedi.

Ele tirou uma garrafa de vinagre de dentro da geladeira bege.

_Levanta os pés.

_Não! Não, estão feridos. _ gritei, mas ele não me ouviu e derramou o líquido ácido sobre as feridas, queimando-as feito fogo. _Nããããõooooo, arde! Pára!

Os homens do lado de fora da casa entraram assustados.

_Essa fresca aqui, querendo morrer de infecção. Não é melhor a gente amputar os pés dela? _ comentou e envolveu meus pés com uma tala.

Os dois voltaram a sair da choupana e ficamos mais uma vez sozinhos. Minhas mãos amarradas impediam de segurar Paulo pelo braço.

_Eu sei que é você! _ murmurei. _ Se não fosse, não estaria cuidando de mim.

_Quer que eu te bata? Bem que você tem cara de mulher de bandido que adora levar na cara.

_Eu te amo, Paulo.

_Então continue me amando aí no sofá, quietinha, porque quando eu te furar todinha, você vai me amar por toda a eternidade! Não vejo a hora dessa porcaria de missão acabar. Coisa mais sem fim essa!

14 de set de 2008

Cap 52: Emboscada (Jéssi)

O mais difícil em se terminar um relacionamento é quando a pessoa não te dá uma brecha para isso. Sentia-me um monstrinho a cada vez que pensava em dizer a Thomé que não estava à vontade naquele clima de preparação para o casamento. Aceitei a viagem para que ficássemos a sós e eu pudesse ter coragem para lhe comunicar o término. Tentei isso no café da manhã, mas ele veio com flores e uvas na boca. Esperei pelo almoço e ganhei um anel de brilhantes. No jantar, a música alta do lugar onde me levou para jantar tirou o resto da força que ainda acumulara.

Voltei no carro calada, esperando que ele percebesse que eu não estava feliz.

_Eu te amo. _ beijou minha testa e pegou meu queixo, como se eu fosse sua bonequinha de luxo.

O carro freou bruscamente e fomos arremessados para frente. Só não nos chocamos contra o vidro porque o cinto nos trouxe de volta contra o banco. Senti um frio na barriga quando vi um homem sair do carro da frente. Era um assalto! Droga!

_Fica calma, meu amor! _ Thomé pediu e levantou as mãos para o ar.

_Sai do carro! _ gritou o homem.

Com as mãos trêmulas, soltei o cinto e abri a porta. Thomé fez o mesmo e saiu do lado em que estava o bandido.

_Surpreso em me ver? _ perguntou o homem com a arma na cabeça de Thomé e o choque de estar sendo assaltada conseguiu ser menor quando reconheci o dono da arma: Paulo.

_Some com o carro deles. _ Paulo pegou a chave do carro e arremessou no ar para um homem que a pegou com as mãos em forma de concha.

_Deixa comigo. _ respondeu ninguém menos que meu segurança Wagner.

Estávamos em uma estrada mal iluminada que levava para a pequena cidade onde nos hospedamos. Ninguém poderia nos salvar. Mais dois homens encapuzados saíram do carro à nossa frente e me pegaram pelos braços. Um forçou a mão sobre minha cabeça para que eu entrasse.

_O que quer de nós, seu safado? _Thomé gritou com ele. _ Eu sabia que não prestava!

_Caladinho, senão, eu faço um furo na sua testa por onde vão sair todos os seus miolos. _Paulo assustou Thomé, que se calou, mas não entrou.

Então, um dos homens saiu com um pano e abordaram Thomé por trás, fazendo-o inalar o narcótico. Arrastaram o corpo e jogaram no banco de trás, ao meu lado. Ouvi o pneu cantar. Meu segurança levou nosso carro na direção contrária.

_Paulo, o que está acontecendo? _ perguntei.

_Onde está seu celular? _ pediu. _ Anda, garota, eu não tenho tempo a perder.

Garota?! Por que Paulo estava usando toda aquela violência contra nós?

_Paulo, por favor, pára com isso! _ implorei.

Ele não me deu ouvido. Pegou o celular que eu havia entregue e arremessou no meio do mato. Entrou no carro e dirigiu velozmente. O homem do meu lado direito umedeceu o pano em um frasco. Senti que ele me desacordaria também. Foi tudo tão rápido, que em poucos minutos só havia o escuro.

_Jéssi... _ senti uma mão balançando meu ombro.

Abri os olhos e enxerguei Thomé.

_Onde estamos?

_Não sei. Parece ser uma cabana. _ ele olhou em volta. _ Viu o que esse vigarista fez com a gente?

_Não estou acreditando...

_Eu sempre desconfiei! Ele é um pilantra que só quer seu dinheiro!

_Não pode ser...

_Ainda defende ele?

_Não é isso. É que...

_Deve ter sido ele que ficou te ligando...

Nossos pés e mãos estavam amarrados.

_O que vão fazer com a gente? _ Thomé perguntou-se.

_Espero que isso acabe logo...

A porta abriu. Paulo olhou-nos num canto, ao lado dos colchões.

_Dormiram bem? _ perguntou com ironia.

_Paulo, o que você quer?

Ele caminhou até mim, abaixou-se e pegou meu rosto:

_Minha recompensa por ter tido saco para te aturar. Como você é chata, garota. _ gesticulou com a arma na direção do meu rosto. _ Foi duro te agüentar e conquistar sua família. Mas, agora preciso ganhar com isso, não acha?

_Você vai se ferrar.

_Não fale assim comigo, sua moleca idiota! _puxou-me pelo cabelo.

_Solta ela.

_Seu vaqueiro brega de merda, eu te chamei na conversa?

_Quanto quer? Pede que nossos pais vão dar!

_Ah! Vão, não tenho dúvida.

Ele saiu e fechou a porta.

13 de set de 2008

Cap 51: Um telefonema do inimigo (Paulo)

Nove e meia no relógio em cima da estante. Só a luz da luminária em cima da agenda formando uma bola de branco pálido sobre minha mão e as folhas.

Minha filhinha e irmã viam TV no quarto no grande aparelho que comprara para elas. Ouvia o ruído abafado de algum desenho animado que a fazia rir. Havia rastros de pipoca pelo corredor. Sorri. Era tão bom saber que agora eu podia dar o de melhor para minha família.

Faltava apenas o vazio a ser preenchido. Jéssi, meu único pensamento obsessivo. Ela não saia da minha mente. Era por isso que eu me debruçava sobre seu depoimento. Queria poder mostra-lhe que seu noivo era um mau caráter, já que ela não acreditara nas primeiras provas que eu lhe enviara naquele envelope.

Minha intuição não me enganava. Todas as evidências convergiam em um ponto: Thomé.

Por que ela mostrava a ele as mensagens e ligações e, logo após, estas sumiam? Porque ele apagava para confundi-la. Isso implicaria em ter alguém por trás fazendo as chamadas, o que nem era difícil, visto que com dinheiro é possível ter um batalhão de homens para fazer o bem ou mal ao seu favor.

A foto da porta-retrato me intrigava. Se alguém queria enlouquecer Jéssi, deveria usar situações não tão fáceis de entender por uma lógica mecânica. Apelar para impulsos sobrenaturais era uma forma inteligente. Quem rasgara as fotos? Espíritos? Não, para mim, foram pessoas bem vivas. Eu só tinha que provar. Dessa vez, duvidava que fosse Thomé, mas alguém ao seu mandado.

Pedi ao Bernardo para olhar os CDs com as gravações das câmeras de segurança, no dia seguinte. Ele não gostou muito, desconfiou que eu estivesse armando algo, mas, preferiu nem se interar. Deixou-me sozinho em sua sala. Fiquei ali algumas horas observando todas as movimentações daquele dia.

Thomé apareceu na sala do 5º andar falando ao telefone, ao mesmo tempo, Rafaela no 3º usava seu aparelho. Os dois tinham um semblante sério e temeroso. Balancei a cadeira para os lados e apertei algumas vezes a tampa da caneta. Estava ficando quente.

Depois que Jéssi saiu para chamar Thomé em sua sala, Rafaela entra rapidamente e, 25 segundos depois, sai. Aproximei a câmera e vi que trazia uma bolsa no ombro. Para que ela carregava-a se, naquele horário, ainda era seu expediente? Por que se portava como estivesse para ir embora?

Eu só podia concluir que Thomé e Rafaela tivessem combinado aquela brincadeira de mau gosto. Por que ele iria querer prejudicar a noiva? Para que ela se apegasse ainda mais a ele? Era o método mais cruel de se conquistar alguém!

Precisava falar com Jéssi imediatamente. Fui até a sua sala, mas, estava vazia. Ouvi uma voz atrás de mim conhecida.

_Ela viajou em lua de mel. _ disse Rafaela.

_Ãnh?

_Esses jovens modernos... Thomé decidiu inverter a ordem e foram passar uns dias viajando. Adiantaram a lua de mel.

_Como assim? _ franzi a testa.

_Não sei, não me meto na vida dos meus chefes. Você também não deveria... _ aconselhou e saiu pisando forte sobre os saltos.

Será que Jéssi estava em perigo?

Meu telefone vibrou no bolso. Por um segundo pensei que pudesse ser ela lendo meus pensamentos, mas, era um número privado. Apertei o botão para atender.

_Paulo?

_Alô. Quem é?

_Estamos com a sua filha.

As imagens das pessoas andando a minha volta se tornaram turvas e os sons cheios de ruído como se eu houvesse entrando em pane central.

_O que querem? _ perguntei, tentando ser o mais frio e racional possível.

_Sai pela porta principal e entre no táxi parado do outro lado da rua.

_Ok. _aceitei.

Olhei para os lados, não havia para quem pedir socorro. Eu podia estar sendo vigiado de perto.

Abri a porta e vi o táxi do outro lado da rua.



Bastidores= Não sabemos se Paulo está certo sobre o que aconteceu com Jéssi, parece que agora nosso amigo está com um problema maior para se preocupar! O que vai acontecer agora? O livro entra na reta final com muita emoção!

10 de set de 2008

Cap 50: À quem se pertence (Paulo)

Jéssi contou-me tudo que havia passado nos meses em que estive fora. Tinha uma voz de desespero. Via nela uma prisioneira que não consegue fazer com que as pessoas acreditem em sua inocência. Seus olhos emanavam o terror de abrir mão da consciência de que não era culpada pelos acontecimentos inexplicáveis que ocorriam. Percebi que Jéssi estava à beira de começar a acreditar que estava mesmo louca.

Escrevi tudo em uma agenda. Tomei nota de cada detalhe. Ela, por fim, riu e parou de falar. Disse que eu parecia seu psicólogo naquela posição de quem apenas tenta elaborar a sua livre associação psicanalítica. Eu fui pego de surpresa por sua observação e me dei conta de que procedia a sua observação. Mas, expliquei-lhe que minha experiência de bom analítico de segurança se assemelhava mais a um investigador que a um médico. Ela ponderou, então, que apenas estudávamos objetos diferentes. O médico, a alma; o investigador, o crime. Eu lhe disse que não estávamos longe das duas possibilidades. Primeiramente, Jéssi quis saber se eu achava mesmo que estivesse louca.

_Não está. Mas, quem a sua volta teria interesse em te enlouquecer? Isso seria um crime...

Jéssi franziu a testa. Estava sentada no sofá da sala em que nos refugiamos. Havia milhas de distância entre nós há alguns dias e, agora, éramos separados por uma almofada. Claro que a limitação social de ela estar comprometida também alargava nosso afastamento. Só faltava fazer meu coração entender isso. Meu corpo nem chegara a esse estágio de tentativa de entendimento. Ia logo produzindo milhões de reações químicas que me avivam todos os sentidos.

_Você não era tão frágil assim quando eu cuidava de você... _ estendi o braço sobre o encosto do sofá até minha mão sentir o toque de seda de alguns cachos dourados dos seus cabelos.

_Eu pedi para não ir embora.

_Você ficou porque quis.

Ela fez uma expressão de interrogação.

_É a aliança que se prende ao seu dedo ou você que se prende a ela? _ peguei sua mão com cuidado.

_É você que se prende a mim ou eu que não me deixo soltar de você?

Sorri e Jéssi não gostou do efeito que provocara em mim com aquele seu pensamento alto e abrupto. Levantou-se, mas fui mais rápido. Cheguei antes na porta e segurei a maçaneta.

_Não existem câmeras aqui. _ falei baixinho.

Ela continuou de frente para a porta como se tivesse sido congelada por algum raio de resfriamento. Virei a chave vagarosamente e tranquei a porta por dentro.

_Mas, nós nos vemos... _ ela sussurrou, sem me olhar.

_Não precisamos dividir com ninguém... _ pus-me devagar entre o espaço da porta e seu corpo. Toquei com os dedos os seus. _ O que se pode impedir quando estamos perto demais? _ dei um meio passo a frente lentamente.

_Não faz isso. _ pediu com dor.

_Não fiz ainda, mas, você já está resistindo... _ disse perto do seu pescoço, que ela encolheu.

Como na dança da laranja, ela seguiu o ritmo dos meus movimentos e, com minha tentativa de proximidade maior, acabou ficando no meu lugar, contra a porta. Peguei sua mão e pus sobre a maçaneta para que soubesse que a chave para desistir estava concretamente bem perto do seu poder. Ela apertou com força a esfera de ferro, mas não fez o movimento de girá-la. Isso se deu com sua cabeça, que se virou para mim.

Afastei com a mão esquerda seu cabelo para trás e o polegar acariciou sua bochecha. Os lábios vermelhos se entreabriram e seus olhos já flamejavam a entrega. Restava-me colher o fruto proibido e saboreá-lo.

Ela apertou com mais força a maçaneta. Era sua razão presa a porta e seu coração em minhas mãos. Minha bochecha já colada a sua deixava nossa respiração próxima de ambos os ouvidos.

Jéssi segurou com as duas mãos o paletó do terno. Tirei-o e deixei sobre o sofá, sem desviar os olhos dela, que tentava ainda me evitar. Aproximei-me e deixei que me tocasse por si mesma, sem pressões. Ela apertou a blusa e depois sentiu o calor do corpo. Não poderia sustentar por muito tempo a resistência, mas eu queria vê-la me buscar.

Não consegui mais um minuto agüentar a troca de afagos, nem ela porque me puxou a nuca e beijou minha boca com a sede dos que se contêm. Senti lábio sobre lábio, para um lado e outro; língua na língua, dentro e recolhida; bocas se consumando em desejo e paixão.

Quando o que me pareceram alguns minutos terminou em seu afastamento, mal podia raciocinar o que ela dizia sobre não irmos tão longe, eu estava completamente arrebatado por aquela deliciosa sensação explosiva de felicidade.

_Eu não posso viver sem isso. _ falei-lhe.

Ela engoliu em seco e o celular tocou. Era seu noivo. Fez um sinal de que precisava atender e saiu.

Esvaiu entre meus dedos. Um coração pertencia ao outro. Eu tinha agora que estudar todas as anotações da agenda. Algo me dizia que estavam armando para cima dela. Se eu provasse isso, eles se veriam comigo!

9 de set de 2008

Cap 49: Alter Ego (Jéssi)

Quando Paulo partiu não havia mais uma sombra segura atrás da minha. Na verdade, ele não era uma sombra, era o meu farol, sempre guiando meu horizonte. Agora, ficava o vazio do imponderável. Tudo podia acontecer, sendo que independente da existência de Paulo. Não adiantava mais procurá-lo na explicação dos acontecimentos. Nada mais tinha dedo seu. Era só Thomé e eu. Antes era Thomé e eu, Paulo e eu. Agora havia só uma parte pouco significante que não sustentava mais. A aliança tornou-se pesada no dedo.

Meu noivo estava cada vez mais feliz, dando passos mais rápidos do que se pudesse prever. Quando eu conseguia digerir a compra da casa, ele já me aparecia com a passagem comprada para a lua de mel, as chaves do carro, o contrato com o bufê da festa. Tudo era avassalador e passava por cima de mim.

Eu queria que ele notasse minha tristeza para ver se sentia culpado, mas era alheia a ele, havia sempre um brilho em seu olho e um êxtase em sua voz que tornava tudo ainda pior. Mas, não nos afastamos. Houve um acontecimento estranho que nos uniu ainda mais.

Numa certa manhã, acordei ao seu lado. Olhei a hora no relógio do celular na cabeceira da cama. Havia uma mensagem de voz. Achei estranho. Coloquei para ouvir o recado. Do outro lado, apenas uma respiração longa. Os pêlos dos meus braços se arrepiaram. Contei para Thomé, que fez pouco caso. Culpou algum adolescente desconhecido e desocupado e continuou a dormir. Eu preferi acreditar nele para não começar a paranóia. Deixei o celular na cabeceira e tomei o café da manhã sozinha. Depois,Thomé apareceu na sala com o meu telefone e perguntou onde estava a mensagem de voz. Eu lhe disse: “Na caixa de mensagem de voz”. Ele falou que estava vazia. Franzi a testa e pedi para ver com minhas próprias mãos.

_Que estranho. Estava aqui. Eu ouvi...

Thomé falou que poderia ter sido parte de um sonho... Eu fiquei confusa. Tinha certeza que havia ouvido...

Depois desse acontecimento, encontrei na minha mesa do escritório da empresa a foto minha e de Thomé fora do porta-retrato rasgada. Senti um frio na barriga. Perguntei para Rafaela quem havia entrado ali e ela me disse que ninguém. Fui até a sala de Thomé chamá-lo. Queria que ele visse com os próprios olhos.

_O que há de errado com a foto? _ perguntou ele.

Ao olhar, vi que a foto estava novamente no porta-retrato. Tirei-a com as mãos trêmulas. Não havia rasgo nenhum. Senti-me envergonhada, confusa, com medo.

_Querida, você quer viajar nesse fim de semana? Podemos descansar na fazenda... _ofereceu.

_Pode ser..._ continuei olhando a textura da foto, não havia nenhuma colagem.

Thomé ficou ao meu lado, dando-me apoio durante todo o tempo. Cada vez era mais amoroso e paciente comigo. Mas, isso não impediu de eu continuar passando por situações estranhas.

Comecei a tomar nota de tudo na minha agenda. Um dia, encontrei no lixo do meu banheiro várias páginas da agenda. Peguei-as. Não lembrava de tê-las arrancado. Mostrei para Thomé. Ele perguntou-me por que só havia ali folhas que diziam respeito a nossos passeios juntos.

_Não sei! Juro que não sei! _ comecei a chorar. _ Me desculpa. _ afoguei o rosto nas mãos. Ele estava sendo tão bom comigo e eu demonstrava com aqueles atos incoerentes que não gostava dele. _Não sou eu!

_Jéssi, eu tomei a liberdade de conversar com um psicólogo, já que você insiste em não ir.

_Não quero, não sou eu que estou fazendo isso...

_Ele me disse que pode ser um alter ego seu. Um “eu” que faz as coisas e depois não lembra, quando o outro 'eu" assume.

_Isso não existe!_ levantei-me do sofá e me afastei.

Thomé aproximou-se devagar com olhar paciente.

_Você precisa aceitar um tratamento, Jéssi. Queremos te ajudar. Seus distúrbios de personalidade podem ser tratados.

_Thomé, me deixa sozinha, por favor. _ pedi.

Liguei para o meu pai. Ele tinha uma voz preocupada, como todos que agora lidavam comigo.

_Pai, eu queria que trouxesse o Paulo de volta para o Brasil.

_Tudo bem. _ ele aceitou sem qualquer reclamação.

Cascada - Truly Madly Deeply


Quando vi Paulo no corredor da empresa, senti meu coração trocar o ritmo das batidas, mais fortes, pulsantes no peito. Ele era minha verdade incontestável. Seja lá quantos "eus" havia dentro de mim. Todos eles sentiram falta de Paulo.

8 de set de 2008

Capítulo 48: Signo da Perda (Jéssi e Paulo)

_Paulo?

Ele virou-se. Eu me surpreendi.

_Quem foi embora no helicóptero? _ perguntei.

_A minha amiga. Pedi que a levassem. Ela não precisava passar por isso...

_Por que ficou?

_Porque eu queria olhar para você e acreditar. Agora acredito no quão você é fraca.

_Eu não sei como isso foi acontecer. _olhei para o anel e senti que engasgava um soluço.

_Sabe, Jéssi. São pequenos passos que damos que mudam todo o trajeto. Você fez isso tudo chegar nesse ponto. Agora, espero que curta muito.

_Paulo... Não vai embora. Não vai morar fora...

_Você já tem sua aliança, Jéssi. Agora o direito de ir e vir me pertence.

_Não. _puxei seu braço. _Por favor, não vai. _ pedi e encostei minha testa na sua. _Eu não consigo te tirar da cabeça... _ murmurei.

_Alguém pode chegar.

_Eu sei. _ falei baixinho.

_Você fala como se fosse uma condenada a essa situação...

_Eu vou tentar voltar atrás... _ olhei-o bem próximo do seu rosto. _ Não vai!

Paulo respirou fundo.

_Por que me pedir isso agora?

_Só agora percebi que estou fazendo tudo errado.

_Você sabia disso bem antes, Jéssi. Não é mais uma criança. Pena que esperou chegar a esse ponto. Não podemos ter tudo que queremos.

_Mas nunca é tarde para descobrir o que realmente queremos.

_Acho que seu noivo deve estar te procurando.

Paulo afastou-se.

***

Quando descobri a verdade sobre Thomé, senti um tremendo desgosto por mim mesmo. Eu não devia gostar de Jéssi. Ela estava namorando um cara que vivia de fachada, em vez de aceitar o meu amor!

Tive acesso a informações sigilosas sobre a empresa quando jantava com um dos acionistas. Ele bebera demais e eu lhe arrumei algumas companhias para se divertir. Em troca, acabou abrindo a boca. Contou-me que seu Figueiredo não ia bem financeiramente e Thomé entrou com pesado investimento para super valorizar a empresa.

Mas, ele não estava para brincadeira, queria dominar a empresa, sonhar com a presidência e, ainda de quebra, ficar com a filha do patrão. O pai de Jéssi fechou os olhos e deixou que a ingenuidade e fraqueza da filha a conduzisse para os braços de Thomé. Assim, ele teria uma desculpa ao seu favor: dizer que ela fez essa escolha sozinha.

Só que Thomé não contava comigo em seus planos. Eu entrara de vez nos negócios, tomando parte de tudo e, ganhando a confiança de Figueiredo. Ele sabia que não poderia apenas comprar tudo com o seu dinheiro. Era necessário mostrar que era capaz de ser um bom administrador. Só que, nesse quesito, eu estava muito a frente, para sua contrariedade. E, se podia piorar, piorou, Jéssi não me esquecera.

Racionalizando todos os fatos, pode parecer que eu quero apenas o dinheiro e a filha de Figueiredo, bem como Thomé. Mas, há uma grande diferença entre nós. Eu quero o dinheiro como reconhecimento do meu trabalho e a filha como retorno do meu amor. Mas, eu sabia que Thomé poderia alegar exatamente o contrário para acabar com minha imagem perante Jéssi.

Por isso, eu tinha que ser mais rápido. Fiz o dossiê sobre ele. Mas, pelo visto, não abalou Jéssi. Por que ela estava tão enfeitiçada?! Será que não percebia que Thomé era um cara sem escrúpulos?

Eu não estaria aqui para saber o resultado dessa equação. Seu Figueiredo me transferiu para longe. Para não ter dúvida de que eu não atrapalharia seus planos, me jogou para outro país.

Por um lado, fora bom, eu teria como me purificar do sentimento que me algemava aquela garota. Era só olhar para seu rosto doce e meigo, como agora pouco me pedindo para ficar, que eu reconsiderava tudo ao seu favor. Não podia ser fraco. Era hora de partir.

Se só dessa maneira Jéssi poderia me dar valor, então, que ela passasse por um período de total privação da minha presença para realmente ter certeza que me queria. Não seria nunca mais seu bonequinho de diversão.

Mas, como o dinheiro que me bancava vinha do bolso de Figueiredo, muitas vezes flutuante ao sabor do seu maior acionista, Thomé, acabou muito cedo minha alegria no exterior. Fui chamado às pressas para voltar. E foi o que fiz.

Quando encontrei Jéssi novamente na empresa, depois de dois meses sem nos falarmos, assustei-me com o que vi. Era uma mulher triste, magra e branca. O que mais me assustou foi o disse-me-disse entre os funcionários sobre um possível processo de loucura em que ela estava entrando.

Puxei-a para uma sala e olhei nos seus olhos procurando qualquer resquício de vida:

_Jéssi o que houve?

Ela me abraçou com força, apertando meu paletó com os punhos. Só restou-me envolvê-la com os braços.

_Que bom que te trouxe de volta. _ falou baixinho.

Então, minha volta tinha a ver com algum comando seu? Por quê? O que aconteceu na minha ausência?

3 de set de 2008

Capítulo 47. Para onde a vida vai? (Jéssi)

Eu sorri polidamente para todos os convidados. Apertei a mão de alguns colegas de trabalho, pessoas de quem nem era tão íntima, por causa da diferença de hierarquia dentro da empresa.

Procurei rapidamente com um passar de olhos Paulo. Encontrei-o conversando com outros dois homens. Preso em seu braço aquele penduricalho loiro. Perguntei se poderia falar com ele em particular. Os outros se retiraram, mas ela não entendeu que “particular” não a incluía.

_Vou pegar mais churrasco para você. _ ela disse e saiu elegantemente.

Não agüentei e a segui com um movimento de cabeça.

_Cuidado que seu olhar de inveja pode rasgar o vestido dela. _ Paulo falou bem próximo de mim.

Virei-me e vi seu rosto muito perto.

_Quem disse que tenho inveja dela? Eu sou mais bonita. _ cruzei os braços.

_Não é disso que está com inveja.

_E de que estaria? _ perguntei de testa franzida.

_Nada, esquece... Viu o envelope.

_Ah! Vi... _ menti para não ter que entrar em detalhes de trabalho.

_E tudo bem?

_Ah! Por mim... Ãnh, soube que vai viajar.

_Não estou acreditando... _ ele balançou a cabeça para os lados.

_Em quê?

_Está muito cega. Como pode ficar com esse cara sabendo de tudo?

Eu sabia que Thomé já havia pisado na bola, mas, não era hora para desenterrar o passado. Por que Paulo queria fugir do assunto sobre sua transferência?

_Você não queria tanto ficar e aprender na empresa do meu pai?

_Eu vou aprender de longe. _ disse, em tom amargo.

_Parece que está fugindo.

_Estou, que bom que percebeu.

_E sua filha?

_Vou ver se posso levá-la depois.

_E...

Paulo ficou de costas para as pessoas e olhou dentro dos meus olhos.

_ “E você?” É isso que ia dizer? Não fui eu quem fez essa escolha. Não estou te deixando para trás. Eu estive aqui até hoje, Jéssi. Tchau!

Paulo largou o copo que segurava na mesa e seguiu em direção a porta da sala. A sua acompanhante segui-o.

Só naquele momento eu me dei conta de que havia sido injusta com todos: Paulo, Thomé e eu. Estávamos em lugares errados na vida e, agora, Paulo ia embora para longe.

_Eu queria a atenção de todos... _ ouvi a voz de Thomé no microfone.

As pessoas pararam de conversar e começaram a prestar atenção.

_Hoje, é um dia muito importante. Eu sei que ele vai marcar a minha vida e a dessa mulher linda e maravilhosa que amo tanto...

Todos começaram a me olhar. O que eu menos queria!

Começou a tocar uma música romântica e Thomé caminhou em minha direção com uma caixa na mão.

Meu coração disparou em desespero. O que ele ia fazer?

_Senhor Figueiredo, concede a mão da sua filha em casamento? _ perguntou.

Meu pai disse que sim e levantou a taça de champanhe. Todos ovacionaram de pé. Thomé pegou minha mão e pediu meu sim. Eu sorri falsamente e ele me beijou. Mais aplausos. Quando vi, estava com um anel de brilhantes no dedo.

_Vou te fazer muito feliz. _disse-me.

O helicóptero saiu da pista de pouso. O barulho abafou a música por alguns segundos. Paulo partiu e ficou no meu rosto uma tristeza paralisada. Poderia ser uma estátua triste no jardim, mas era eu, sem ação.

Quando todos estavam voltados para seus pratos de carne, fui até os fundos da casa para ficar um pouco sozinha. Tomei um susto quando vi que um homem de costas olhava para as árvores do pomar.

_Paulo?

Ele virou-se. Eu me surpreendi. Não tinha ido embora.

2 de set de 2008

Capítulo 46: Olhares e disfarces (Jéssi)

Senti Thomé me abraçar por trás. Sorri. Não ouvi quando ele entrou no quarto. Sentei na cama para pentear o cabelo. Ele ficou na minha frente, me admirando.

_Nunca estive tão feliz. _ aspirou o cheiro do xampu nos meus fios longos. _ Você está mais linda, mais sexy e mais atraente que nunca.

Devolvi o elogio com um sorriso. Estava bem ao seu lado, mas, não podia me dizer completamente apaixonada como antes. Isso me dava uma pontada lá no fundo. Sentia-me um pouco canalha por isso. Mas, ao mesmo tempo, grata por tê-lo como companhia e distração no tempo em que descobri tudo sobre Paulo. E olha que foram duas bombas: a primeira em que achei que tivesse a ver com os caras que me seqüestraram e, a segunda, quando descobri que ele era, na verdade, um guarda-costas do meu pai. Agora não dava para chutá-lo para escanteio como uma boneca que cansei de brincar. Precisava encontrar o momento oportuno.

_Você já vai sair? _ perguntou.

_Vou... _ falei sem muito entusiasmo, puxando os fios de cabelo preso do pente.

_Você não está animada.

_É só um churrasco, estou acostumada. _ disse, enfadada.

_Hum...

_Não parece ser bem isso.

_O que está querendo que eu responda? _mostrei impaciência.

_Nada. _ virou o rosto.

_Ah! Cadê o envelope que eu te dei.

_Depois vê aquilo... Era coisas de trabalho.

_Como sabe? Você abriu?

_Ah! Estava aberto, aí peguei de cabeça para baixo e caíram as folhas...

_Sei...

_Que importância isso tem?

_Daqui a pouco tudo vai ser comum a nós dois.

_Como assim?_ falei grosseiramente.

_Ora, não vamos ficar juntos?

Não queria colocar o assunto em pauta para me tirar a fome, tentei usar outra estratégia, saindo pela tangente:

_Não é isso, mas, independente do tempo, seja um ano, 50 anos, não pode passar por cima da minha privacidade!

_Ãnh... Tudo bem, desculpe. Não fiz por mal.

_Hum.

_Qual é o problema? Isso me faz desconfiar de que ali poderia ter algo comprometedor...

_Não viaja, hen?!

_Eu percebo que a presença dele ainda te afeta.

_Ele quem?

_Você sabe de quem estou falando!

Eu, que estava me olhando no espelho, virei-me para Thomé de sobrancelhas levantadas.

_Não sente mais nada pelo Paulo?

_Me abstenho dessa discussão que não leva a nada. _ disfarcei.

_Eu não gosto desse cara... _ reclamou.

Santa paciência!

_Por quê?

_Eu acho que ele só está na empresa para ocupar o lugar do seu pai.

_Tem noção da gravidade dessa acusação?

_Você é muito ingênua. Não percebe que ele está tomando espaço rápido demais?

_Ele já trabalha para o meu pai há muito tempo.

_Como segurança.

_Tá. Mas, se ele não mostrasse resultados, meu pai não admitiria isso.

_Eu vou mais além. Acho que ele deu em cima de você para chegar a...

_Não! Parou por aí, Thomé! Eu também me envolvi, não foi algo orquestrado...

_Mas ele te seduziu com segundas intenções! Você é uma pessoa muito boa e não conhece a ambição de um homem como ele.

_O que significa que você também pode me despertar desconfiança.

_Eu te conheço desde que éramos gente!

_Hum...

_Amor, fica ligada. _ deu-me um beijo na testa.

Thomé estava sendo coerente, mas meu coração me impedia de acreditar naquelas possibilidades. Odiava quando ele plantava aquelas pulgas atrás da minha orelha.

_O bom é que ele vai para longe.

_Como assim?

_Não sabe? Ele vai para Nova Iorque.

_O quê?

_Por que está tão afetada?

Cansei de não mostrar reações naquele joguinho de disfarces. Não podia acreditar que meu pai o transferira para longe!

_Não me avisaram nada.

_Mas, como você não sente mais nada por ele, acho que já pode encarar isso como só um afastamento de um colega de trabalho.

Aquilo era um teste?! Era uma provocação?! Antes de ficar irritada com Thomé, eu só pensava em Paulo, que não me dissera nada!

1 de set de 2008

Cap 45: Bem arranjados (Jéssi e Paulo)

A festa foi feita na fazenda do meu pai. Não na que eu morava com minha mãe, em uma outra mais ao norte onde havia estalagem para os visitantes.

Minha mãe dessa vez apareceu para organizar tudo. Não entendi por que ela fazia isso, já que estava implícito que meu pai aquela noite estaria acompanhado por Rafaela, sua secretária e mais novo “lance”.

Estranhei, mas agradeci por tê-la perto. Thomé esteve ao meu lado o tempo inteiro com um humor tão acima do seu normal que também desconfiei. Tudo ali era além do natural. O menu, a roupa dos garçons, a banda tudo muito acima da média.

Cada detalhe denunciava que eu não sabia de tudo que se passava. Por que minha vida tinha que ser um livro de mistérios para eu folhear e descobrir a razão dos fatos aos poucos?

Eu ainda estava tentando montar o quebra-cabeças, fazendo perguntas para todos quando ouvi o barulho do helicóptero. Franzi a testa e larguei a taça sobre a mesa da sala. Não andei muito rápido até a janela para não chamar a atenção de ninguém. Lá no fundo eu temia e, ao mesmo tempo, desejava que fosse quem eu queria.

Ainda olhei discretamente para trás para conferir se Thomé estava centrado na jogada de xadrez que armava contra meu pai. Minha mãe não parava de falar com a chefe de cozinha. Tudo normal, menos meu coração, retumbando tão alto que só o som das hélices do helicóptero disfarçava.

O reflexo do meu rosto no vidro poderia me denunciar, tentei segurar qualquer sorriso em formação. Se antes isso precisou força, em instantes se tornou natural com o que vi.

Do helicóptero, desceu Paulo e depois uma moça loira de vestido esvoaçante comprido e de costas nuas. Era tão magra e alta que não duvidava que a tivesse escolhido de alguma agência.

Ele a segurou pela mão e vieram correndo enquanto ela protegia o vestido para que não subisse. Pararam na varando rindo e ela deixou cair sobre seu corpo longilíneo o tecido de seda, tampando suas sandálias altas.

Paulo devia sentir meu cheiro ou rastrear meu olhar porque me encontrou à janela a espreitá-los. Virei-me de costas e ouvi do meu pai a pergunta de quem era.

_Um outro convidado... _ fiz pouco caso e sentei no sofá, me refugiando atrás de uma revista.

_Paulo! _ meu pai vibrou quando ele passou pela porta. Revirei os olhos sem sair atrás da revista.

_Obrigada pelo helicóptero, senhor. Sem isso não conseguiria vir.

_Fechou o negócio?_ perguntei.

_Claro, senhor.

_Que bom que veio. Jéssica... _ meu pai chamou.

Eu temi que não estivesse tão natural quando abaixasse a revista. Que diferença?! Era só mais uma coisa fora do comum naquele fim de semana sem pé nem cabeça.

_Me chamou? _ perguntei.

_Já sabe onde Paulo e a sua amiga ficarão?

_Não... _ fiz pouco caso e virei a página da revista. _ Mãe, pergunta para a empregada, por favor? _ falei sem tirar os olhos das folhas.

_Venham por aqui. _minha mãe pediu e os direcionou.

Levantei-me e anunciei que daria uma volta.

_Não demore, o almoço já estará pronto.

Hum... é! O tal churrasco de comemoração aos bons negócios. Esquecia o motivo de estarmos ali.

Dei uma volta no jardim e vi que ali já estava movimentado com os convidados. Procurei o sossego dos fundos da casa. Deitei na rede e deixei meu pé direito para fora da rede roçando o chão frio.

Mais que de repente, senti um puxão no meu pé. Dei um pulo e tentei ficar em pé apoiando-me nos cotovelos. Como o tecido era mole, enrolei-me ainda mais na rede como um peixe se debatendo na armadilha. A rede virou comigo e eu caí de joelhos.

A primeira coisa que vi foram os sapatos pretos de Paulo e minha cabeça se levantou para pegar em close seu rosto franzido de uma gargalhada que o fazia se contorcer, sem ar.

Levantei-me lentamente e meu olhar enfurecido deve tê-lo feito perceber que eu não gostara nada porque se conteve e ficou sério:

_Desculpe, pensei que tivesse me visto na porta...

_Não vi... _ tentei tomar o caminho da cozinha, mas senti meu braço preso em sua mão e voltei-me. _ Você sabe que a sua presença é uma provocação, então, o que ainda quer de mim, Paulo?

_Acha que estou aqui para isso? Não! Eu sou um empregado como qualquer outro...

_É, eu tenho que me lembrar disso. Já faz bastante tempo que trombo com você como se...

_Eu tenho que falar uma coisa para você... _Paulo me interrompeu e mostrou um envelope. Falava baixo e tinha o olhar sempre atento na porta da cozinha.

_O que é?

_Para examinar.

_Hum... Com licença, vou tomar banho.

Segui pelo corredor e encontrei com Thomé. Pedi que guardasse o envelope no quarto. Ele perguntou o que era e falei que não era nada demais.

_O que vai fazer? _perguntou.

_Tomar banho.

_Mas, o banheiro não é para lá?

_E a piscina é para lá. _ apontei na outra direção.

Abri o vestido de botões.

_Você não vai cair na piscina agora. Está cheio de gente que trabalha...

_E eu estou em casa. _sorri.

Caminhei de biquíni até a borda da piscina. Mergulhei fundo e atravessei toda a piscina. Dei um impulso para cima e apoiei-me na borda oposta, ficando apenas com o rosto sobre o piso de arenito. Paulo escorado em uma coluna da varanda dos fundos me olhava enquanto bebia.

(...)

Quando encontrei o senhor Figueiredo sozinho, achei uma brecha para comentar sobre o evento daquela tarde.

_Fez um bom arranjo. _ falei vagamente.

Ele me devolveu um olhar de interrogação.

_Seus planos para Jéssi sempre estiveram imbricados com os da empresa. _ afirmei.

_Gosto que ela esteja no comando. Um dia eu vou embora.

_E Thomé assume tudo. _ falei e ele entendeu do que se tratava, mas, disfarçou.

_Se ele tiver o dom...

_Nem sempre é preciso dom quando se tem dinheiro e a filha do dono.

_Como ousa falar assim comig...

_Jéssi já sabe que ele comprou a maior parte das ações e detém o controle acionário agora?

_Como sabe disso tudo?! Andou invadindo meu computador?

_Os sistemas de segurança dos computadores são invioláveis. O que não pode se dizer das pessoas...

_Prefiro que Jéssi fique fora disso.

_O que parece contraditório já que todos os fatos se mexeram por que tinha ela como eixo.

_Não entendo aonde quer chegar.

_O senhor precisava de alguém que tirasse sua empresa de dificuldades antes que começassem a especular isso e suas ações perdessem valor. Naturalmente, o Thomé poderia fazer isso e, de quebra, ganhar a sua filha.

_Eu não entreguei a minha filha.

_Então o que significa essa festa senão uma forma de chegar logo o momento em que vai poder dizer que ele agora faz parte do conselho. Se contar isso agora para Jéssi ela vai achar que o senhor a empurrou como pagamento.

_Você não merece a chance que eu te dei.

_Sim, eu mereço. Quem não merece é a sua filha que nunca sabe dos seus planos para ela. Primeiro foi comigo, agora com Thomé.

_Eu só quero o bem dela.

_E da sua empresa.

_Eu não te devo satisfações.

_Um dia vai dever a ela. Mas, é como sempre diz, o pai ela vai perdoar... E o futuro marido? Ele infeliz, acaba com sua empresa... Que situação arriscada.

Ele terminou de beber a sua bebida e saiu de perto de mim. Será que Jéssi já havia lido o envelope? Não estava longe a hora em que ela seria pedida em casamento. Rafaela já me contara quais os planos para aquela reunião na fazenda.